quarta-feira, 30 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

ἀποστασία

Quando a luz perdeu a chama
E a água na ampulheta entrou.
Quando o barco perdeu o mar
E a noite o neon frio iluminou.
Quanto a espada cedeu ao tiro
E a terra o céu azul estilhaçou. 

sábado, 12 de novembro de 2016

Esponjas de sol - XXIII

631. O triângulo solitário como representação da Santíssima Trindade é falho. O “correto” seria um triângulo contendo, centralmente, um círculo. Na medida em que o triângulo é uno como figura total, é também trino por conter três ângulos-cantos que também se triangulam ao formar outros três triângulos -- três derivações parciais do todo, logo, três outras figuras e, por isto, três entes por si, o que é contrário à Revelação. Porém, se há ali um círculo, há o eterno sem ângulos que reúne os ângulos na placidez de sua curva infinita. Os ângulos demonstram o que é diferente na ação e a ausência de ângulos que os reúne demonstra o que é igual na propulsão. É a unidade perfeita na diversidade perfeita: é um-que-é-três.  

632. As biografias dos heróis bíblicos são sempre cheias de contradição. Via de regra, são pequenos como Davi, chorões com Jeremias, jovens idealistas como José, viúvas piedosas como Judite e tímidos gagos como Moisés aqueles que vencem os grandes como Golias, os calculistas como Joaquim, os políticos pragmáticos como os nobres egípcios, os pretensiosos como Holofernes e os tiranos espalhafatosos como Ramsés II. Portanto, se veres alguém triunfando contra todas as “possibilidades naturais”, contra todas as poderosas hostes deste mundo bruto, desconfie: talvez Deus esteja movendo os pauzinhos da História.

633. O maior elogio que se pode fazer à beleza de uma mulher é ficar encabulado, desconcertado, sem palavras (ou com elas engasgadas no ponto que divide a alma das cordas vocais) diante dela. Estagnar diante de uma filha de Eva,“como un niño frente a Dios”, incapaz sequer de balbuciar os mais simplórios adjetivos de admiração é o ápice do maravilhamento -- verdadeiro thaumazein, no dizer filosófico. Quando cessam as palavras é o ser todo que se prostra, é a unidade de espírito-alma-e-corpo que elogia.

634. The Exile Reloaded -- Senhor, estão cativos os nossos olhos da luz que não quer amanhecer: o sol está enterrado no quintal, junto com o cachorro do vovô. Para que tantos livros na estante? Para que a Velha Escritura somente? Ficam os bibelôs kitsch e os cristais! Nós guardamos o maná na geladeira, entre o camarão e o resto do manjar. Senhor, estas roupas que crescem conosco não são suaves com as sedas chinas, não são imperiais como a púrpura, não são arminho nem rico linho. Remendaremos o custoso corroído; o gratuito sempre novo, dá aos outros!

635. Não basta gostar de algo; é preciso conhecê-lo, entendê-lo e, na medida do possível, esforçar-se por compreendê-lo com certa integralidade. Então, mais do que simplesmente ter simpatia afetiva por determina coisa, ter-se-á satisfação em dominá-la a ponto de dela extrair sua amplitude-na-realidade. O grande erro dos lobos anciãos e das velhas raposas da política é que eles gostam muito de política, mas não entendem porcaria nenhuma dela. Os senhores feudais gostam a valer dos brasões, das moedas douradas, dos salamaleques dos vassalos, enfim, da “mise en scène” do poder político, porém nada discernem acerca das estruturas mesmas da política e de como elas afetam e são afetadas pelas demandas do espírito, da alma e do corpo humano. Ainda bem!  

636. Cômico: a frustração repentina e abrupta de uma lógica linear de conteúdo afetivo sério ou ordinário (ao qual se rende certa reverência comportamental) por uma “manifestação” ilógica de conteúdo afetivo extraordinariamene piegas ou hilário (propulsora da irreverência dormente ou geradora de nova irreverência).

637. As entranhas do “poder” são o poder das entranhas. Do contrário, a gente não assistiria ao triste espetáculo público dos vômitos verborrágicos, das caganeiras mentais, das cólicas de cortisol, da bílis pinga-ácido. Toda a ação dos bárbaros na luta pelo “poder” nasce do poder das suas próprias entranhas -- fétidas, pútridas, corroídas... pelo mal.

638. O ego de certos sujeitos é tão super-inflado que a gente chega a ter a opinião-diagnóstico de que eles sofrem de claustrofobia do globo terrestre.

639. A madrugada solitária, abismo entre dia e noite, expõe a luz embrionária, cálice do sábio deleite. Só beberá do amanhecer o de sincero pensamento, cantando alegre lamento ao luzido rei sombreador. Tu não conheces o todo, nem suspeitas da parte. Como escreverás à Arte se não narras teu êxodo?

640. A vida deve ser levada a sério não porque há um público de olhos atentos e caderninho de anotações em riste bisbilhotando nossos passos sobre a terra. A vida deve ser levada a sério porque temos que prestar contas a nós mesmos para que, no momento supremo, quando o corpo estiver pronto para o túmulo, prestemos contas Àquele que nos deu um “naco” do seu Fôlego -- nossa alma imortal. É a inviolabilidade da nossa consciência marchando sob a Lei de Deus que deve moldar nossas ações no Mundo, para o qual devemos virar as costas sempre que ele ousar supor que pode nos influenciar como se fôssemos poodles adestrados de picadeiro destinados às gargalhadas da arquibancada existencial. Quem vive detém soberanamente seu próprio palco e, como tal, sempre (“forever and never, hallelujah!”) dará o tom do silêncio, do pranto, do riso, da ira, do mimimi, etc, daqueles que escolheram mofar sentados na platéia. Quem leva a vida a sério torna-se a ação motriz daqueles que, mecanicamente, feito ventríloquos vitorianos, apenas reagem.  

641. O domínio da linguagem é a linguagem do domínio.

642. Nossos dias cronológicos são dominados por “dias temáticos” em termos de palavreado e de assunto para este palavreado. Dizemos e escrevemos certas coisas e, se nos auto-avaliamos neste nosso ofício humano de lançar palavras no Mundo, percebemos que certas expressões vão formando um “crescendo” logo-semântico de significados que se enraízam e se expandem no tempo ulterior. Certas palavras e expressões se repetem “inconscientemente” nestas nossas pequenas jornadas atemporais. É como se o Logos Divino frutifica-se em nós “pontos de referência” lingüísticos (verdadeiras bússolas do Verbo) para nos encaminhar o espírito à certas searas de mistério e conhecimento.

643. Deus confidencia mistérios à tardinha.

644. De lavagem das mãos em lavagem das mãos, as palmas e os dedos se descarnarão até os ossos. O hábito de Pilatos é, de longe, um dos maiores fazedores de caveiras espirituais.

645. A vocação cristã não é propriamente vocação no sentido de constituir-se num chamado específico, enfim, num chamamento à uma missão sui generis a ser desempenhada em função do ser humano para o Reino de Deus. O chamado específico existe, certamente, mas ele é a senda de homens e mulheres especialmente convocados a desempenhar ministérios e carismas “espargentes.” A vocação cristã, então, é o grandioso chamado a viver a vida que Adão e Eva deveriam ter vivido no Éden, é o chamado à existência-com-significado, é o chamado à integralidade do calendário, é o chamado ao ordinário das 24 horas, dos 365 dias, enfim, à liberdade de entrosar-se organicamente na “faixa etária” dos comuns em comunidade.

646. “Qual é a tua vocação?” Esta é a pergunta que procede ao “Conhece-te a ti mesmo” da filosofia, porque dela deriva imediatamente. A Vida nos chama a cumprir com a nossa vida um propósito que, ao mesmo tempo em que individualmente nos sacia o espírito e o enche de satisfação existencial, também afeta beneficamente o corpo social no qual nos movimentamos organicamente. E como encontrar a própria vocação e ter certeza da veracidade (e, então, da validade) dela? Recorda os teus sonhos e os teus pesadelos conscientes aos cinco anos de idade. O que tu eras essencialmente para ti mesmo, para o mundo e para Deus naquela fase inocente da vida, é o que deverás ser até a morte. Que idéia e que ideal te movimentavam o ser? Que beleza humana ou divina te fazia brilhar os olhos? Que atividade (ou hobby) desejarias perpetuar pelos séculos dos séculos? -- aquela que faz valer a Lei da Relatividade einsteiniana: 1 hora disto, é 1 minuto fugaz de grande alegria; 1 hora daquilo, é um dia todo chato e maçante. Então, a primeira coisa a fazer é despir-te das carapaças, dos “jugos” e dos “fardos” no dizer do Cristo, e, então, recomeçar com serenidade a especializar-te na tua obra, que é construtora da Obra.

647. É comum vermos/ouvirmos/lermos muitas pessoas se gabando de serem “sinceras”, atribuindo-se uma virtude que, em verdade, não lhes pertence de modo algum. Sinceridade é uma postura que exige essencial consonância com a Verdade e com o Bem, de modo que grosseria, boca-grande e língua pesada, histerismo e toda sorte de chulismo comportamental nada têm que ver com sinceridade. Trata-se apenas de má criação, de despudor, de descaramento, de desbocamento cru, nu e bruto. A Sinceridade verdadeira é aquela que expõe a Realidade de modo a construir uma Realidade intensamente melhor; para tanto, exige moderação: exige a capacidade de tratar dos assuntos mais duros e espinhosos com tato, elegância e, sobretudo, com educação. É por isso, e só por isso, que com freqüência estas pessoas “sinceríssimas” não são levadas a sério nem sequer por aqueles que lhes aplaudem. Quem grita e berra sem parar não é capaz de agremiar respeito. Sinceridade, quando dura, deve ser medida: e é esta aquela que causa tremores, temores e terrores na Realidade e angaria respeitabilidade pública e privada.

648. Nas democracias pós-modernas, a articulação do poder acontece predominantemente através da desarticulação da sociedade. “Divide et impera”, sentenciava premonitoriamente Júlio César. Portanto, não há nada que estranhar, em termos de resultados eleitorais, a vitória de Donald Trump. As esquerdas elitistas, movidas por sua hidrofobia marxista, dividem: instauram e fazem a “guerra de classes”. Nos EUA, Bill Clinton começou a cisão da sociedade americana e Obama completou-a com cerejinha no bolo e tudo o mais. Então, a direita populista reúne (não une) seus pedaços desconectados e, por eles e neles -- afinal, a democracia eleitoral representa a supremacia do número --, triunfa. Este é o terrível e entrópico mecanismo das pelejas eleitorais da década anterior e pelo menos das cinco ou seis décadas futuras, cuja astúcia ultrapassou até mesmo as previsões do canalhíssimo Nicolau Maquiavel, afinal, ele não contava com cédulas e urnas eletrônicas. It’s the realpolitik, stupid!

649. 10 mandamentos da política-de-sempre para progressistas e esquerdistas:
I.             Apenas o povo entende integralmente o povo.
II.           O povo desconfia do poder, dos políticos e dos partidos: do establishment, pois.
III.          Toda elite ideológica despreza o senso comum.
IV.         O senso comum é o motor do homem comum.
V.           O homem comum compõe majoritariamente o povo, d’oh!
VI.         O pensamento ideológico é anti-realidade, enfim, apenas idealmente pró-povo.
VII.        A realidade é anti-ideológica, logo, faticamente pró-povo.
VIII.      O povo aceita pronomes possessivos e o ritmo biológico do mundo.
IX.         Os ideólogos desprezam as bases desta mentalidade natural.
X.           Quem percebe isto, vence as eleições sob os aplausos do povo.

650. A Realidade não é aquilo que suas conexões neurais -- sua mente, pois -- produzem. Está aqui um bom ponto de partida para analisar o mundo que existe de fato e, então, não confundir torcida (fantasia ideológica) com o conjunto dos fenômenos que agem sobre este “mundão véio sem portera” desde que Adão comeu a maçã e Judas perdeu as botas.  

651. Acata a decrepitude: aceita que tombarás na cripta.

652. Não se deve implementar reforma ou reformulação com intenção permanente naquilo que é impermanente.

653. Não se deve desconfigurar, reconfigurando, aquilo que é aprioristicamente configurado.

654. A desordem torna-se organizada (não ordem) quando à ela se estabelece determinada função sistemática.

655. Utopia. Abrir no mundo as próprias veredas, caminhar confiante durante a noite fria, devastar o deserto e aguar os mares, sussurrar o que gritaria ao meio-dia, impor liberdade ao próprio arbítrio, obedecer a Lei que nutre céu e terra. Então, a estrada e o atalho serão um só caminho.

656. Interpretar a própria vida é a atividade mais perigosa existencialmente. Por isso, os fatos devem se sobrepor às idéias que se têm acerca deles. E é preciso redobrar vigilância, afinal, muitos fatos não são originários (naturais, pois), enfim, eles provêm substantivamente das idéias (artificiais aderentes, portanto). Interpretar a própria vida é enviesá-la em termos de “caminhos-de-valores” no espírito, na alma e no corpo. Uma biografia é, portanto, a unidade de retas abstratas que se traçam a partir da diversidade de curvas concretas que acontecem, ou vice-versa: é um ouroboros psicológico.

657. O mundo fica melhor quando o campo “invade” a cidade, quando o rural conservador estapeia a elite urbana esnobe, quando o camponês proprietário vence e Wall Street chora as pitangas. É de lavar a alma ver o fazendeiro com as mãos cheias de calos esmurrando eleitoralmente os cancros purpurinados de Hollywood, aqueles que desprezam qualquer um que não lhes estenda tapete vermelho. A Civilização dos rústicos interioranos venceu a “civilidade” dos blasés metropolitanos. Nem aí pro Donald Trombeta, nem aí pra Hitllary Clinton. Dont tread on me!

658. Sinais dos tempos: antes do Nacional-Socialismo, as insígnias de hierarquia militar e as ombreiras dos exércitos Alemão e Austríaco (sobretudo este) eram especialmente coloridas, adornadas com cruzes, arabescos, estrelas, folhas, flores e frutos. A guerra, cujo resultado é a morte, tinha lá seu “couleur de vie.” Com o advento do Nazismo, tornaram-se integralmente geométricas, cheias de linhas retas, de figuras angulares, de “formas puras” e matemáticas eventualmente adornadas com punhais, caveiras e ossos. Eis a estética da ética. É o que Tolkien chamaria de “Efeito Mordor.”

659. Desde Babel, Satanás não desistiu de tentar ressuscitar Ninrode e de erigir sua torre meta-nacional -- seu governo centralizadoramente mundial. Eis aí o Globalismo.

660. Primeiramente, o governo surge para ser a espada que protege a vida. É força física coletiva para proteger fraqueza física individual. Trata-se de uma relação material e concreta. A ideologia, abstrata e imaterial, surge apenas quando se pretende fundar um governo sob idéias e não sobre necessidades. 

Derradeira Vitória [letra de música]

para a melodia de "Lacrimosa",
de Zbigniew Preisner

Escuta o silêncio que murmura,
Escuta porque aí vem a secura
E os regatos e bosques que vês
Serão deserto, vácuo e planura.
O galo cantará às falanges suas
E ás águias perderão as plumas!

Não ousas reconhecer esta voz
Que escreve lamentos em Sião?
Lembra-te outra vez que és pó
E que o granito já está talhado
E que a hera foi ontem semeada,
E que o tempo é finita imensidão.

O rebento do pardal quer voar,
Quer alcançar o mistério sideral
Sem ofegar, sem à sede ceder,
Sem deixar de ser pobre pardal.
Como é puro o canto dos anjos!
Ao paraíso eles me conduzirão?

Quem quaeritis in sepulchro? (bis 18x)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Het Fortunatus

A liberdade de estirar-se sobre a terra,
Como uma folha de carvalho emudecida
Pelas sombras dos ramos altos e verdes.

Dayher Giménez
Eu sou, de sangue visigodo,
Fiel à minha terra
Serei até a morte.
Um camponês de torre-forte
Eu sou, livre e sem medo.
O pavilhão da Liberdade
Eu sempre honrei.

A liberdade de derrotar o pó da terra,
Como uma montanha recém-nascida
Sobre o azul imenso do oceano celeste.  

Meu escudo e minha confiança,
Sois vós, oh Deus meu Senhor,
Em vós eu me sustenho.
Nunca me deixes. 
Concede-me coragem sempre,
Sempre a vosso serviço.
E derrota a tirania
que me fere o coração. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Diário em Midgard -- IX

A noite cai esbranquiçada. O inverno reúne todas as cores -- prisma invertido que é quando verte seus cristais sobre a terra -- na placidez alva da neve. O vento não compete com os lobos. É tão suave o som do ar-avançando que faz supor que a maresia das águas orientais vaga nas campinas do vale.

Os chefes das famílias repicam os sinos nos jardins ao anúncio da meia-noite. O ancião-mor toca o galo de prata e corre à cerca da igreja para incomodar o galo dormente até que ele acorde e cante a plenos pulmões. O coral das crianças entoa, tão logo, uma composição dos tempos rúnicos.

Uma grande mesa é posta. Sentam-se apenas as crianças. Os adultos (seus pais e mães, seus avôs e avós), em jejum, servem-lhes azeitonas cozidas, suco de uva e pão quente com manteiga. Está comendo a última criança: quis mais pão e vinho. Toda a aldeia o espera em silêncio. Ele acaba de comer a última migalha e beber a última gota. Eis o novo pastor. Todos saúdam: Tu es sacerdos in Aerternum!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Durante as aulas de terça-feira

Amanheceu o mar na fragrância da luz de agosto, como o dourado lusco-fusco dos dobrões sepultados no Atlântico. Os pés na areia eram limpos das escamas do pó moribundo -- a pele, da cor da lepra.

Ela não sabe mas sabe
Que a amo desamando,
E que ela a quem ama
Ama tanto e odiando.
Bom espanto e acalanto
É o olhar que mira desviando
Na fresta, na fechadura sem chave.

Rita, tão pura e impura:
Virgem de beijos de amor,
Com os lábios gastos no bolor
De contatos desalmados. 

Música eterna

Arvorai partes de Ockeghem
Para que toquem os sinos da aurora,
Para que a música lamente a terra oca
E soe gotas de alvura na eternidade.
Repetir o caleidoscópio dos sons,
Repetir os sons no caleidoscópio.
É mínimo o frenesi,
É máxima a hipnose.

sábado, 29 de outubro de 2016

Esponjas de sol - XXII

610. Nas artes visuais, a Beleza é um conjunto de afetos elevados cuja manifestação dá-se através de uma unidade estética apurada. Doutra forma, que se diria das pessoas notoriamente “feias” retratadas por Rembrandt, p.ex?

611. Enigma. Alva beatitude cantará douradas estrelas -- fervorosas guardiãs, hirtas impassíveis -- jejuando labaredas menores (neófitas!), orbitando pulcras questões sorridentes: tempestades uterinas vergando xistoso zênite. Which killjoy are you?

612. A Democracia é um cadáver pútrido que jorra sangue quente sem parar. É, ao mesmo tempo, vida e morte. Todas as demais alternativas são morte pela morte: um corpo social há milênios apodrecido, com sua seiva vital coagulada friamente em pó na ágora, na corte, no parlamento, no paço, nas arquibancadas políticas -- verdadeiras poças de pó. A Democracia, contudo, banha de calorosa crueza humana a ágora, a corte, o parlamento, o paço, as arquibancadas políticas: o Poder das Gentes é morto enquanto possibilidade de existência acional plena (o fazer através do corpo), mas sua substância vital (o querer da alma) nunca conhecerá sepultura. 

613. O cristão não deve se acovardar diante das vicissitudes. Por isto, ele não quer estar no meio daqueles que correm dos grandes conflitos: o cristão corre desafiadoramente em direção aos conflitos. A coragem de enfrentar o mundo em nome do justo, do correto e da verdade é o penhor da vida de um homem digno da própria humanidade. Atanásio de Alexandria sem dúvida é para nós crentes o arquétipo superior do varão destemido -- um amigo certa vez lhe disse: “Atanásio, o mundo está contra ti!”; ao que ele resolutamente respondeu: “Assim seja, Atanásio contra o mundo.” Dar a cara a tapa não é para homens em cujas veias corre urina em vez do sangue de Adão.

614. Ser consciente é compreender-se no mundo e é poder discernir com certa acuidade as causas e os efeitos dele em nós e nele mesmo. Só é consciente o homem que não é presa de si nem do mundo, que não tem o coração tangido pelos impulsos baixos da biologia nem mesmo pelos supostos quereres altos da ideologia. Só é consciente o homem que é escravo da realidade. Só é consciente o homem que é livre para submeter-se à verdade. Todos os outros guerreiam pelo conforto da caverna escura, pela satisfação frenética e entrópica da alienação, pelo ópio fugaz da diversão que anestesia a alma, pelos vícios em endorfinas existenciais, pela inconsciência que faz do homem um parente despenado do avestruz fujão.

615. Não se deve jamais perder o espírito de criança, mas é imperativo, uma vez que se chegue à “idade da razão”, perder a infantilidade nos afetos. É constrangedor perceber que muita gente adulta faz birra, bate o pé e grita descontroladamente aplicando às questões da existência adulta as emoções e o modus operandi do jardim da infância. Ter o espírito de criança é possuir as virtudes delas -- inocência, candura, ingenuidade, alegria multiforme, etc -- e não os vícios inerentes à raça humana quando ela ainda chupa chupeta e bebe leite morno açucarado na mamadeira. 

616. Quando as Sagradas Escrituras nos dizem que os “tímidos” ficarão de fora do Reino de Deus, elas não se referem à timidez psico-afetiva, enfim, à timidez daquelas pessoas que sentem-se introspectivamente bloqueadas pelo mundo e não conseguem reagir apropriadamente à determinadas situações psico-sociais. A timidez da qual fala a Bíblia é a mesmíssima covardia omissiva que fez Dante Alighieri duramente afirmar que “Os lugares mais quentes do inferno são destinados aos que, em tempo de grandes crises, mantêm-se neutros.”

617. O ateu que passou do primarismo filosófico já não se pergunta se Deus existe ou não. Ele sabe que é impossível provar a inexistência na mesma medida em que é “empiricamente” impossível provar a existência dEle. O ateu sincero é aquele que agora já se pergunta: “Por que deveria ou não existir?” Quem chegou a este ponto (ontológico) está a um passo de abraçar Deus na próxima esquina da Razão, porque passou da lógica materialista songamonga para a intuição espiritual.

618. O conhecimento é um grão de areia (democraticamente encontrável em todos os lugares), a inteligência é uma pedra (menos plural na forma mas igual no conteúdo, tem certa abundância), a sabedoria é uma rocha (só se topa com ela nas jornadas que nos levam para longe do conforto do lar-planície), a humildade é uma montanha (para além do horizonte, só se alcança pela escalada). O grão-de-areia, pisa-se com os pés. A pedra incomoda os pés. A rocha obriga a desviar os pés. Porém, a montanha pisa-se com os pés, incomoda os pés e obriga a desviar os pés; afinal, ela é um todo que agrega as contradições do caminhar humano. Assim é também com o intelecto: apenas a humildade é capaz de congregar saudavelmente as divergências (e diferenças) funcionais da mente sem, contudo, desordenar nossos afetos. A humildade faz do homem um ser conhecedor, inteligente e sábio sem torná-lo vaidoso, orgulhoso e soberbo. É facílimo deter conhecimento, é fácil nascer inteligente, é difícil atingir a sabedoria, mas é dificílimo (uma vez dotado na cognição de certos conteúdos acerca das “coisas visíveis e invisíveis” -- a Realidade) ser humilde.

619. Simplicidade é virtude. Humildade, idem. Simples é o homem “bruto” natural, é a pessoa mais próxima da sua espécie. Humilde é o homem que discerne o seu ser como ele é, sem dourados e vernizes. Ambos os estados nada têm a ver com ignorância ou poucas possibilidades financeiras. Quanto à ignorância, ela só é reprovável naquelas pessoas que não são simples nem humildes, enfim, não são conscientes daquilo que não sabem e por isso supõem saber. Maldito (e perigoso) é o ignorante orgulhoso -- o sujeito que não conhece mas ousa crer sincera e vaidosamente que conhece. Este deve ser combatido, porque é um perigo para os simples e para os humildes, para os sábios e para os conhecedores: é inimigo da atividade do Logos na sociedade.

620. A Pindorama-mirim e a grã-Pindorama nacional só serão desenvolvidas quando Língua, Religião e Alta Cultura forem a base sólida sobre a qual os indivíduos escolherem edificar suas vidas. Língua: além de mera comunicação, instrumento de civilização espiritual e intelectual. Religião: os valores atemporais que nos ensinam que o tempo cessa com a eternidade e que toda ação material tem efeito metafísico -- porque a Salvação vem de Deus. Alta Cultura: vida interior repleta de beleza (e arte), capaz de abastecer plenamente a alma humana de alegria e serenidade.

621. A coisa mais artificial no Éden seria uma biblioteca. Para que livros quando se convivia com Ele? Para que palavra escrita quando se tinha junto de si, pessoalmente, o Verbo? Adão consultaria a Barsa para descobrir se determinado cogumelo o envenenaria e Eva viraria página após página dalgum livro de melancólicas poesias românticas? Para que letra desenhada com o suco das amoras e a pena de um gavião? A necessidade de re-conhecer o mundo provém do pecado. Pecando o homem, do lenho da Árvore do Conhecimento extraímos a celulose para os papiros, para os pergaminhos, para os tomos de papel dos quais necessitamos para chegar à definitiva conclusão: “não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne.” (Eclesiastes 12:12).

622. A música cristã ortodoxa é cheia de filigranas vocais; cada uma delas carrega o peso do mundo.

623. O átomo está estruturado conforme os quatro pontos cardeais.

624. O indivíduo está para a Humanidade como a caligrafia particular de cada homem está para as padronizadas letras de forma que a ele e à sua classe foram ensinadas no Início, na [proto-]alfabetização.  

625. A noite: metafísica. O dia: físico, materialista. A escuridão das 12 horas sem sol remete à nossa incapacidade de ir além nas veredas da razão, porque a todo período de discernimento alumiador acerca de determinada questão segue-se, sobre o mesmo plateau consciencial, o ensombrecimento das idéias de quando se acorda por outras idéias mais espessas (intuídas) de quando se espera o sono imaginativo -- idéias que repelem qualquer completa coerência das anteriores. A noite subsiste no mesmo terreno em que reina o dia; e como é outra a atuação dos homens, da fauna e até da flora, de todo o mundo, morto ou vivo, neste mesmíssimo ambiente quando as trevas irrompem no horizonte! O observador diurno só pelo dia mede os homens. O observador noturno, idem. Porém, apenas a Revelação concilia empirismo evidente (explícito) à realidade inevidente (implícita) e demonstra a razão de ser das Vinte e Quatro Horas.

626. Para gravar no umbral de toda universidade -- Defende as tuas fronteiras, guarda o trigo mal crescido: porque aí vêm os bárbaros, os midianitas e os hunos. Corre à meia noite pelo campo, tu, escudeiro do grande Leão, e cava fossos sobre o pasto. Incendeia a cabana e a lama, desvia o curso do regato; bebe, soldado de Gideão, e vai comer a carne crua do último gado flechado.

627. Antigamente, toda a energia animal humana era depositada na guerra: o sujeito liberava as tensões biológicas da auto-preservação no enfrentamento direto e massivo contra outros sujeitos. Espada contra espada e as pessoas eram menos violentas no dia-a-dia justamente porque expurgavam sua libido grosseira nos campos de batalha. Hoje, ausentes as pelejas bélicas, os indivíduos mais selvagens (portanto, mais necessitados de briga) descobriram o Facebook e brincam de espadachins uns com os outros gritando “touché!” a cada post imbecil que alcança a incrível marca de meia dúzia de curtidas entre a molecada de meia-idade do “partido político” do MiMiMi.

628. O covarde sempre põe a culpa no outro: “Não fiz, porque fulaninho não deixou!” / “Não agi, porque fui impedido por ciclanildo!” /“Não pude, porque beltranejo fez cara feia!” Um homem digno da própria hombridade não foge ao primeiro “boo!” fantasmagórico que lhe dão na cara. Por a culpa no outro é expediente indigno, sobretudo para aqueles que pretendem assumir qualquer posto de liderança; liderança que é qualidade pespegada à intrepidez, à audácia, à coragem de enfrentar e fazer valer suas prerrogativas. Quem se submete quando deveria se insurgir, sempre que melar as calças (porque sempre as melará) porá a culpa não na própria fricção intestinal intimamente associada ao seu caráter gelatinoso, mas a porá no outro, a porá nos outros. Na vida privada, o covarde é um tolo tolerado pelos que lhe circundam (e protegem, via de regra). Na vida pública, é um perigo para a prosperidade social.

629. O amor consiste também na suprema exaltação da amada, individualizando-a a tal ponto que a universaliza. A particular mulher que se ama torna-se a única e superior mulher entre todas as outras no mundo, torna-se Eva para um filho de Adão. Salomão dá o exemplo ao escrever no seu livro dos Cânticos -- capítulo sexto, versículos 9 e 10: “Porém uma é a minha pomba, a minha imaculada, a única de sua mãe, e a mais querida daquela que a deu à luz; viram-na as filhas e chamaram-na bem-aventurada, as rainhas e as concubinas louvaram-na. Quem é esta que aparece com a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?” Cantada bíblica, of course.

630. Shakespeare escreveu, no seu Macbeth, que “A vida é uma simples sombra que passa.” Poético e forte em termos de impressão no senso comum, mas errôneo como chamar biscoito de bolacha e vice e versa. A vida é simples, sem dúvida. Mas, não é uma sombra. Ela passa, mas não empurrada pelo espirro de um qualquer agente físico. “A vida é uma simples luz que permanece”, se diria com maior verdade. É luz porque foi criada pelo que habita na Luz Inacessível. E permanece não porque não transite de lugar para lugar, de ambiente para ambiente, de condição para condição. Permanece porque nunca será outra coisa e jamais terá outra essência de ser que não luz, luz que condiciona a própria sombra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Sono redivivo

"Na infância, o paraíso está em nós."
~ William Wordsworth

Iluminado pela fresta eterna
Descansei exausto da luta,
E entre berros malignos
Dormi como infante puro.
Quisera a lua apelidar
E outra vez o sonho azul
Nos prados da alma fruir;
As estrelas apontar quieto,
Desenhando o branco cosmo. 

sábado, 22 de outubro de 2016

Gaudium de veritate

Crerás no altruísmo quando
O vulcão regurgitar a saliva infernal
E forem poucos os lugares no barco?
Crerás na bondade quando
Golias lançar-te pedras lancinantes
E dar a outra face for reta obrigação?
O preço da tua integridade
É sucumbir e por Deus acabar salvo,
É ser ferido e dar o exemplo referencial.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Esponjas de sol - XXI

591. Como se manter coerente diante da incoerência sistêmica? Como se manter racional diante da irracionalidade generalizada? Como se manter lógico diante do ilógico ideologizado? Apenas a fé em Deus e na superioridade da consciência sobre a inconsciência é capaz de nos apaziguar o espírito quando a loucura reina.

592. O poder financeiro tem seu limite em si mesmo, ou seja, o dinheiro bloqueia o dinheiro e, por isso, após comprar "tudo e todos", ele se autodestrói e dialeticamente fortalece justamente a causa oposta e adversa. 

593. A crença em Deus não é propriamente crença. Não é crendice ou crentice ou cretinice ou crentinice. A crença em Deus é uma cegueira profunda causada por um grande choque de luz -- da mais potente luz, a luz que contrai as pupilas e arranca a prata do cognitivo espelho ocular, a luz que Paulo chamou "inacessível". Nós, crentes, apesar de não vermos aquele a quem chamamos Pai, nem por isso deixamos de tocá-lo, assim como um cego toca tateando as faces da pessoa amada. E como o cego serve-se do bastão-guia para trilhar seu caminho cambaleante mas certo, nós temos em nossas mãos trémulas um livro-guia que nos avisa a respeito dos obstáculos da vida -- a Vida que está no Caminho que é Verdade. "A crença em Deus", dizia outro dia um ateu, "é cegueira!" E não é que nós concordamos? Estamos cegos diante do Ignoto e do Abscôndito. Mas, se sabemos que é Desconhecido e que está algo Escondido, já não também sabemos que é Conhecido e Revelado? Deus seja sempre louvado!

594. Não se deve refletir a vida inteira. Há um momento em que a reflexão naturalmente se encaminha para uma ação racionalizada de caráter perpétuo. Deve-se sim pensar durante toda a vida. A todo homem consciente chega o dia em que o perscrutamento das "coisas visíveis e invisíveis" cede lugar à labuta nas coisas "visíveis e invisíveis". As milhares de perguntas arrefecem e são submergidas por algumas poucas mas densas respostas.

595. A Literatura Universal é a mais sólida e vasta reserva de Humanidade. Desconhecê-la e propor-se a ser "ponta de lança" em termos de influência sócio-cultural (e política) é se auto-abortar intelectualmente. Não sai da linha de largada o sujeito que tem idéias e não sabe/consegue ver (e então revelar) nelas a Idéia. Quem não leu Dom Quixote não sabe o que é o Idealismo que moveu cavaleiros andantes e move jovens de bicicleta na Avenida Paulista. Quem não leu Dostoiévski não sabe o que é o Realismo que moveu filósofos no século XIX e move velhos ranhetas que assistem ao Datena. Quem não leu Homero não sabe o que é o Ceticismo que moveu Descartes e move alas conservadoras e liberais em Pindorama, em São Paulo, em Brasília e nos confins da terra. Suma de tudo: quem não lê adequadamente jamais poderá alavancar a Realidade; desperdiçará energia por todos os lados sem jamais mover-se um mísero yoctômetro para além do próprio eu-lugar.

596. Em política, sem sobriedade e certo "accountability", num instante a poça torna-se abismo. Quem não se pautar por idéias e descer o nível (o nível, que é emanação do caráter) vai amargar merecida derrota. O povo é inteligente e sabe discernir gente séria de gente histérica.

597. A obrigação número 1 de quem tem um cérebro é pensar. A obrigação número 2 é impedir que espertalhões pensem por você. A obrigação número 3 é desmascarar estes espertalhões.

598. A verdade é sempre uma e una: "esta caneta bic é azul", portanto. Mas, a mentira é múltipla e polivalente: "a caneta não é azul, é preta"; "não, é amarela"; "é cinza"; "é incolor"; "é da cor do cavalo de Napoleão"; "é azul, mas é Montblanc"; etc, etc, etc, até uma "isto não é uma caneta, é um meteoro de Júpiter". Entenderam? Ou o Cristianismo é a Verdade ou não é nada além de tagarelice de religiosos abestados e medrosos. Ou Jesus Cristo era Deus ou ele era um charlatão ou Elvis Presley ou um curandeiro palestino que tomava o chá do santo-daime ou um alienígena da Galáxia GN-z11 ou qualquer outra coisa que não Deus.

599. Ninguém terá vida enquanto Ele não conceder vida. O homem sem Deus é um zumbi existencial, é um arremedo de átomos organicamente energizados, é um boneco de ventríloquo cuja voz é o eco do urro do Adão caído. Só vive quem é consciente. Só está realmente vivo quem foi despertado para a Realidade. Só detém vida quem foi batizado na Vida. Quão fácil é a idiotia de estar no mundo sem saber o que é o mundo e para onde se vai arrastado com o mundo. Quão fluidamente indolor (e tolo!) é atirar-se para o abismo com a manada que insiste em dizer que alguém falou que o caminho da libertação é "ali"; ali para onde todos os cascos marcham morbidamente acelerados. Ninguém vive se não bebe da água da vida e nela não lava os olhos. Enquanto as escamas não caírem, você será apenas mais um número de RG e CPF à espera da certidão de óbito. Decida-se por Deus e tudo ganhará a cor exata, o significado exato, a luz exata. Você viverá como ser que sabe das "coisas visíveis e invisíveis" e não mais como ente que mal suspeita da própria grandeza.

600. O ser humano vicia-se na medida em que não usufrui de prazeres verdadeiros. Então, não tendo alegria e felicidade puras (que são coisas do espírito), ele se apega às poucas e falsas "delícias" que a carne pode temporariamente fornecer, alienando a alma. O problema é que a matéria não consegue fornecer entretenimento corporal por muito tempo. Chega uma hora em que, para conseguir o mesmo efeito, aumenta-se a dose do álcool, aumenta-se a dose do pó, aumenta-se a dose do sexo, etc. Porém, chega ainda uma outra e já derradeira hora: a hora em que, por mais que sejam gigantescas as doses, elas deixam de produzir o efeito almejado. Então, o prazer acaba e fenece juntamente com os litros de álcool, com os quilos de cocaína, com as perversões todas. Sobra apenas o vício frenético e suas decorrentes loucuras. Por isso, quando o Cristianismo ensina e diz que isto ou aquilo é pecado, ele não o faz porque quer nos arrancar um prazer; antes, o faz porque nos quer conservar sentindo prazeres verdadeiros e perenes (cheios de "potência existencial"), alegria e felicidade que fruem do interior imaterial para o mundo material. A virtude da santidade, ao contrário dos vícios da iniquidade, nos permitem usufruir de todos os prazeres com harmonia e funcionalidade. Quem peca, anula todos os demais prazeres em nome de um que aos demais rapidamente consome e, feito um buraco negro, logo se auto-consome. Sobra o vácuo do insignificado -- da depressão que suspende o sujeito do mundo e o faz provar o inferno ainda na terra.

601. Pode o cristão amedrontar-se diante da morte? Não há, no computo geral da Realidade, verdadeiros motivos para tal, não obstante seja um sentimento do homem natural o encher-se de pavor diante da própria finitude terrena. Mas, cheios de medo ou plenos de serenidade, eis diante de nós o irremediável fato supremo: toda carne, nua como veio, retornará ao pó. É bíblico e histórico: o fruto do Éden em nós frutificou destruição corporal. Contudo, da cruz fúnebre ao sepulcro vazio, eis o Senhor vencendo a morte, aniquilando-a e, por fim, destruindo-a através da ressurreição. Podemos chorar. Devemos chorar. Todavia, Ele nos pacifica o espírito e amorosamente limpa dos nossos olhos toda lágrima. A Vida venceu. Um cristão, portanto, não precisa temer a morte. Ela já não existe, propriamente; trata-se simplesmente do segundo e final parto -- o parto para a Eternidade.

602. A leitura dos clássicos é indispensável tanto para o político quanto para o povo que gera o político. Se todo efeito deriva de uma causa, ao menos no plano físico, tal lei não se aplica rigorosamente às relações sociais -- que vivem de altos e baixos, de sístoles e diástoles psicológicas. Então, consumir a boa literatura ocidental e oriental dos últimos três milênios é um meio razoável para que se compreenda a natureza do poder e o porque dele ser o "doce mel" a que aspiram as gentes. Compreendendo o mecanismo, compreende-se facilmente toda a sistemática política, seja ela democrática (hoje, eleitoral), monárquica (hoje, constitucional e parlamentar) ou aristocrática (quase extinta). Os clássicos são o resumo adensado da alma humana. Sem prestar atenção à esta sábia produção intelectual, tanto povo quanto político se auto-enganam; daí, nascem as aberrações.

603. Um cristão não fica feliz, não rejubila, não exulta com o pecado do seu próximo. Um cristão não sorri, não ri, não gargalha com a queda de quem quer que seja. Um cristão não sente orgulho de qualquer suposta virtude sua, afinal, isto é coisa de fariseus auto-justificadores, de pagãos orgulhosos, de escribas legalistas. Um cristão quer saquear o inferno e não, com o dedo em riste, tomar o lugar de Satã e condenar os homens às chamas eternas. Um cristão deve se parecer com Deus e não com o diabo...

604. Lei inexorável: em qualquer contexto humano, a inteligência virtuosamente utilizada e o preparo mental sempre vencerão a ignorância e a desorganização intelectual dos indolentes. Há um momento em que toda retórica iníqua (sobretudo a do dinheiro) não avança e por si mesma é freada. É aí que, no dizer de Provérbios 21:22, "O sábio escala a cidade do poderoso e derruba a força da sua confiança."

605. Não se pode julgar a qualidade de um vinho pela sujeira do cálice que o acolhe. Semelhantemente, não se pode julgar a qualidade e a veracidade de uma idéia simplesmente pondo os olhos na má conduta de quem a defende. O homem sábio é aquele que sabe discernir a ideologia do ideólogo e o ideal do idealista. Portanto, o Cristianismo não pode ser julgado tomando-se como parâmetro o péssimo exemplo de muitos "cristãos." Que tem o Cristo a ver com os cafetões da Fé que fazem do templo de Deus covil de ladrões e salteadores? Que tem o Pobrezinho de Nazaré a ver com aqueles que iludem corações susceptíveis a ilusionismo simoníaco? Que tem o Deus Crucificado a ver com toda sorte de canalhas que falam em seu nome? Por isso, é indispensável a leitura da Bíblia Sagrada: nela encontramos Ele -- que é Caminho, Verdade e Vida.

606. É mais do que importante: é necessário freqüentar uma boa igreja. O Cristianismo distingue-se das demais religiões justamente por pregar uma vida comunitária -- de comunidade, "de dois ou três reunidos" em Seu Nome. A palavra igreja, aliás, evoca vida organicamente coletiva. Igreja vem do grego ekklesía, cujo significado é "povo". É na igreja que o indivíduo torna-se parte de uma família e, nela, recebe os sacramentos da vida integral. Um cristão não é apenas um batizado que crê em Jesus Cristo. O cristão é aquele que recebe e cultua o Senhor em espírito e em verdade num culto racional e institucionalmente estabelecido. Vá à igreja. Nela reúnem-se os filhos de Deus, os salvos, aqueles que na terra anseiam pelo Reino dos Céus.

607. Saibamos prestar atenção às mensagens de Deus. Ele fala o tempo todo -- seja com silêncio amoroso ou através do megafone do sofrimento. Deus sussurra ao pé do ouvido e brada severamente na alma. Não passa um dia sem que o Senhor nos diga algo, sem que nos mande bilhetes, sem que nos ponha em contato direto com o Céu. Não diga que Deus não fala com você. Você é que é insensível -- surdo, cego e mudo -- à conversa que Ele quer ter contigo ontem, hoje e eternamente.

608. Cristo mandou negar-se a si mesmo. Que quer isto dizer? Certamente, não se trata de uma guerra ao próprio ser, à própria personalidade, àquelas qualidades individuais que nos fazem singulares. Negar-se a si mesmo é negar o ego supremacista, é abjurar aquela parte da alma que nos faz orgulhosos e soberbos. Negar-se a si mesmo é afirmar a plena centralidade da Divindade na formação integral da Humanidade (Gálatas 4:19), afinal, diz a Escritura que somos “imagem e semelhança” dEle. Ao contrário do totalitarismo islâmico, que submete o sujeito à tabula rasa da religiosidade cega e padronizada, o Cristianismo ressalta o eu verdadeiro, resgata a pessoa real da suas personagens irreais, faz subir ao verniz da superfície o âmago do espírito, anula a caricatura culturalmente fabricada em série e exalta a obra-prima celestialmente planejada. Negar-se a si mesmo é, então, não ser o que não se é.

609. Tenho a impressão de que poucos cristãos olham para o céu -- este alto e azulado céu atmosférico -- e ainda se vêem cortando os ares, singrando as nuvens, saltando depois pelas galáxias iluminados por supernovas e anjos com tochas eternas, e enfim chegando ao Terceiro Céu, às portas de Sião, aos braços de Deus. Maranata!, a despeito da incredulidade dos crentes. Maranata!, ainda que os púlpitos não esperancem as almas com vislumbres da Nova Jerusalém. Maranata!, mesmo que o Arrebatamento já não passe de metáfora mística para teólogos ateus.