quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sponsa


E o tempo arenoso na ampulheta
me diga se é Receba neste poço
quem me aguarda com sorrisos
abertos e os olhos fulgurantes
a dizer-me que agora errantes
o mundo será do altar os pisos
e o coração sem dor e alvoroço
o propiciatório dum amor violeta.


"L'absence est à l'amour ce qu'est au feu le vent; Il éteint le petit, il allume le grand."
(Bussy)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Contraponto


O fogo do meu sangue
não consegue derreter
o gelo do meu cérebro.

"Ego ad nihilum redactus sum, et nescivi."
(Salmo 72:2)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cogito, ergo doleo

Será que não se pode deixar

de idéias juntar, logo pensar?

Um vácuo diário numa mente

gerará talvez algum demente?


Vácuo com oxigênio, eu digo;

com os neurônios em abrigo!

Um descanso sereno no nada

curaria muita cabeça rachada.


O espírito que se desapegue

do corpo e su'alma entregue

à calma ausência da palavra

esquecida na cerebral lavra...

Pindorama: uma "Cidade de Deus"?

“E muitas nações passarão por esta cidade, e dirá cada um ao seu próximo: Por que procedeu o Senhor assim com esta grande cidade?”(Jeremias 22:8)

A cidade é, talvez, o mais antigo “agrupamento orgânico” humano depois da família, cellula mater (et sacra!) de toda e qualquer sociedade que entronque no patriarca Adão. Desde a Antigüidade nas vetustas porém “civilizadíssimas” Pólis gregas ou ainda dentre os agigantados muros milenares da palestina Jericó, e desde os “obscuros” tempos feudais com os nascentes Burgus da Idade Média, passando pelas importantes e imponentes urbes que imergiram juntamente com os “vapores” da Revolução Industrial, até alcançar o mundo pós-moderno, com suas muralhas de aço e concreto e seus soberbos arranha-céus à moda Babel, a cidade é, sem dúvida, o “ponto maior”, enfim, o ápice da confluência do que seja viver em grupo, ou seja, de fazer atuar o “ser social” humano entre seus pares; atuar, então, em sociedade. As abelhas têm suas colméias, as formigas seus formigueiros, e outros tantos seres da Animália têm lá suas colônias e “ninhos” coletivos; todavia, os humanos, têm cidades.

O grande Santo Agostinho, legitimamente alcunhado o “Abençoado” pelos nossos irmãos ortodoxos, em sua monumental obra “A Cidade de Deus”, dividiu o mundo entre o terreno e o celeste, o imanente dos homens e o espiritual transcendente, e assim, de certa forma, assinalou a confluência e a ligação, inevitáveis, entre ambas. A cidade do homem e a de Deus, que é o Reino dos Céus do qual fala o Santo Evangelho, acabam, pois, se encontrando “nel mezzo del cammin di nostra vita”, como cantou Dante Alighieri. Apesar de naturalmente distintas, elas se interligam; interligam-se na medida em que a humana depende da divina para que prospere e, assim, seja plenamente fecunda.

Ora, a Sião Celeste não carece de sólidos alicerces e espessos muros torreados para defender-se, não necessita de hordas de funcionários e burocratas bem como de departamentos de água e esgoto para dar-lhe funcionamento, não possui indústrias, comércio e Terceiro Setor, não conhece a carestia e a lancinante seca, a crônica falta de empregos, o aumento vertiginoso de tributação e impostos de renda, os gigantescos engarrafamentos de trânsito, o acúmulo de lixo e as enchentes, não conhece moradores de rua, fome e mendicância. Já as cidades do homem, a tudo conhecem e de tudo isso “dependem.” Estão todas cheias do melhor e do pior, suas estruturas avultam em contradições, suas ruas abrigam as gargalhadas dos prósperos e o choro mudo dos pedintes.

Cidades surgiram e se apagaram com o nascer e o morrer das civilizações. Com razão, pois, dizia Sêneca que um século forma as cidades e basta apenas uma hora para destruí-las. Num dia qualquer, ensolarado, eram ricas e altivas; noutro, tempestuoso, estavam enterradas por milenares e pesadas camadas de pó e areia. Retumbaram em glória e em orgulho para, algum tempo depois, serem destruídas e exterminadas do mapa e, quiçá um dia – com alguma sorte –, terem seus esqueletos de pedra e entulhos encontrados por arqueólogos, mas sem moradores, sem citadinos, sem vida, em ruínas...! De borbulhantes centros de poder a quietos sítios arqueológicos, diversão para acadêmicos de gabinete. Por isso, diz com correção o Salmo 127, em seu versículo 1, que Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.”

Consideremos, então, que se a santa Cidade da Paz, Jerusalém, foi pesadamente saqueada pelos babilônicos, diabólicamente profanada por Antíoco Epifânio, secamente pisada pelas legiões romanas e, por fim, quantas e tantas vezes seu povo foi deportado e se viu preso por ferros e guilhões!, que se fará das demais povoações, tão menos espirituais e paupérrimamente cegas? Não ruíram Tróia, Nínive, Cartago, Tebas, Constantinopla e a Roma imperial? Terão, ao acaso, melhor destino Nova Iorque, Pequim, Londres, Tóquio e São Paulo? Pois, lhes digo, se a Cidade de Deus não imperar na humana, “non relinquetur lapis super lapidem qui non destruatur.” (Vulgata, Marcos 13:2)

Ora, que se fará então da nossa pequena Pindorama?: uma cidade que se deixa submeter masoquisticamente aos caprichos e desmandos de uma classe política tão mercenária quanto insípida, vergonhosamente controlada por meia dúzia de impudicos vereadores, corruptos até à medula, que se crêem “coronéis” à época da República Velha; uma terra que se deixa arrastar abatida pelos tortuosos caminhos do marasmo e do ócio e prefere calar a lutar, engolir “a seco” o brado há muito intalado a profetizar contra males já antigos; um município que não se levanta e não se põe à altura do luciferiano agressor quando é afrontado e que opta pelo “laissez faire, laissez aller, laissez passer” quando seus melhores cidadãos – seus filhos! – são alijados de toda dignidade e mandados à fogueira quando a inocência e a convicação da verdade neles faz-se óbvia!; um povo que virou preguiçosamente suas costas para o Eterno, tal como Israel com saudades do Egito da servidão, preferindo regalar-se na servidão do pecado e das potências corpóreas. Pindorama não é, hoje, uma “Cidade de Deus.” É, antes, uma principiante aprendiz de Sodoma e Gomorra, é uma das menores e medíocres afilhadas da Babilônia. A Sião Celeste já não é seu modelo; aliás, talvez nunca tenha sido; e se o foi, nunca por completo, nunca com a séria sinceridade do pecador arrependido, a seriedade do publicano da parábola do Cristo...

Porém, como diz-se popularmente, “nem tudo está perdido.” A exemplo dos valorosos sete mil escolhidos de Jeová que não se dobraram em indigna reverência ao deus Baal, conforme enuncia o livro de 1º Reis, no qual Elias cria-se solitário ante a prostituta e pseudo-profetiza Jezabel, ainda se conservam fiéis à decência alguns poucos pindoramenses; pindoramenses realmente dignos do adjetivo pátrio. Enquanto a maioria dorme, eles velam pela ética; enquanto alguns entram pobres na rica Pindorama e saem ricos da pobre Pindorama, eles denunciam os roubos, os mandos, os demandos, e clamam, como Habacuque, por justiça. Justiça que não exige nenhuma recompensa, nenhum pagamento. E, como costumo dizer, é mais glorioso vencermos nossos inimigos pela justiça do que pelas armas.

E ainda, no corrido relógio da vida, sobeja algum tempo para Pindorama mudar! E, pelo que claramente se vê, a desejada mudança começou; tímida, mas começou. Ventos melhores sopram, ventos por um futuro melhor, ventos de revolução. Doravante, os pindoramenses caminharão, em passos fortes e largos, para que a “Terra das Palmeiras” seja, integralmente, uma “Cidade de Deus”, na qual impere o evangélico valor do amor ao próximo e do constante zelo público.

Ai de ti, Pindorama!

“E dirão: Porque deixaram a aliança do Senhor seu Deus, e se inclinaram diante de outros deuses, e os serviram.” (Idem, 22:9)

O Prof. Dayher Giménez é historiador e filósofo

(artigo publicano no jornal "Notícia de Pindorama" de 5 de novembro de 2011)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sonho de anjo


Menina, eu te vi dormindo...

e quieto e manso

sentei-me ao lado

a perscrutar o que acontecia

neste sono leve

e despreocupado

no qual dormem os santos.

Talvez sonhavas

com os bosques

forrados de folhas douradas

na qual pisavam

os nossos cavalos

e sobre as quais comíamos

as tortas da avó

ranzinza, a tua

avó que cheirava à canela.

O relógio pedia

mais um tempo

antes de voltar-me ao sol

gelado do Brasil

e deixar-te só

nestas neves flamejantes

da Germânia.

Pela primeira

vez o sono de um serafim

algum mortal

pôde sondar

sem o receio de fulminado

ser diluído

no Eterno

e acabar extinto sem alma

pelo atrevimento

d'olhar para o céu

destes teus olhos cerrados

como o Éden,

aquele jardim

proibido a nós pecadores.

Sonhavas sim!

E ousei sentir

que afinal o sereno sorriso

que carregavas

deitada em si

lá estava ao sonhar comigo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Bem-aventurança




Como estará o inferno cheio

de boas intenções se a terra

delas anda tão sempre vazia?


Quanta gele tola, mesquinha

com piedosos santos berra

e faz do mal diário recreio!


Reclamo de toda a maldade

quieto e mudo e silencioso

esperando do alto a justiça.



Ser odiado como a carniça

por ser das virtudes zeloso

é o alto pico da iniquidade.