quinta-feira, 7 de junho de 2012

Justiça, injustiça e indolência

Um dos poemas mais “sinceros” do lusitano setecentista Manuel du Bocage é, com certeza, “A constância do sábio superior aos infortúnios”; poema esse integrante dos chamados “Sonetos morais e devotos.” Seus versos, tão melancólicos quanto heróicamente estóicos, transparecem aqueles mesmos sentimentos de perda e injustiça que os profetas bíblicos nutriam em seus escritos e falas, seja diante de Jeová, seja diante da turba, a chamada “casa rebelde.”

São quatro os parágrafos:

“Em sórdida masmorra aferrolhado / De cadeias aspérrimas cingido / Por ferozes contrários perseguido / Por línguas impostoras criminado: // Os membros quase nus, o aspecto honrado / Por vil boca, e vil mão roto, e cuspido / Sem ver um só mortal compadecido / De seu funesto, rigoroso estado: // O penetrante, o bárbaro instrumento / De atroz, violenta, inevitável morte // Olhando já na mão do algoz cruento: / Inda assim não maldiz a iníqua sorte / Inda assim tem prazer, sossego, alento, / O sábio verdadeiro, o justo, o forte.”

Como quase sempre na boa poesia portuguesa dos tempos do Arcadismo, após uma leitura reflexiva, saímos “ensinados.” A princípio, duas coisas ficam claras: 1ª A injustiça não é exceção, é regra; 2ª Sujeitos à ela, nos resta apenas acatá-la com dignidade para que, havendo possibilidade, possamos sobrepujá-la na medida das nossas forças e inteireza moral.

Quem, entre nós, nunca foi acusado de alguma coisa sem nunca, nunca mesmo!, ter nela tomado parte? Quem já não foi alvo de insultos imerecidos, de maldosas imprecações? Qual, dentre os filhos de Adão e Eva, poderá afirmar que nunca foi trocado, tendo mérito e valor, por algum medíocre bajulador? Quando, na História do ser humano, o bem triunfou em todas as batalhas e o ímpio sempre saiu vencido? Conhecemos as respostas. E conhecemo-las justamente porquê, em algum dia marcado no calendário, a injustiça nos feriu.

Porém, há sempre uma dose de egoísmo em nossos assomos de injustiçados. Costumamos erguer a voz contra o erro (e seus males) apenas quando ele nos toca diretamente e, de alguma forma, destrói nossos sonhos, vontades e honra. Quase nunca nossa revolta é pautada pelo assim chamado “bem comum.” Aliás, lixamo-nos pelo bem comum e pouquíssima ou nenhuma atenção dedicamos para com as injustiças alheias desde que elas não nos incomodem. Porém, quando o mínimo arranhão estraga a pintura da nossa “lataria moral,” ah!, aí “a coisa pega.” Entretanto, isso (nosso indecente “não-tô-nem-aí”) é tão imoral quanto os atos daqueles que nos fazem mal. Marasmo e indolência, às vezes, são piores que a própria atividade (em si) do erro.

Enquanto nosso discurso for pautado pelo mote dos covardes, o famoso “isso-não-é-problema-meu”, teremos o direito de reclamar, mas não o de sermos ouvidos. Enfim, conforme asseverou o grande legislador ateniense Sólon, “Haverá justiça no mundo somente quando aqueles que não forem injustiçados se sentirem tão indignados quanto aqueles que o forem.” Por isso, não se irrite quando as pessoas não derem “a mínima” para os seus problemas; elas apenas estão seguindo o seu exemplo e, em boa medida, pagando com a mesma moeda. Lex talionis!

Quanto àqueles que, no caso do poema, revoltam-se por si e pelos seus semelhantes e, mesmo assim, continuam a granjear tão somente as penas da injustiça, resta conservarem-se íntegros e sábios, sabendo acatar os infortúnios da vida, posto que “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” (Eclesiastes 3:1)

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