terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Aspectos da profundidade espiritual: O silêncio, parte I

 

Transcrição do áudio do segundo devocional matutino no Retiro Espiritual de Carnaval - 2013. Ministrado por Dayher Giménez

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Caríssimos,

Dando continuidade...

Profundidade espiritual adquiri-se também com a prática ordenada do silêncio. Não do silêncio ordinariamente desmotivado e cuja "existência" dependa do ócio casuístico e da pura falta do que fazer -- gerador do tédio, que é físico-espiritual --, mas do medido, do planejado, daquele com hora marcada para início e termo. Cerrar a boca para mundanidades é o primeiro passo: calar diante do banal e do profano é abrir-se lentamente para o superior e para o sacro. É conscientemente romper o real imanente e unir-se ao real transcendente, que é o real nem ideal, mas o perfeito. O silêncio demanda vontade.

É por isso, primeiramente, quase que um "mecânico" exercício. A repetição, porém, o suaviza progressiva e calmamente. Daí, depois, com o natural correr do tempo e dos tempos, acostumados à grandeza do diálogo íntimo e libertos da primária necessidade das atenções externas, o silêncio será conosco "um todo em estado" e, por isso, nossa alegria alcançará sua plenitude e auge sem esforços físicos e desgastes mentais -- tão exigidos daqueles que se tanto preocupam com o exterior, com as aparências, com o estar sem ser. Os anacoretas sabiam disto. Os eremitas ocidentais, idem. Os santos, todos, tinham o silêncio em alta conta. Pascal, mais filosófico que teológico, o intuiu quando escreveu que "a infelicidade de um homem começa com a incapacidade de estar a sós, consigo mesmo, num quarto."

E é neste bem-aventurado silêncio que encontramos Deus. Justo dizer, por sua obviedade, que o silêncio é anterior ao som, organizado (a natureza e a música) ou não (da pseudo-música às tonalidades da técnica, como os "roncos" dos motores, p.ex). Não é ele a ausência do barulho, da ruidosa confusão e da pirotecnia da existência pós-moderna. Tudo isso, sim, é que é a ausência do silêncio, do puro silêncio que reinava desde antes das primeiras faíscas da Criação, talvez do propalado Big Bang. Em I Reis 19:11-12 lá está a grande cena que, hoje, pode-se bem usar no combate contra a "Teologia do Grito" que impera em não poucos "arraiais", por assim dizer. Leia-mos: "E Deus lhe disse: Sai para fora, e põe-te neste monte perante o Senhor. E eis que passava o Senhor, como também um grande e forte vento que fendia os montes e quebrava as penhas diante do Senhor; porém o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto; também o Senhor não estava no terremoto; e depois do terremoto um fogo; porém também o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo uma voz mansa e delicada."

Vede, meus irmãos, que Deus é frequentador da quietude, de tão calma quietude que, por vezes, assume a aparência até mesmo de "ausência", o quê é tolice em sentido literal. Nunca estará o Senhor ausente, mas algumas e muitas vezes não aparente, ou melhor, como bradou Isaías: "...tu és o Deus que te ocultas." Este "ocultar" é, no meio humano, o resultado do silêncio: ao retirar-se da superfície do mundo e das suas agitações, nos exilamos, de certa forma, dos olhos e olhares daqueles que ficam no turbilhão da cacofonia. Acontece, porém, que essa profundidade não é em sentido, digamos, "geográficamente inferior", como o escavar da terra ou o afundar no oceano. É inverso: ocultar-se no contexto cristão é avançar para cima, aprofundando-se nas coisas que vêm e procedem do alto, do céu. É um vôo; quanto mais elevado, mais oculto à vista dos que permanecem com os pés enraízados na terra, concretados ao chão.

É por isso -- e exatamente por isso! -- que este mesmo Isaías asseverou que "aqueles que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias." À tarde, falaremos mais sobre esta subida, cujo primeiro bater de asas é o silêncio.

Bom e abençoado almoço a todos. Antes, porém, vamos à oração.

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