segunda-feira, 25 de março de 2013

Sonho criativo



"E disseram um ao outro: Eis lá vem o sonhador-mor!"
(Gênesis 37:19)
Em noite de chuva cantavam os anjos
os celestes arranjos que Miguel tocava
enquanto o Senhor os universos criava.

Em sonhos tudo vi: da casta, nívea luz,
às trevas pela cruz, lenho gerado no si,
casta nota do amor no qual eu renasci.

A aurora na opala
eu vi Deus colocar,
um cavalo ao mar
já liberto sem cela
para trotar na cor
azul-luz da capela.

Amanhecera o dia e com ele o mundo
sem o cego e surdo; lá eu ouvia e eu lia
e não surgira a dor - a maçã de tal azia.



domingo, 24 de março de 2013

Quia pulvis et

"Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris."
(Vulgata, Gênesis 3.19)
 
O pó migrou para minha mesa
sem pedir permissão para ir à ela;
entrou vagando através da janela
sem medir o quanto no ar pesa

E foi se fixar na rígida madeira
como se procurasse para si o osso
no qual fora estrutura dum dorso,
quando ainda tinha eira e beira

Num vivo corpo então existente;
mas finda-se toda forma concreta
e deixa a energia de ser linha reta
para diluir-se no zero incoerente,

No silêncio constrangedor do ser
ausente que é ser pó antes reunido
por Deus e depois no não desunido,
até encontrar um móvel e se ter

Que retirar quando o espanador
em uma mão empoeirada expulsar
o vagante pó de seu derradeiro lar,
a mesa onde deito o meu rancor.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Aurea mediocritas?


Ó, vil metal, que me angustias a vida
e dela retiras toda a esperança na lida
que sigo desde o iniciático ar respirado,
desde quando fui no pio ventre gerado.

O pouco dourado que carrego no bolso
é motivo para pedir da vida reembolso?

Contas e boletos e notas para se pagar
sem ter um solitário níquel para gastar;
quando justamente eu, um desapegado,
seria aquele que quase tudo teria doado.

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Inspirado no sermão de quarta-feira (20)



segunda-feira, 18 de março de 2013

Hostie

  "Panis angelicus
fit panis hominum;
Dat panis coelicus
figuris terminum:
O res mirabilis!
Manducat Dominum
Pauper, servus et humilis."
(São Tomás de Aquino)

A tua alma se lave com sangue,
sangue do pisado fruto da vide,
que com suco o coração invade
até que o espírito todo enxague.

O teu corpo se regenere no pão,
o dourado trigo na cruz moído
e no calor da lateral dor assado,
a carne e o maná na comunhão.

Discernimento

 
"Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido."
(I Coríntios 2:15)
 
Percebem todos como a chuva
tem das palmas o mesmo som?
E que tocar violino é ter o dom
de tirar vinho de espiritual uva?

Percebem todos como a pureza
das boas intenções na face se vê?
E que não existe maior destreza
que mirar o quê não se escreve?

A mística é entender o paralelo,
o que se une pela igual essência,
é alfabetizar a letra com desvelo
té que a solidão nutra existência.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Louca cantiga para Helena

"Et visa sunt ante illos sicut deliramentum verba ista, et non credebant illis."
(Lucas 24:11)

Não direi não,
nem te falarei
que tua negação
afirma o silêncio
discreto do amar,
do positivo amar;
então o meu sim
será o sonoro não
dum legítimo ter,
dum amanhecer
que escorre a luz
cinza e lunar
além do
mar.

Queres olhar Deus?
Fechando os olhos
verás seu sol sorrir,
congelando a dor
no úmido deserto
do cáustico amor.
É aqui bem perto
que vendo o elixir
já industrializado,
qual velha receita
de minha bisavó,
quando a resfriada
canja ela cozinhou
para curar estupor.

As doideras que eu digo
são correias de mendigo,
são sementes de tristeza
tão elegantes em beleza,
que galerias de erudição
querem vias à alienação.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Colei che rende felici

"A Divina Comédia", Paraíso, Canto I, v. 88-90
(século XIV)
 
Anjo que uma das asas cortou
e a outra de sujo negro pintou,
anjo que quis baixar ao limbo

escondendo-se atrás da nimbo
mais rubra que no céu passou
quando Dante o limiar visitou.

terça-feira, 5 de março de 2013

-- Sem título III --

Um cálice vazio sobre a mesa,
nela um imenso pote de geléia
e pão mastigado com tristeza
e manteiga batida em epopéia.

Minha avó tinha ido ver Deus
e eu tinha ido tomar meu café;
ela foi sem me dizer um adeus
e eu fui comer sem ter mais fé.

Eu orei com a torrada na mão,
com a boca cheia de leite frio,
roguei por breve ressurreição,
pela piedade do virtuoso Trio.

Milagres sempre aconteciam
e não seriam maiores os feitos
dos discípulos? Não estariam
meus rogos sem tolos defeitos?

Eu já recordava dela ao piano,
dos macarrões domingueiros,
do preferido poema garretiano,
dos seus fortes pães trigueiros.

Meu avô sozinho ia logo se ir
sem a vieja para a caminhada,
sem ela ao seu lado a dormir,
sem aquela galinha ensopada.

Fui lá ver Izaltina dormindo
cercada de tanta e tanta flor
que, é verdade, só cochilando,
diriam estar, na vida indolor.

Lembrei das últimas pipocas
que juntos, com sal, comemos;
lembrei das piadas todas ocas
que a ela contei e depois rimos.

Sem sua filha menor ao lado,
o caixão fechou o funcionário
com o espírito já emocionado
ao carregar seu último salário.

Na rua principal do cemitério
fiz as pazes com meu Senhor,
e entendi que afinal o mistério
da vida é o da morte no amor.

Um ano depois foi meu avô
ao quieto e derradeiro regaço
com o câncer lutando bravo,
porém me deu o final abraço.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Redenção

Salita al Calvario - Giotto (1267-1337)

"O Croce Fedele albero glorioso
unico è il fiore, le fronde, il frutto...
O dolce legno che con dolci chiodi
sostieni il dolce peso!"
(Marco Frisina)

Meus passos se apressam à Moriá.
Vou entregar a vida que morrerá
pela casta lâmina dum frio cutelo,
forjado na onipotência do martelo
que naquele duelo Miguel muniu.

O céu se vai cerrando em cortinas
e se aquece a terra com as batinas
que se prostam diante do Cordeiro,
que da Senhora um sorriso ordeiro
arranca ao se elevar na viva Hóstia.

Abrãao, com o ser em dor, martela
as mãos do Filho tal como naquela
tela de Velázquez, misteriosa e pia,
na qual aferrece toda atéia miopia,
na qual a Fé se mistura ao sangue.

Anjos ao fundo tocam a segunda
de Mahler, cujo coral nos inunda
com o silêncio do mudo sacrifício,
morto antes de ter o mundo início.
Estenda tua mão! Deus nos amou.