domingo, 24 de março de 2013

Quia pulvis et

"Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris."
(Vulgata, Gênesis 3.19)
 
O pó migrou para minha mesa
sem pedir permissão para ir à ela;
entrou vagando através da janela
sem medir o quanto no ar pesa

E foi se fixar na rígida madeira
como se procurasse para si o osso
no qual fora estrutura dum dorso,
quando ainda tinha eira e beira

Num vivo corpo então existente;
mas finda-se toda forma concreta
e deixa a energia de ser linha reta
para diluir-se no zero incoerente,

No silêncio constrangedor do ser
ausente que é ser pó antes reunido
por Deus e depois no não desunido,
até encontrar um móvel e se ter

Que retirar quando o espanador
em uma mão empoeirada expulsar
o vagante pó de seu derradeiro lar,
a mesa onde deito o meu rancor.

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