terça-feira, 5 de março de 2013

-- Sem título III --

Um cálice vazio sobre a mesa,
nela um imenso pote de geléia
e pão mastigado com tristeza
e manteiga batida em epopéia.

Minha avó tinha ido ver Deus
e eu tinha ido tomar meu café;
ela foi sem me dizer um adeus
e eu fui comer sem ter mais fé.

Eu orei com a torrada na mão,
com a boca cheia de leite frio,
roguei por breve ressurreição,
pela piedade do virtuoso Trio.

Milagres sempre aconteciam
e não seriam maiores os feitos
dos discípulos? Não estariam
meus rogos sem tolos defeitos?

Eu já recordava dela ao piano,
dos macarrões domingueiros,
do preferido poema garretiano,
dos seus fortes pães trigueiros.

Meu avô sozinho ia logo se ir
sem a vieja para a caminhada,
sem ela ao seu lado a dormir,
sem aquela galinha ensopada.

Fui lá ver Izaltina dormindo
cercada de tanta e tanta flor
que, é verdade, só cochilando,
diriam estar, na vida indolor.

Lembrei das últimas pipocas
que juntos, com sal, comemos;
lembrei das piadas todas ocas
que a ela contei e depois rimos.

Sem sua filha menor ao lado,
o caixão fechou o funcionário
com o espírito já emocionado
ao carregar seu último salário.

Na rua principal do cemitério
fiz as pazes com meu Senhor,
e entendi que afinal o mistério
da vida é o da morte no amor.

Um ano depois foi meu avô
ao quieto e derradeiro regaço
com o câncer lutando bravo,
porém me deu o final abraço.

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