sexta-feira, 19 de abril de 2013

Introdução para o livro "Sem ossos para o cão" do Prof. Dr. Luiz Roberto Benatti


Há quem diga que os cães vêem coisas que não vemos, justamente aquelas coisas de ordem metafísica que se prestam a justificar o fato arrebatador de que "There are more things in heaven and earth [...] than are dreamt of in your philosophy." Certo está que das paisagens o colorido eles não podem discernir tanto quanto nós. Afinal, nos olhos eles têm um par de pigmentos; e nós uma trindade completa. Nada mais coerente, já que para dominar o mundo físico, indispensável que sejam três, posto que é ele o primeiro número existente na geometria, logo, é o que dá a primeira forma à matéria.
 
Contudo, para além do aspecto meramente biológico, é certo que eles têm uma espécie de "anima" indissociável ao corpo, enquanto nós somos tricotômicos e separáveis, com partes divisíveis pela espada de dois gumes do Logos. Ou seja, nós temos um espírito ironicamente obsecado com aquele "Espírito que enche a solidão", como escreveu Quental; o que equivale a dizer que os cães não perdem sono com o trabalho de cogitar a existência e que tratados de Filosofia e partituras de Bach para eles não passam de embrulho para bacalhau mal-salgado. Enquanto os cães preguiçosamente se coçam "espairados" ao sol nos dias de inverno, vestidos de moleton nós suamos para poder comprar a carne da qual lhes advêm aqueles imensos ossos recheados de tutâno; e suamos para entender o porquê de também "tirarmos água" das sinapses.
 
Não conhecem os cães o que seja pecado. Não atribuem valor e moralidade aos seus instintos e sentidos. Porém, nós não apenas o conhecemos. Nós praticamos o pecado e o compartilhamos diariamente, pondo em conflito carne e espírito. Daí, raramente enxergamos o "sobrenatural" em sua explêndida e integral nudez. Sobrenatural que, não paradoxalmente, é naturalíssimo, uma vez que se constitui em realidade tão presente quanto o rugir do imposto de renda em abril. As coisas visíveis e invisíveis são uma única realidade, mas para Günther, o morto pastor alemão de minha falecida bisavó, o santo arcanjo Miguel pelejando contra o próprio Satanás nos céus valeria tanto quanto sua matinal mijada no poste. Brutal indiferença! Para ele, o mais próximo do que seja o transcedental talvez fosse a leitoa à pururuca em cima da larga mesa da fazenda. Sobrepujar essa distância era seu particular nirvana; devorar a tenra carne, seu bodhi. Porém, teria que se conformar, à imagem da metáfora proposta pela mulher cananéia nos Evangelhos, com as "migalhas que caem da mesa dos seus senhores." (Mateus 15:27)
 
O certo é que eles se deparam com coisas inefáveis sem entendê-las. O céu e a terra passam e os nossos "melhores amigos" não cessam de babar. Por outro lado, se não nos damos conta do invisível em suas andanças, tal deve-se por dois motivos: o pecado já referido e a "comum neutralidade" que carrega todo "homem natural", sobretudo à partir da idade da razão, como uma espécie de véu dotado da capacidade de não expor o indefeso sapiens-sapiens à uma realidade que o coagiria tanto quanto à salvação como à danação eterna. Apenas a santificação permitiria ao homem ver Deus pelas costas e, com isso, como diria Dante no Tratado II de seu Convívio: "Voi che 'ntendendo il terzo ciel movete." Entender e praticar a graça da lei da ascética é o colírio que nos revela o profundo e o escondido no raso e no evidente. Eis o limiar entre a cachorrinha que tenho aqui em casa e qualquer pessoa.
 
Há meia dúzia de milênios utilizamos a expressão "vida de cão." Antes, quando a lógica da fé racional nos regia, possuia significado eminentemente pejorativo, pois tinha-se por evidente que este animal -- nosso amigo -- se prestava à mais ordinária das existências, em tudo dependendo do homem, seu "egoísta" domesticador. Reminiscências desta acepção atualmente subsistem nos histéricos xingamentos da mulher traída que não tosqueneja em gritar "cachorro!" Entretanto, "vida de cão" é hoje sinônimo de conforto idílico, de sombra do teto da casinha almofadada e de fresca água mineral na tigela. A Modernidade, ciosa do espírito, inverteu tudo: humanizou o poodle e animalizou o homem, não mais "dono-proprietário", mas guardião e faz-tudo do distinto totó; fez do neto de Adão um raivoso hidrófobo e da neta da Laika uma depressiva blasé.
 
Dito o necessário, cumpro o dever de avisar ao leitor que o cão-alfa do nosso bem-nascido Herr Professor é um cérbero e que cada uma das três cabeças deste "Snoopy sartreano" carrega um daqueles três pigmentos. Uma cabeça para o azul, outra para o vermelho e ainda uma outra para o verde. Portanto, ele enxerga e vê como nós vemos e enxergamos sem, contudo, abdicar de sua típica natureza "rosnadora." É um canino-meio-lobo daquela estirpe que perseguiu Dante. Aliás, imitando o desterrado florentino, é poeta. Trovador do latido primordial, seu eu lírico é de gente -- gente humana, digo -- que não apenas ladra, mas morde. Santeul, se basset, diria que ladrando corrige os costumes. Não se trata de "Canis ignavus adversum lupos", como diria Horácio, mas de um cão audacioso contra a carcaça humana. É um descendente evoluído de Sirius -- o de Olaf Stapledon -- que, além de numerólogo tornado matemático, ao interessar-se pela ancestral casa estelar, de astrônomo quedou astrólogo. Ele brinca de lançar disco com os buracos-de-minhoca de Weyl, o sobrenatural rastrea para além do odor cósmico e dos querubins sempre ouve um "bom menino."
 
Como überhaushund que se preze, anexo à sua ínclita existência se acumula um gato neurastênico e hedonista, um "dono" ébrio à Vicente Celestino casado com uma "dona" dividida entre a psicótica volúpia marilyana e a perfeição de Amélia, e um punhado de moleques considerados normais até uns anos atrás. Está tudo aí, registrado: descrições do ordinário e anotações pitorescas que de inofensivas nada têm, a tal ponto que os escritos encerram, na verdade, o capítulo oculto de um Apocalipse apócrifo da lavra do irmão au-au de São Francisco de Assis. As crônicas do cérbero catanduvense, mascote do Luiz Roberto, constituem-se novo tratado de psicologia alternativa, cujos pacientes (nós) são convidados a se deitarem em sua nova caminha de Petshop, porquê, agora, ele afunda arrogantemente a pata em nosso focinho e diz: senta, deita, rola, finge de morto!
 
Prof. Dayher Giménez

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