quinta-feira, 27 de junho de 2013

Gabinete do tempo


Gabinete do tempo

 

"Pourquoi sommes-nous toujours fascinés par ces images du passé? Parce que nous sommes des espèces de dieux quand nous regardons en arrière. Dieu connaît tous les temps et Il connaît tous les avenirs. Nous ne connaissons qu'un avenir: c'est l'avenir du passé". (Jean d'Ormesson, Au plaisir de Dieu, Éditions Gallimard, 1974, pág. 77)

 

Há tempos acha-se por aí, bailando no palco das mentes mais indolentemente desavisadas, a bárbara idéia de que "quem gosta de passado é museu" em um tom absurdamente pejorativo que denuncia, pela manifesta vontade das consciências daqueles que adulteradamente a desposam, um dos multivariados males que se abatem sobre o carnalíssimo espírito do homem moderno: o desdém por aquilo que se foi.

Não se trata apenas de um desdém à História enquanto "ciência", ou seja, de passivo ódio à venerável Mestra já nem quase [sobre]vivente na Academia, mas de um estado que repele até mesmo a unidade básica e primordial da própria História -- a memória. Um carpe diem auto-limitador transformou o sujeito contemporâneo em portador de uma amnésia continuamente crônica e aguda, aliás, cronologicamente etérea. Tudo é fugaz. Tudo é diluível no nada dos calendários rasgados, no zero absoluto da dissipadora ignorância. Se por um lado a Escritura assevera que "um dia para o Senhor é como mil anos e mil anos como um dia" (II Pedro 3:8), por outro, para o humano de hoje tudo cabe e comodamente se ajusta na centelha de um milésimo de segundo, em um impassível momento que o cronômetro mal consegue captar.

Já não são as pirâmides quem soberbamente desdenham dos séculos -- que nos contemplam, segundo o dito de Napoleão; é o homo-tecnologicus coevo à Wikipédia quem nem ao menos os conhece em termos de existência. Afinal, o desconhecimento praticamente equivale, no reflexivo sentir da consciência, a não existência. A situação é essa: se o tempo é o atuar da gravidade sobre a areia da ampulheta, não tendo como conceder tempo ao tempo nós quebramos o vidro, lançamos à terra a areia e, com isso, abolimos qualquer sinal evidente de sua passagem, seja no rearranjo estilístico da arquitetura de certos prédios públicos ou no botox das paquitonas da terceira idade. Abolido está o fluir "linear" da vida, de modo que tudo deve se concentrar, em máxima pressão e emoção, no epicentro do momento. Lembrar? Lembrar do quê? Recordar? Recordar do quê?

E disso se aproveitam aqueles que governam. Aqueles que, mesmo diabólicamente possuídos por Mefotofiles (um "primo" do Mefistófeles), ainda assim planejam suas ações tendo prazos -- curtos, médios e longos -- como marco e esperança de conquista. Aliás, desde muito os políticos, sobretudo os mais comprometidos com "doutrinas vermelhas," desta situação se aproveitam com ânimos somente comparáveis aos do abutre diante da carniça. O Brasil, portanto, é paradigmático. Dia após dia, semana após semana, mês após mês, enfim, tempo após tempo, surgem e brotam deste solo escândalos de corrupção em todos os níveis de poder. Contudo, logo após o normativo "ativismo de sofá" -- no qual o cidadão, todo iracundo!, se revolta contra o establishment nos primeiros segundos do comercial televisivo --, tudo se esvanece nas trevas do esquecimento. E assim, passamos pelo Mensalão, pelo Mensalinho, pela Operação Saúva, pelas estripulias todas da confraria "lulo-sarneyana-collorada" até que, entre um berro e outro do Datena, tudo se foi. Isso, evidentemente, em termos de "História Recente." Com razão, escreveu Bloch que "a ignorância do passado não se limita a prejudicar a compreensão do presente; compromete, no presente, a própria ação."

E quanto à História "mais ali atrás" ou àquela "lá no fundo do baú"? O resultado do teorema acima exposto é, em certeiro efeito dominó, razoavelmente reproduzido em todo o resto, sobretudo nas instituições a priori guardiãs oficiais do tempo que são os museus. O templo das musas, o mouseion, tem sido constantemente dessacralizado, pervertido em sua "teologia" verdadeira: manter não apenas as "estátuas" dos feitos passados (e/ou coevos), mas também sua significante "poeira." Das tentativas de instrumentalização político-ideológica às fartas negligências cotidianas, o museu tem sido alvo da estúpida cupidez estatal, quando não da sempre presente cobiça privada.

A instituição que nasceu primeiro agregada aos templos, depois se desenvolvendo nas refinadas coleções palacianas e nos amontoadores gabinetes de curiosidades até alcançar sua estrutura-modelo na Renascença, tornou-se para o homem visceralmente sedento de saber uma "máquina do tempo" que, em sua "semi-onipresença", é capaz de transladar o indivíduo pelos caminhos dos trigêmeos de Chronos. Pelo mundo todo encontram-se disseminados museus Históricos, de Arte, de História Natural, Científicos, Arqueológicos, Etnográficos, enfim, locais para se estudar, observar e conhecer concretamente os fenômenos humanos estendidos no Passado, durando no Presente e almejadores do Futuro. Entretanto, cá entre os tupiniquins, a situação não poderia ser a mais dolorosa, a mais pecaminosa.

Falo por minha Pindorama -- trágico nome, não? Oficial e legalmente (Lei n. 475), temos um museu municipal desde o segundo dia de junho de 1969. Sem nome, sem espaço, sem nada além de algumas dúzias de peças e objetos juntados pelos responsáveis de então e que, hoje, estão "sumidas" e "ninguém" conhece o paradeiro (quando não a "existência" do acervo). Os míticos vasos de Sèvres doados por membros da família Gallo, a grande e portentosa mesa de mogno usada nas reuniões da Prefeitura e Câmara Municipal durante as décadas de 20 e 30, alguns quadros, telas e pistolas antigas, álbuns inteiros de fotografia confeccionados a mando do coronel Chico Maurício, meia dúzia de animais empalhados outrora pertencentes aos Ribeiro de Andrada, sumiram... e já se vão mais de quarenta anos sem que alguém se mostre verdadeiramente interessado em ao menos perguntar sobre. Governos passaram e passam e a História de Pindorama teria sucumbido à completa deterioração concreta e abstrata não fosse o trabalho altruísta e amoroso de patrícios tais quais Sylvia Jorge de Almeida Martins e Alexandre Penteado Villar Félix.

E Catanduva? Guardadas as devidas e naturais proporções políticas e sociais, é correto enunciar que as duas cidades irmãs têm jazido no mesmo túmulo. Entretanto, nem tudo são lamentos. Catanduva está se animando, ressuscitando. Um novo vigor dela se apossou e, apesar das costumeiras pedras e rochas no caminho, é certo que as coisas estão mudando. Coisa ainda mais rara: mudando para melhor. E este "melhor" não se caracteriza apenas pela abertura das portas dos seus museus em um único (MIS) irmanado à Biblioteca Municipal, mas pela notável e progressiva metanóia nas consciências e vontades. Há quem denuncie aqueles que, como escreveu Dante, "del NO per li denar, vi si fa ITA", há quem se indigne, há quem administre, há quem cuide, há quem mantenha ideais e, por eles, dê vida e alento às idéias. O museu virtual é uma delas; uma das idealizações do Professor Benatti. O Mus/V/ca surge como continuador da tradição "interneteira" inaugurada por gigantes da ordem do Museu Britânico, do Louvre, do Hermitage. Surge para expandir suas fronteiras para além da Avenida São Domingos e cavar trincheiras no espírito do catanduvense interessado.

Pois bem... Nossa fome por "elétrons edisonianos" faz-nos constantemente esquecer que todas as grandes obras do gênio humano foram escritas à luz de velas, cujo fulgor ativo em olivosas lâmpadas deram luz à inteligência de Aristóteles e São Tomás e em metálicos candelabros resgataram das trevas Leibniz e Schelling. Talvez -- eu não sei -- o fenômeno possa se repetir através dos brilhantes pixels de um computador. Talvez, depois de quase dois séculos de escuridão perpetrada pelo neón, um pc possa servir de lanterna aqueles que procuram a saída da caverna. Bibliotecas e, no caso, museus, podem ascender o fio da lamparina durante este caminho, seja ele físico, pelas ruas, ou virtual, pelos meandros do www. A despeito de tudo, permanece a primitiva verdade: o museu é um gabinete do tempo e cabe ao homem revirar suas gavetas.

Prof. Dayher Giménez
[Apresentação do Museu Virtual de Catanduva]

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