segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O mar e o homem

À cara amiga Maria Izabel da Silva Uvida

Há no régio bramir do mar
algo que a humana alma recorda.
Na tempestade há certa calma;
na bonança, solitude dolorosa.
Todo barco é açoitado e navega
e o homem aviltado prossegue.
Quem cai pela virtude se ergue
diante do altar: a Luz não nega.
As vagas espelham a quietude
adulterada que jamais acalma.
Algo que a humana alma esquece
há no sério bramir do mar.

Pássaro mensageiro

Qualquer sabiá um dia destes
virá, não por ar mas por terra,
cantando as notícias da guerra
e o triunfo solitário das pestes.

Arauto será daquele enxame
de gente, a mais tola e infame,
que leiloando a própria alma
submeteu à dor toda a calma.

Quem dele bélico canto ouvir,
marcará como a antiga marcha
no ouvido e na pedra o porvir:
tratado de paz que nada acha,

senão o tempo de sentar e orar,
de ajoelhar e quieto pronunciar
palavra qualquer para acalmar
a dor de quem quer se lamentar.


-- Sem título VIII --

Susurra o lívio dia nascente
um canto de misericórdia,
anuncia em acorde piado
a piedade que assusta.
A cor de um pássaro
morreu miserável
quando abatida
caiu no nada
da gaiola.
É decente
a pena livrar
da dura palafita
de arames o bicho
que pros ares nasceu.
E vem a noite cadente
encher de sono a música
laboriosa da pia existência,
que silencia em nua tristeza.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Cammin di nostra vita

De Dante eu sinto pena, mas não tenho sua pena.
Tenho o consolo do verso sem o talento do verbo.
Quem consente na rima, sentirá toda obra-prima
fluindo no espírito seu como a hóstia no alto rito.

Estética decrepitude

A face que era serena tal qual as coisas levemente curvas
dissolvendo expressões nas linhas suaves da juventude,
agora é reta e angulosa como a geometria da fria pedra
lapidada, é caricatural e no profundo sulcada de alentos,
de dias que resolveram dar as caras através da rija pele
que se foi encrespando à imagem da terra que o sol seca.

Tudo é nudez encoberta pelas folhas da figueira e peles
cortadas sem que o animal possa sentir a força do abate.
Brandas manhãs se foram passando ao largo do tempo
e com ele o rosto que o espelho amava vaidades deixou.

Virei, verei, vencerei

O São Domingos é o meu Rubicão.
Atravessá-lo-ei com espada na mão
e supremo ideal do bem no coração.

Minhas legiões postarei num passo
ao largo das fronteiras do tolo paço,
conquistado qual besta-fera no laço.

Alea jacta est!, pronuncio ao ribeirão:
tuas fronteiras d’água alargar-se-ão,
reduzindo ao nada a infeliz opinião.

O culto no qual se cultua

Sem o pensado silêncio,
sem a solene reverência,
sem a quieta comunhão
racional, um culto não há.

Se não estava na saraiva,
na chuva e no terremoto,
distante estará dos gritos,
d’feio som da alterada voz.

Leve é a liturgia de Deus,
e sublimada pelos cantos
dos santos fiéis faz breve
até mesmo o longo tempo.

Pneuma

Dia e noite,
como o gelo chicoteando o jardim
e o bafo do sol esganando a flor.
Aceso e apagado,
como as trevas extinguindo a cor
e a luz sujando a aquarela.
Opõem-se as coisas pelas engrenagens
do mundo, construindo para somar
e subtrair, dividir e multiplicar. 

Positivo & Negativo

"Lumina inter umbras clariora sunt."
(Binder, Thesaurus 1710)

Ó noite, que luz jogas sobre a terra,
que sombras em espelhos remistes,
que luas desbotadas hoje celebras.

Ó dia, que terror lanças sobre a terra,
que lúcidos espasmos de luz vistes,
que sóis apagados hoje enxovalhas. 

Pitoresca introdução a específico manifesto

Em nome dos dias que serão,
dos suores próximos do verão,
dos trabalhos duros no serão,
das folhas sujas do almeirão.

Em nome das puras orações,
dos idiomas sem traduções,
dos versos livres dos turrões,
das pedras sujas nos aluviões.

O passo do meu avô

O passo do meu avô de repente resvalou.
O passo reto e forte e apegado à terra
elevou-se no ar e indeciso pela dor
o plano solo humano abandonou.

O passo do meu avô era a pisadura da fé
que ao homem manda superar o abismo
e por no nada aparente a confiança do pé
coerente com a rigidez da nuvem no céu.

O passo do meu avô acrescentou
pó à poeira formadora dos buracos
que os olhos não percebem sem fechar
a visão ao cambaleio das antigas pernas.

A Rosácea da Catedral de Estrasburgo



As trevas enfrentaram as trevas
e fizeram da escuridão luz surgir.
Diante de ti, o absoluto cegador
torna-se raio de límpida cor solar.
A noite como o dia é iluminada
e a paz vem quieta em nós reinar.

Mente lida

"Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito." 
(Salmo 40:7)

Um livro por travesseiro
e breca-se o insone atoleiro
dos raciocínios pesarosos.

As pesadas idéias suprem
o vácuo do varrido cérebro
que arrumado eu celebro.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Antigo ciclo

“Tempora fugiunt pariter, pariterque sequuntur, et nova sunt semper.”
(Ovídio)

Meu dia é novo com um novo sol
azul, recém criado, feito e acabado
na manhãzinha do primeiro tempo
vivido sem a areia dos calendários.

Correio aéreo ao tempo

Áurea auréola dos tempos
e argêntea argola dos ventos,
prende-se no ar os lamentos,
ilumina-se no alto os templos.

Digam-me aonde teus séculos
se escondem para ocultarem
que as rugas não lhes tocam
até os segundos mínimos.

Indo

Quando o eco vence a voz
e o escuro espelho encobre
a própria prata com o cobre
das antigas eras, fica atroz
a reflexão sobre a pura luz
ao som pregada à nua cruz.

Do passado e o vazio som,
do futuro e o cheio silêncio,
o que se acendeu se apagou
e o que foi feito está feito.
 
Parado no presente e
remoendo o passado.

Do altruísmo e do egoísmo

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. (Filipenses 2:3-4)
 

Os meus dias não são meus.
São soltas melodias de Deus
e presas harmonias dos eus.
Os seus dias sim são seus.
São presos zurros de Zeus
e soltas cacofonias dos léus.

-- Sem título VII --


Aquele meu avô ficou de repente muito velho
e
meditativo como o repente de um escaravelho
em fria noite invernal na terra da estória louca
                                                                                         e
estóica do infernal trovador de memória pouca.
 

A casa antiga e a torre


(Torre de Silva, Valença, Portugal)
 
À Sá de Miranda.
 
A casa antiga e a torre
é o ideal que não morre,
é o lido sonho que corre
pelo século que escorre
a nos esmurrar furioso.

Há nela gordo torresmo
do suíno morto a esmo
e o livro sempre aberto,
fechando a boa mente
à tola idéia incoerente.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O meu burgo

 
As ruas de paralelepípedos
para bípedes são linhas nuas,
blocos de pedras cruas, lisas
como as leves luas flutuando
no outro empíreo da criação.

E as modestas casas brancas
são arestas levemente tortas
com o grosso reboco riscado,
imitando dos céus as estrias
e dos montes a cor anuviada.

Minha cidade


É tudo por aqui atrocidade:
findou o verão na atroz cidade,
acabou o tempo na atroz idade.
 
No altar o latim cessou de soar,
a velha deixou o véu sem orar,
o sino da alta torre caiu a rolar,
o povo não mais quer acreditar.
 
É o nada de lá a infelicidade
que derretendo a infeliz cidade,
perpetuou toda a infeliz idade.
 
É o chão sujo, tosco, rebaixado,
o novo átrio no qual é adorado
o barulho do plástico enervado
com massa de barro vomitado.

Esquecimento


Talvez uma muralha,
uma torre e um forte
fossem assim suficientes
para aplacar a morte
rasgando a mortalha.
 
Um dia alguém diria
que os heróicos feitos
nas mentes delinquentes
foram só os proveitos
do mal e da ninharia.


Talvez folhas e livros
fossem lá nos guardar
destas letras maldizentes
entre o pó do espaldar
do futuro com crivos. 

O sabor do saber

Sócrates bebe a cicuta...

Doce razão que saciou
Platão com forte prato
de verdade e justo ato
quando ele alimentou
a si próprio com a real
condição da lei natural.

Temperada sabedoria
que suavizou o amargo
fel da cicuta que o largo
gole do réu fez alegoria
daquela maior salvação
pela socrática redenção.

-- Sem título VI --


Uma poesia e uma tonteria para anuviar o pensamento.
Uma piada e uma geada para enterrar logo o desalento.
Talvez mau-agouro e uma gelada, diz lá o tosco garçom,
sirvam para, sem versos e risos ocos, se livrar da razão.
 
                            =//=
 
Um ramo de liberdade eu te darei,
ceifado dos campos que não temos
pela gadanha nos montes forjada
com ferro da mina que não vemos.
 
Descerá algum anjo com o decreto
dizendo “do arado espada fazei
e da enxada forte lança preparai;
derrubai, pois, a vermelha grei.”