domingo, 28 de dezembro de 2014

A armadura de Saul

Esgana-te o método alheio,
apertando tua alma medieval a carcaça
e o anel comprime o sangue do teu dedo? 
Quer o mundo -- querem todos -- moldar-te
e a impressão única dos teus dedos alisar.
Faze assim! Assim sê!
Dize assim! Assim existe!
Os muitos imperativos de Ninguém
pretendem dizimar-te, solitário Alguém...
Desenham sobre o espelho embaçado outra face:
com o vapor da Geena tornam opaca a tua feição. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O paraíso são os outros

O paraíso são os outros

Teu pai olhou amorosamente para a tua mãe: Eles foram uma só carne e, então, nasceste como Sete nasceu. Tuas avós trocaram as tuas primeiras e mais sujas fraldas e cantarolaram noites inteiras ao lado do teu berço, pelas mesmas mãos enrugadas balançado. Os braços das tuas tias ninaram-te e as tuas fartas bochechas foram por elas amorosamente apertadas. Deram-te as primeiras vacinas pelas mais finas e frias agulhas -- choraste, mas não padeceste a gélida e metálica dor de morte. O pão nosso de cada dia virtuosamente trabalharam para ganhar e nas tuas papinhas de maçãs e peras, de batatas e cenouras amassadas depositaram o suor do mais honrado labor. Tiveste teto e lar, segurança e conforto, zelo e carinho.

Guiaram-te os primeiros passos e, entre os vacilos e leves quedas no felpudo tapete da sala de estar, ensinaram-te a dignidade de se por em pé. Teus longos e muitas vezes agitados banhos com brincalhona espuma prepararam e por tantos anos as suaves mãos de tua mãe limparam a lama dos castelinhos que, feito um cruzado bolonhês às portas de Jerusalém, construías e sitiavas no quintal. Caias de bicicleta e jogando futebol, machucavas os braços, os joelhos, o rosto e... alguém logo vinha, correndo, passar o ardido Merthiolate nas feridas. Querias falar palavrão quando te injustiçavam os primos na escolha do time ou quando te pegavam no “pulo”, tentando abocanhar o bolo de abacaxi antes do almoço? Uma bendita mão a calava com um prudente tapinha, ensinando que “nesta família não se falam essas coisas, porque é feio”.

No poder das palavras, escritas e lidas, num quadro negro te iniciaram ensinando o bê-á-bá. Das quatro operações matemáticas à Teoria da Relatividade, das pátrias datas que decoraste com a tia da segunda série à historiografia dos Annales estudada na faculdade: Tudo o que sabes veio do próximo, dos outros de hoje e dos outros do vasto ontem da noite dos tempos. O grande e vistoso diploma pintado pela mão do artista analfabeto em pele de carneiro, que depuseram os mestres nas tuas mãos, ganhaste na solidão absoluta do teu ser? Não... “No man is an island / Entire of itself, / Every man is piece of the continent, / A part of the main.”

Um trabalho te ofertaram. Aceitaste. E também aceitou a aliança de ouro a moça para quem olhaste. A vida que agora tens, esta tua existência pessoal que na biologia com suas economias hoje manténs, é por acaso uma vida que não é parte da vida-maior que pelos outros aflora? Dependes do outro para gargalhar, rir e sorrir -- cujo valor aprendeste em choro, birra e silenciosa tristeza. Mais te indago: E sobre o Cristo, quem te contou? Alguém obedeceu ao “Ide!” e veio te anunciar as boas novas do Filho de Deus. Não te batizastes. Batizaram-te. Quem e o quê és sem o próximo? Olha para o mundo, o teu interno e o resto externo. Que existe que não tenha as marcas dos dedos ou do espírito dum outro alguém?

Sartre, faladora jumenta de Marx e saltitante poodle de Stalin, escuta: O paraíso são os outros!

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 12 de novembro de 2014)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Urim e Tumim

Luziu na treva qualquer pensamento,
qualquer palavra saradora, unguento
da ignorância, eternidade no momento? 
Acendei os faróis, jogai à chama
o último graveto, o último rabisco,
a última esperança de quem ama.
Ao céu apontará o final obelisco
da humana arrogância, desta Babel
de loucura; então, se ouvirá o lamento. 

Martelado o sinete da perfeição,
veio pousar junto ao humano coração
o Saber, a inteligente consolação. 
Será rastro puro da verdade
esta giratória probabilidade? 
Confiai, confiai que a polida pedra
vos dará a decisão que o futuro medra:
temerá o homem e tremerá a terra.
Afinal se ouvirá contentamento. 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Dois comentários

Dois comentários

Governar soberbamente milhões de almas (como queriam Nabucodonosor, Napoleão, Hitler, e ainda querem tantos outros indivíduos patologicamente sedentos de poder) não é, em si, glorioso; afinal, “Não será assim entre vós: mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; e, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo.” (Mateus 20:26-27). Gerar uma feliz e pacífica família cheiinha de filhos e netos é glorioso. Semear todo um jardim, cuja plenitude de beleza e esplendor se notará apenas nas gerações vindouras, é glorioso. É vaidade das mais infernais o querer elevar-se acima do próximo e dos próximos, como que pretendendo ser tutor dos escolhíveis destinos de alguém e das multidões. Uma existência dedicada ao exercício puramente hedonista do krátos será espiritualmente infértil, por mais que se perpetue o nome do governante, pelos logradouros e livros, até a consumação dos séculos. Nenhum triunfo público compensará fracassos privados, afinal, Davi fez guerra a Absalão. No entanto, uma vida pacificamente dedicada à fecundidade de uma silenciosa vocação familiar é fonte de abundante alegria, felicidade e gozo capazes de dar ao caminhar humano a mais firme e opulenta saciedade existencial -- que é consciência do Significado --, por mais que o bom pai e o bom avô apenas sejam lembrados até quando tombar à terra o último dos seus rebentos.

De que serve conhecer Shakespeare para além do apurado eruditismo de uma Bárbara Heliodora, citar e recitar Dante em perfeito dialeto toscano do século XIV, ter na memória “Os Lusíadas” desde “As armas e os barões assinalados” até “Sem à dita de Aquiles ter enveja”, ter lido de Goethe até os bilhetes enviados às suas muitas e belas musas, ter na estante todas as luxuosas edições de Cervantes se... na vida o homem não se deixar conduzir às duvidosas questões do “ser ou não ser”, se não se puder amar na mente e na carne uma Beatriz, se não se preparar grandiosas epopéias e heroísmos à partir das lutas diárias da Pátria, se não se dedicar tempo proveitoso às tempestades e ímpetos que se sucedem na alma, se não quiser utopicamente ir brandir sua enferrujada lança contra o Frestão da cética desesperança? Dois pobres favelados se envolverão tal qual Romeu e Julieta, pois “Cupid, he rules us all”; um qualquer político jovem e idealista será exilado do seu Uruguai, entre as férreas disputas de blancos e colorados; batalhões de Moshe Dayan perderão os olhos batendo-se pelas causas da terrinha (seja ela Sião ou Portugal); um afamado ator hollywoodiano abandonará os sets para ir aproveitar a alegria de uma vida simples; um velhinho, no asilo, se apaixonará pela grosseira cozinheira que diariamente enche sua bandeja, fazendo-a “virtuosa, emperatriz de La Mancha, de sin par y sin igual belleza”; e tu, que fazes do tempo que o Eterno te concedeu? 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 5 de novembro de 2014)

domingo, 2 de novembro de 2014

João IX

Outra vez vieste à terra.
Ajoelhado, tomaste mais pó;
mais pó para o meu pó.
O Espírito pairou sobre a saliva
e no lodo do teu globo terreno
o globo dos meus olhos formaste. 
Disseste: percebe que do informe
trago forma ao malformado,
e o pulverizado uno em força,
untando a cegueira do homem
com a visão da Humanidade. 
Energia coagulada é o Universo,
mas tu, humano, és pó coagulado.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Elogio do Pardal

Elogio do Pardal

Quem te quererá na gaiola?
Não tens o colorido das aves tropicais e a força das penas da rapina.
Diga-me em qual mito da Antiguidade te pegaram por símbolo.
Que rei te quis na sua heráldica e foi no ouro e na prata cunhar a tua delgada figura?
Quantas canções para ti foram compostas? Vê a andorinha, que “veloz y fatigada” sempre “ritorna tutti gli anni sempre alla stessa data” para os poetas inspirar. Cadê a tua ode?
Voas livre e ninguém sabe do teu longínquo olhar de falcão.
Cantas pelo dia, quando o barulho da existência inautêntica te abafa e o canário, o sabiá e o curió potentes reinam nas suas prisões fartas de alpiste.
Cantas para ti e para os teus. Ao rouxinol deixas o erudito lirismo.
Dormes atentamente à noite, quando a coruja, tua algoz, decide piar sua caçadora filosofia na roça.
És simples. Simples como os modestos homens simples.
Passam as gentes indiferentes a tua singela presença.
Nos fios estendidos pelos postes pousas despretensioso.
No chão seco das praças rastreias os farelos deixados pelos pombos gordos.
Não semeias. Não segas. Não ajuntas em celeiros. Mas o Pai celestial te alimenta.
Quantas poças cheias pelas chuvas e pelas mangueiras plásticas das donas de casas não se tornaram oásis salvadores para o teu bico ofegante?
Quem se preocupou em lançar farelos aos teus filhotes ou com açúcar foi licorar a água, como se faz ao delicado beija-flor?
Teu vôo não se eleva acima do Himalaia.
Não planas como as águias -- altivas e altaneiras.
Bates continuamente as asas por sobre as planícies do interior e arranha-céus da metrópole.
Este teu aconchegante ninho é a palafita dos ares: os pequeninos galhos e os matinhos que encontras, recolhes para transformar em conforto.
Peregrino como os patriarcas semitas, armas passageiras cabanas.
Para quê o pesado, o denso, o amanteigado barro cuspido dos joões?
Não renascerás das cinzas como a Fênix. Mas te perpetuarás pelo fogo vital das tuas gerações, inextinguíveis pelos holocaustos nucleares. Lembra da barata!
O estilingue será apontado e a arapuca armada, porém passarás longe das araras, das codornizes, dos nambus. A flecha não quer ferir a tua pouca carne.
O laço do passarinheiro não é para ti. Corre, faisão! Esconde-te, pavão!
Tu és o pássaro da solitária independência: da marrom melancolia dos dignos obscuros, do cinza anonimato dos trabalhadores.  

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 29 de outubro de 2014)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O Nada Primordial

O Nada Primordial

Convergem a Ciência e a teologia Judaico-Cristã ao afirmarem que tudo foi originado do nada -- ex nihilo. Nada havia e, então, tudo existiu. Os elementos com toda a tabela periódica e o que dela talvez esteja ausente, o carbono e os termos finais do átomo, toda matéria enfim, passaram a ser. “Num momento, num abrir e fechar de olhos”, eis o todo. Apenas Elohim era, posto que eterno -- logo, auto-existente. Todo o mais começou a ser, principiou a ser ente. Alguns entes, todavia, permanecem para sempre (o homem tricotômico imortal, p.ex., cuja pisadura final é a Eternidade), enquanto outros fenecem definitivamente (submissos à avassaladora Entropia).

Tudo o que tem e tudo o que não tem vida, tudo o que existe visível e ocultamente, tudo o quê é energia e impõe movimento e também tudo aquilo que é estático, tudo o que se deixa afetar e dirigir pelas leis físicas, ou seja, tudo o que é contido nas quatro paredes da Realidade passou a existir. Tudo o que existe, portanto, é uma substituição posterior do nada anterior. Mas não é uma substituição plena, integral e totalizante, como que indicando fisicalidade. É uma substituição “ocupante” de um vácuo-que-não-era-algo-em-si. Não foi um cálice que foi cheio. Mas um cálice que se encetou para que, depois, a uva fosse dilacerada no lagar do Universo, do qual o homem é o fermentador.

Um exemplo. Qualquer objeto manufaturado traz consigo duas origens negativas do ente e do ser: 1º aquele estado secundário que o retirou da deformidade inscrita na matéria-prima (a argila moldada em vaso, p.ex) e 2º aquele estado primário que fez emergir a própria matéria-prima pelo divino “fiat!” e talvez, quem sabe e prova?, pelo científico Big Bang. Portanto, todas as coisas têm apegadas ao ser o não-ser. Recordando Heidegger, “O nada não permanece o indeterminado oposto do ente, mas se desvela como pertencente ao ser do ente.”

Quando e como pode o homem contatar o nada, sentindo-o? Quando a angústia o tomar, arrebatando-o dos significados imediatos do Mundo. Quando das coisas não restarem senão vagas linhas perdidas no vácuo das ilusões. Quando na mente e no coração dominar o “abismo intapável” pelos tentadores manjares que nos oferece o Sistema. Então, o não-ser se fará anunciar pelos clarins da consciência tocada por aquilo que, antes de todas as coisas, antecipava a obra criadora do Logos. Quando o ser esvazia-se, pulverizando aquilo que nas coisas é discernível e legível, então o homem vai olhar, diante do espelho da própria consciência irrefletível, o Nada Primordial. 

Apenas em Deus não há qualquer vestígio do nada. Somente aquilo que teve início é pespegado ao não-ser e, por isso, tem latente em si o Insignificado. Em todo o homem doerá, mais dia, menos dia, a chaga da angustia suspensória que o tornará ciente da total não-consciência anterior. Portanto, estão cheios de razão os cristãos: “Existe no homem um vazio do tamanho de Deus”, no dizer de Dostoiévski, que é o abismo do nada, o abismo da vacuidade existencial. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 22 de outubro de 2014)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Notas pertinentes – IV

Notas pertinentes – IV

O palavrório mundano abafa a Palavra no/do Mundo. O cochicho, o falatório, o bate-papo, a conversa fiada, enfim, a maquinal e insignificante “gastação” de saliva opõe-se ao Logos, que é o Verbo significante. Há muita conversação e pouco diálogo. Fala-se muito e diz-se pouco. Mecanicamente o homem usa a língua e o palato para tornar comunicáveis os anseios de sua carne, mas está mudo para os significados profundos e essenciais de seu espírito. A língua desceu ao nível da caverna: como outrora sons primitivos regiam a relação entre os homens, hoje a linguagem é mero regurgitar informativo, mera ida e vinda de causas e efeitos gerados na boca de autômatos inautênticos.

Não há homem mais passível de amargura e rancor que o sonhador altruísta que vê seus sonhos serem sistematicamente frustrados. Quem se permite produzir e sustentar ideais cuja elevação às vezes se sobrepõe a realidade possível, enfrentará não apenas as greis inimigas sempre prontas a menear a cabeça em pessimista desaprovação, mas batalhará contra “os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Efésios 6:12). Daí, é tênue o passo entre o amor desmedido pelas causas defendidas em favor do próximo e a desesperança criadora de ódio destinado àqueles próximos que se fazem “pedra no meio do caminho” do sonhador.

O autoritário é o sujeito cujos medos e dúvidas o dominam a tal ponto que ele quer e precisa dominar os outros para que estes, escravizados, digam constantes améns às suas opiniões e, assim, pelo retumbante placet desta maioria que ele mesmo forjou, sinta acalmadas as suas patológicas contradições internas. É o oleiro que transpõe suas deformidades internas para o exércitozinho de pinóquios de barro que ele cria e submete. Não é à toa que o autoritário é também um fanático; o perigoso fanático que, no dizer de Chesterton, “é o homem que acha que o outro está errado em tudo, por estar errado em alguma coisa”.

Existem duas grandes modalidades de barbárie: a Animalesca e a Meta-niilista. A primeira surge de um estado no qual impera o inconsciente instinto de auto-preservação, logo, trata-se de um contexto semi-civilizado em termos de domínio da técnica, da religião e da alta-cultura. Há guerra entre sociedade e indivíduos. O dia-a-dia das violências brasileiras é assim. A segunda nasce de uma mentalidade racionalista e pós-civilizatória mais-ou-menos tornada senso comum que, tendo pretensamente descoberto as origens dos instintos humanos (pelo Darwinismo, p.ex.), conscientemente os repele como “reminiscências evolucionárias”. Há guerra entre indivíduo(s) e indivíduo(s). Os canibais alemães que arregimentam e selecionam seu auto-oferecido menu gastronômico por meio das redes sociais são assim. Não existem bons selvagens, Rousseau! Homo homini lupus...

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 15 de outubro de 2014)

domingo, 12 de outubro de 2014

O que vos digo em voz baixa

Estes castelos que 
nos ares construíste,
à terra descerão 
pedra por pedra.
O feudo da tua alma 
será burgo no mundo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Conhecimento: limites marcados

Conhecimento: limites marcados

Homem algum é capaz de conter a plena verdade do mundo. Ninguém discerne a realidade “das coisas visíveis e invisíveis” assim como ela é. Somos espelho quebrado refletindo espasmos de luz, fagulhas dispersas que se apressam a contornar significados mais refulgentes e palpáveis. Somos uma clareira em meio ao infinito-que-se-acrescenta da “selva oscura” universal. Podemos compreender um sistema -- específico --, não O Sistema -- completo. É infértil a vontade de perscrutar a integralidade de todas as coisas e do todo que tudo sustenta. Por isso existem os mistérios das coisas encobertas: para que se revelem outras, as descobertas. 

Entendemos o localizado e compreendemos sua extensão local. O cérebro é limitado, logo, delimita a mente. As estruturas neurais (como cálice da alma) reverberando nossos afetos, nossas volições mais primitivas bailando a valsa da psique com nosso espírito refletor da Divindade, o arroz-com-feijão do almoço afetando nosso humor, relâmpagos da memória interligando o que fomos ao que somos e retro-catapultando o que seremos, qualquer “furtiva lagrima” rolando silenciosa ao cabo da madrugada, enfim, os acontecimentos internos e externos que causam seus efeitos no homem, vêm colorir de maneira específica a nossa [cosmo]visão. Colorido prismático de realidade pura, não de turbado dégradé da percepção pessoal.


Não se trata, portanto, de uma reformulação da leviandade moral e intelectual do Subjetivismo, procriador sistêmico do Relativismo. Não há aqui paralelo algum com aquele gasto e desgastado exemplo sub-ginasiano do elefante analisado por cegos pelas suas partes e por elas tido como o todo. Isso diz respeito às minúcias grandes, médias e pequenas que se escondem a uns, que surgem a alguns “sotto il velame delli versi strani” das intuições e infusões de sapiência, e a outros se revelam por completo quando ardem as sarças da razão primordial. Tampouco tal se aplica às estruturas básicas que alicerçam a Criação e que o Senso Comum expõe em provérbios, ditos, tradições e idéias que, pela Lei Natural, estão esculpidas no coração de todos os filhos de Adão. Trata-se do mundo que o Eterno pôs “no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim” (Eclesiastes 3:11).


Todo homem domina algum conhecimento -- alguma intuição discernitiva da realidade, na maioria das vezes -- que os demais desconhecem parcial ou completamente. Em muito chega-se às mesmas conclusões, às mesmas idéias e ideais, aos mesmos formatos e conteúdos teóricos e hipotéticos. No entanto, algo sempre escapa no plus ultra das consciências que se expandem pela palavra-pensada. Todo homem é, por isso, superior e inferior ao seu próximo. Todos nós somos senhores e servos da cognição alheia quando ela rastreia as marcas do Tao pulverizadas pelo Estabelecido. Apenas a Humanidade na sua reunião unitiva de conhecimentos individuais ousa aproximar-se da inteira Gnose.

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 8 de outubro de 2014)


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Luceat eis

Bela é a luz, luz mansa,
quando revela no ar
o átomo na partícula.
Faz brilhar a poeira
quando se abre a janela. 

Vede aí a fina fresta,
tua liberdade:
a medida que eleva
à visão o pequeno,
o silencioso ativo. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Comentários sobre o Reino de Tonga -- I

Comentários sobre o Reino de Tonga -- I

Em 1831, pouco mais de três décadas após terem iniciado a evangelização dos povos polinésios, missionários ingleses de confissão Metodista conseguiram converter o nativo príncipe-guerreiro Tāufa’āhau. Daí, de acordo com o antigo princípio que afirma que a religião do príncipe deve ser a religião de seu povo, toda Tonga agregou-se ao aprisco do Evangelho. (Há nisto certo paralelo com a chegada do apóstolo Paulo em Malta.) Em 1845, o dantes chefe tribal pagão foi ungido rei, Dei Gratia, como outrora o franco Clóvis. As tribos das ilhas foram definitivamente unificadas e, enfim, tornaram-se Reino.

A liturgia e a cultura locais foram refeitas sob os auspícios da “pomp and circumstance” que imantam a realeza da antiga Albion. Até no nome os Tupou decidiram imitar os monarcas ingleses: ficaram sendo Siaosi, a versão tonganesa do prenome Jorge -- nome dos dinastas hanoverianos de então. Foram criados uma bandeira (que recorda a de Malta) e um estilizado brasão de armas. Vê-se na coroa real finamente ourivesada, uma das mais pesadas peças da regalia mundial, a flor-de-lis que os soberanos britânicos ostentam desde os tempos da Guerra das Cem Anos. Tudo encimado pela cruz, a cruz que, segundo o altaneiro mote dos cartuxos, permanece firme enquanto o mundo (representado pelo orbe) gira.

Ordens de cavalaria, segundo o modelo europeu, foram e ainda têm sido fundadas. A primeira, criada por Jorge Tupou II, foi a Real Ordem do Puono, em 1893; a última, a Ordem da Fênix, foi erigida por seu bisneto Jorge Tupou V em 2010. Um meticuloso cerimonial de ingresso é preparado para armar um novo cavaleiro. Entre os saiotes confeccionados com as folhas das palmeiras que abundantemente crescem nas ilhas e as marciais danças cerimoniais que acompanham praticamente todos os acontecimentos oficiais, é possível discernir a liturgia que armou cavaleiro ao rei Ricardo “Coração de Lei” e, na alma fecundamente transtornada, fez de Dom Quixote um valoroso “hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor”.

Quem puser os olhos em Nuku’alofa, a capital do país, imediatamente se recordará da bela Celesteville, a cidade-estado de Babar, rei dos elefantes. Lembram-se da obra de Jean de Brunhoff, que a TV Cultura diariamente põe na tela sob o formato de desenho animado? Sob a tutela da Senhora (Rule, Britannia! rule the waves), Babar é educado na metrópole e, tendo adquirido os instrumentos culturais da Civilização, vai estabelecer uma monarquia hereditária de tipo ocidental entre seus conterrâneos -- que elegiam seus líderes entre os mais fortes e robustos guerreiros. Impossível negar as similaridades entre a ficção infantil e a adulta realidade.

Já se contam cinco reis e uma rainha -- seis fidei defensor -- desde a promulgação de sua constituição em 1875. De população três vezes maior que a do pequeno e apóstata Principado de Mônaco, Tonga é uma nação que soube conciliar suas tradições indígenas mais belas e genuinamente ancestrais com as benesses todas da Cristandade. Houve em Tonga um completo e acabado influxo civilizacional, de “encontro dual” dir-se-ia: o oceano primeiramente ligou fisicamente e depois interligou espiritualmente os povos, hoje membros da Commonwealth.  
Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 1 de outubro de 2014)

domingo, 28 de setembro de 2014

Spiegel im Spiegel

Imersos em ar
estão os galhos.
E as raízes,
em terra submersas.

Prolongam-se estas extremidades
em idêntica proporção: ao céu
as folhas pulmonares, à terra 
os intestinos radiculares.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sobre os santos

Sobre os santos

O santo não é um super-homem tremendamente sobrenatural que congenitamente se eleva acima dos demais membros da espécie. Ele nasceu criança, não santo, posto que é “homem sujeito às mesmas paixões que nós” (Tiago 5:17). É, portanto, o mais humano dos homens que pisa a terra, mas com a consciência de dela ser, ao mesmo tempo, finita e infinita progressão: o santo sabe que é pó brutalmente levado pelos variados ventos das estações e que é na existência diluído tanto pelo suave orvalho quanto pela turbulenta tempestade; contudo, sabe também que é espírito e que a tumba não poderá aguilhoar-lhe, posto que foi moldado para usufruir a Eternidade e existir para além da matéria deste mundo com prazo de validade.

Mas, quem e como são os santos? Forrest Gump seria um santo. Valdemiro Santiago, não. O príncipe Míchkin seria um santo. Caio Fábio, não. Os santos são distinguidos não pelo muito falar em Deus (Mateus 7:22), não pela sua religiosidade fanaticamente ranheta que a todos quer converter pelo temor do fogo e do enxofre do inferno. Eles são quietamente grandiosos. Imersos na graça de Deus, corrigem o pecador falando do Amor e não lançando mão de impropérios nascidos de ódio justiceiro -- que é pagão. A misericórdia é a pedra de toque da santidade. Os santos não saem à cata das sementes de joio na Terra lançadas, mas deixam-nas germinar até o dia da ceifa. Por isso, não são violentos revolucionários, imediatistas que à força querem instalar o Regnum Dei; afinal, o heroísmo cristão é o martírio e os torquemadas farão companhia ao diabo...

O santo deixa passar o tempo sem medi-lo pelo calendário dos homens. Ele sabe que as coisas acontecem, vêm e vão conforme quer Deus: o kairós transcendente pulveriza o movimento espacial do chronos imanente e faz da vida interior do homem virtuoso o propulsor das coisas externas que com ele se deparam, afinal, “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). Daí, tudo tem significado, todas as coisas desvelam porquês, forças visíveis e invisíveis colaboram uniformemente para dar sentido à vida de quem abraça a cruz. O santo banha-se de ontologia e por isso sua consciência participa do Mistério, não sendo afligido pelas questões que a tantos levaram à loucura. Tudo é paz. Tal como São Luiz Gonzaga, ele “continuaria brincando” mesmo sabendo que passaria ao Além dentro de poucos minutos.

Tampouco é “perfeito” o homem que ingressará no céu ou mesmo o foi aquele que já recebe na terra a honra dos altares. Os santos jamais passaram o limiar da boa sanidade querendo atingir a inatingível perfeição, cuja busca (sempre obsessiva) traz inquietude e perdição. Eles conhecem e distinguem o que é perfeito, mas são alegremente imperfeitos e, nesta condição, diariamente se aperfeiçoam. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 24 de setembro de 2014)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Efeito Borboleta

Efeito Borboleta

A torneira que vagarosamente pingava abria pequenos veios que aguavam os carrapichos do quintal. Seu Zé tentou arrancá-los com a velha enxada. Na sétima batida, acertou o ferro enferrujado no dorso do pé, que sangrou. Foi ao hospital cuidar da ferida e horas depois, já indo embora, andando pelos corredores, tropeçou numa enfermeira que carregava, afobada, os prontuários dos pacientes da UTI. Os papéis se misturaram e um deles, elevado pelo ar, voou pela janela e foi pousar no meio da rua. A enfermeira torceu o pé. O doente que ficou sem o prontuário deixou de tomar o antibiótico que o teria matado em meia hora -- era alérgico. De pé torcido e canela inflamada, Luísa não pôde dançar a valsa no casamento da irmã e deixou de conhecer e amar o melancólico Augusto, que se lançou do amplo vão de uma centenária ponte alsaciana três anos depois. Arthur, vizinho de Augusto, propenso a sucumbir às intempéries da psique, atemorizou-se com o suicídio e resolveu por em ordem a existência. Sentiu a vida. Sentiu e saiu triufante do quarto: ordenou-se pastor, apaixonou-se pela filha do deão do seminário e, cheio de alegria, foi ter filhos como tinham os patriarcas de outrora. Seu primogênito, poeta, escreveu os mais pungentes versos do século; lidos, num preguiçoso sábado de inverno, por uma destas ricas solteironas ianques, milionárias que em pencas produzira o industrial século XX. “Na areia do deserto enterrada, / No rio profundo mergulhada: / Não será fecunda tua raiz. // Fita no chão o rabisco, o país. / Mira com coragem a alvorada, / Faz do tempo frutuosa jornada.” O coração cioso mas não indolente da velha se comoveu e, querendo a esmo fazer caridade, mandou buscar na praça qualquer infeliz que carecesse de cobertor e comida. Subiu o austero mordomo com o indigente, que deixou cair, enquanto entrava no elevador, uma pequena bolsa, toda cheia de puídos recortes de jornal. A bolsa, leve e redonda, rolou até o hall, onde foi chutada para fora por um pirralho mimado que por ali passava. Na rua, foi parar no pequeno bueiro da esquina, que ficou entupido. Choveu à noite. O bueiro, vedado, não escoou a água daquele fim de quarteirão, impedindo que quatro cãezinhos fossem arrastados para o caudaloso esgoto da metrópole. Encontrados na manhã seguinte pelo entregador de jornal do bairro, conseguiram um lar, ganharam um nome e foram ter as suas férteis gerações de filhotes. Um dos bisnetos destes bassets acabou na casa de uma menininha que padecia de câncer. Athos, o cão, fez a vez dos amigos de infância que Alice teria amealhado se vivesse o primário. Com suas sinceras lambidas, ajudou a salvá-la. A quimioterapia também cumpriu sua missão. Curada, decidiu então ser médica. Queria curar os outros. Jurou com Hipócrates e foi servir a Humanidade, engrossando as fileiras dos Médicos Sem Fronteiras. Enquanto tratava de tuberculosos terminais na Somália, maometanos a arrastaram ao harém-cativeiro. Seqüestrada, pelo celular conseguiu enviar a mais sintética das mensagens aos pais e ao país: “Help me!”. Horas após, uma esquadrilha de F-22 bombardeava os redutos do grupelho jihadista. Sic transit gloria mundi... 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 17 de setembro de 2014)

sábado, 13 de setembro de 2014

El Camino de Santiago

Vede que o tempo escaço está
e não se pode mais pela luz contar. 
Como mediremos a areia e o ar,
as águas que diluviam e o mar?

Passem as nuvens todas,
sumam as marcas do firmamento
e inundem de quieta tempestade
a terra que ao céu faz guerra.

Círios ao vento, luz às trevas:
toda marcha tem uma prece
a guiar os pés peregrinos,
a guardar o espírito andarilho. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Destinatus obdura

Dize tu, oh filho de espartanos, 
se preferes com a foice a terra cegar
ou com a espada tua vida ganhar,
se queres ancião na cama fenecer
ou em glória jovem perecer. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Notas pertinentes – III

Notas pertinentes – III

A arte do Neanderthal é superior a tudo o que se tem apresentado de “contemporâneo” na Royal Academy of Arts de Londres, no MAM e em qualquer lugar onde o conceito de artístico seja tido como “toda manifestação humana”. Qualquer cusparada ocre nas paredes das cavernas cantábricas supera em talento, beleza e profundidade espiritual qualquer destes esguichos-e-espirros que o arrematador milionário emergente têm posto burguesamente acima da lareira rococó, ao lado da coleção de pratos de porcelana que pertencera à avozinha de sua nova cocota.

O Ato Falho -- chamado por Freud de Fehlleistung -- nada mais é do que a conceituação psicanalítica, como lapso, daquele célebre dizer do Cristo: “Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mateus 12:34). Toda a sabedoria do Mundo de antanho supera largamente os “eurekas” modernos de Freud, Jung e tutti quanti. Qualquer budinha tibetano, encerrado em escuro claustro lá pelos idos do século VIII, sabia mais da psique humana que estes adoradores de divã e ansiolíticos que clinicam por aí...

Queres conhecer a essência de alguém, perscrutando o âmago da pessoa escolhida até o limiar da alma e do espírito? Mande-a ao piano e deixe-a sozinha com o instrumento pelo tempo suficiente para que, confortável e acostumada com as teclas e algo íntima do pontuado som delas emanado, ela se atreva a compor uma melodia. O que dos dedos naturalmente sair será a síntese mais refinada daquilo que ela carrega no coração. Se de personalidade melancólica, algum noturno de Chopin será sentido; se alegre e jovial, o bailado das valsas de Strauss; se tensa, a Sonata 17 de Beethoven turbará o ambiente. Todos nós temos uma música interior que inconscientemente se expande e dilata.

Na Antiguidade, a falta de chuva era sinal de punição divina. Basta recordar o episódio com o profeta Elias. Pecava o povo e as janelas do céu se fechavam. O sertão virava mar e o mar virava sertão, no dizer de Antônio Conselheiro: Caem sobre o Nordeste dilúvios diários enquanto São Paulo vê minguar suas fontes. O riacho do Ipiranga é agora um borrão vermelho que grita mudo. Terá seriamente pecado o povo bandeirante? Que fez o paulista para merecer a aridez que anuncia racionamento e renite? Após o nosso coletivo mea culpa, talvez “uma pequena nuvem, do tamanho da mão dum homem” (I Reis 18:44) venha molhar o rosto seco dos nossos quatrocentões, carcamanos e caipiras.

Curtidores compulsivos são idiotas compulsórios. Basta postar qualquer trivialidade acompanha de hashtags intelectualmente ocas para que enxames de perfis (gente despersonalizada), em frenesi, curtam sem quase ler, comentem com os “disse tudo!” e compartilhem sistematicamente aquilo que vier de encontro às suas volições, pulsões e ideários impensados. Não ouse discordar: Senão, a matilha virtual criará campanhas contra você e lhe infernizará a vida até o dia em que a Eternidade substituir a timeline. Isto é proto-fascismo de Facebook. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 10 de setembro de 2014)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O profeta

O profeta

Ainda existem profetas. Há quatro anos, presenciei o austero e exortativo discurso de um deles. Parei o carro no primeiro semáforo da entrada de Catanduva, lá no começo da Avenida São Vicente de Paula. Na esquina à esquerda, um homem alto, de compleição vigorosamente robusta, talvez uns cinqüenta e tantos anos, vestido como outrora se vestiam todos os homens decentes -- de terno bem talhado, naturalmente --, bradava a quem passava, apontando assertivamente com o dedo: “Vocês, os poderosos, hão de prestar contas ao Todo-Poderoso; vocês, que nos fazem de escada, que nos pisam e amassam. Vocês hão de pagar!” Palavras de alguém que, certamente, estudou a Escritura, de alguém que leu e assimilou no próprio espírito a elevada vocação de Isaías, de Jeremias, de Ezequiel, de João Batista... Quem presenciou aquele falar energicamente impetuoso, presenciou o mesmo espírito que animou Elias a enfrentar a fúria de Jezabel e a indolência perniciosa do rei Acabe.

Profeta, anuncia e clama / ao povo rebelde e blasfemo; / dize a quem não ama / que virá fogo sobre o feno. / Profeta, tua língua é espada / que corta pelo Senhor; / derrete ferramenta e enxada / e vai à guerra, ao labor!

A voz do profeta é uma voz de consciência, é a voz do prenuncio de castigos coletivos, de juízos eminentes, de punições corretivas que almejam revolver a terra seca do atrofiado coração humano. Quando um povo perde a alma e se amasia com seus algozes, quando o bem é chamado de mal e o mal é elevado à condição de bem, quando se calam os homens de virtude e as pedras ameaçam clamar, então se levantam da obscuridade de suas existências modestas os profetas. Pastores de ovelhas que pouco ouviam do barulho citadino, como Davi, quietos copeiros exilados em cortes estrangeiras, como Neemias, são chamados a deixar de lado os seus afazeres ordinários, para irem às praças, às ruas, aos valados, às salas reais e defender o bom caminho das “veredas antigas”.

Profeta, anuncia a verdade, / dize que vomitados serão / aqueles que são leviandade; / pois como palha queimarão! / Profeta, cumpre teu ofício / e esperar-te-á o Céu. / Levanta-te contra o ócio / e clama: Shema Yisrael!

O que queria aquele homem, então? Queria dizer alguma coisa a Catanduva e ao seu povo enfeitiçado? Talvez, estivesse apontando a mudez quadrienal dos políticos que, em tempos de eleição, vem tocar seus jingles carnavalescos na porta dos desvalidos. Talvez, falasse das tribunas -- outrora púlpitos da honra! -- transformadas em picadeiros dedicados à mais baixa prosa de peixaria algarviana. Talvez,  ferido por alguma injustiça repentinamente avassaladora do seu próprio coração, nos quisesse lembrar das mudas opressões que se abatem sobre os homens que, silenciosamente virtuosos, um dia abrem a boca e despejam nas ágoras das cidades o juízo que o próprio Deus há de mandar sobre aqueles que escandalizam a Humanidade.

                                                           Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 27 de agosto de 2014)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

L'enfant terrible

Quando eu era menino,
tão corajoso era
que ao cavaleiro Quixote
a covardia eu censurava. 

O ideal do beato Morus
era para mim material
e toda utopia descoberta
mero esboço do meu ideal. 

A espinha, forte, arrepiava
diante de qualquer sinfonia.
No piano lá de casa eu via
o portal para o eternal.

Quisera eu, mais uma vez,
falar como menino,
sentir como menino,
discorrer como menino...

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cacofonia sacra?

Cacofonia sacra?

O ano era 1932. O mês, outubro. São Paulo, heroicamente solitário, fazia a sua revolução constitucionalista contra a tirania varguista. Era noite em Pindorama. Era noite nas almas pindoramenses. Aqui, famílias inteiras tinham mandado às linhas de frente seus melhores filhos. Celebrava-se missa na Igreja Matriz de Santo Antônio. O coro, regido por um velho frei espanhol, entoava reverente o madrigal “Jesu, rex admirabilis” de Palestrina. A música consolava e a liturgia, latina, era a propulsora espiritual da beleza da Fé. A beleza não apenas salvava o mundo -- no dizer dostoieviskiano --, antes, salvava as almas da amargura da desesperança. O único templo neo-gótico da Araraquarense cedia suas ogivas arquitetônicas à mais refinada música da Escola Romana.

Desde então, tudo mudou... Veio o Concílio Vaticano II que, já no atropelo demolidor da Modernidade, deu cabo não apenas da missa de sempre, mas também da beleza de sempre. Atendendo aos chamados progressistas, o neo-iconoclasta Catolicismo Brasileiro jogou tinta rosa nos afrescos, demoliu os vetustos altares de mármore, pôs a baixo todo o antigo barroco colonial para beatificar as linhas atéias de Niemeyer (simulacros do etéreo, não inspiram nada além da sensação de que “tudo o que era sólido se desmancha no ar”), emudeceu os corais, silenciou as orquestras, enfim, extinguiu a Música, a Música da qual Agostinho comovido tinha dito: “Chorei a ouvir os teus hinos e cânticos, profundamente emocionado pelas vozes de tua Igreja, que canta suavemente”. Mas... o que são as opiniões do santo Bispo de Hipona diante das infalíveis sumas dum Fábio de Melo? Triunfou a mediocridade. Venceu o nivelamento por baixo.

Saberão quem foi o católico Mozart os padrecos que abandonaram a batina pelo jeans atochado e que arrastam sua má fama pelas insalubres ladeiras da madrugada? E os irreverentes pastores do histerismo neo-pentecostal, fanáticos dizimistas da hortelã, do endro e do cominho (Mateus 23:23), conhecerão o luterano Bach? Salvo honrosas exceções, o templo padrão da Cristandade brasileira tem sido um herético monumento à cacofonia. Missas rezadas sob o ritmo do axé, do samba, do pagode e do heavy metal. Procurem pelo “Padre Pinto” no Youtube. Cultos oficiados ao som do forró, do funk, do pop e do sertanejo universitário. Procurem pelo “Passinho do Abençoado” no Google. Se por um lado não há espaço nos santuários cristãos para Vivaldi, Handel, Beethoven e Haydn, por outro lado, abundam “lepo-lepos” gospel e “ai, se eu te pego” católicos.

Baterias agudas, levitas do louvorzão, violões de corda bamba, pandeiros carnavalescos, guitarras sem amplificador, guinchos e firulas vocais, microfonias, playbacks da Cassiane, composições escritas nas mesas dos empresários, etc. Deus não é surdo nem tem ouvido de pinico, irmão!

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 27 de agosto de 2014)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Notas pertinentes – II

Notas pertinentes – II

As duas mais belas bandeiras estaduais são a paulista e a pernambucana. A primeira simboliza o Brasil moderno, industrial e burguês; a segunda, o Brasil antigo, agrário e aristocrático. Pernambuco é o que foi o São Paulo dos bandeirantes. São Paulo foi o que é o Pernambuco dos heróis de Guararapes. Há também em ambos uma “nobreza da terra” que dá o tom de suas vidas coletivas -- éticas e estéticas. “Paulista, para um só instante”, corre e vê a “nova Roma de bravos guerreiros”.

Enquanto o Homem não alcançou a técnica, sua Arte era algo deformatória mas almejava o registro ideal da realidade. Dominada a técnica, todavia, sua Arte tornou-se intencionalmente deformatória e a serviço da consciente fuga do real. A Vênus de Brassempouy queria ser a Vênus de Milo enquanto a Vênus de qualquer escultor moderno quer ser a Vênus de Willendorf.

Na Arte Medieval, não há “macro sem micro” -- a Arquitetura Moderna poderia assim ser definida, aliás: o macro sem o micro ou o micro tornado macro. Tudo o que há de grande depende do pequeno detalhado. A minúcia é de tudo a base, porquê, como diria Gregório de Matos, “O todo sem a parte não é todo, / A parte sem o todo não é parte, / Mas se a parte o faz todo, sendo parte, / Não se diga, que é parte, sendo todo”. O medievo era algo “fractal”, pois.

O sossego das rotinas honestas é uma bênção. A rotina do homem íntegro o assenta e enraíza na existência, criando o constante equilíbrio psíquico necessário ao surgimento da “consistência temporal” que garante sanidade mental e saúde espiritual. A rotina gera harmonia. A saudável repetição de “agendas diárias” (do emprego profissional aos hábitos pessoais) nos prepara para a alegria da modesta diversão nos finais de semana, para a felicidade sazonal dos acontecimentos mensais, para o extraordinário dos eventos anuais, para a raridade das grandes ocorrências da vida -- dos amores aos casamentos, dos nascimentos aos batizados.

A espinha se curva quando a alma é curvada. Um homem consciente de sua dignidade jamais se desfará em salamaleques diante de um humano indigno. Apenas os sicofantas e os bajuladores dobram os joelhos quando vêem pomposamente passar um canalha que o protocolo do Mundo pôs numa posição elevada. O pobre e sábio Mardoqueu sempre será superior ao rico e néscio Hamã.

A sensibilidade nem sempre é doce, silenciosa e meiga. As mulheres verdadeira e integralmente sensíveis que conheci (e conheço) são, às vezes, grosseiramente inquietas. Há nelas imprevistas reações externas reverberando causas internas extremamente previsíveis. Por exemplo, quando não encontram o seu “bom homem bom”, desesperam-se completamente e vão cair nos braços vis do primeiro Don Juan botequeiro que lhes promete casa, comida e roupa lavada. Sensibilidade não correspondida produz cópias mundanas das aspirações celestes que a nutrem. Não raro, a fome de amor verdadeiro conduz à mais torpe luxúria. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 20 de agosto de 2014)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

La tromba al finale

Oh Luz, que das estrelas consomes o finito brilho,
Subirá à meia-noite o fulgor do teu sol derradeiro? 
Vespertina canção já foram os anjos entoar.
Do querubim os lábios já se pregam ao clarim.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dúvida patológica

Dúvida patológica

Para tudo o quê no homem move o espírito há um limite bem definido, uma barreira de segurança, uma fronteira que demarca a divisa entre a planície segura e o perigoso abismo, entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre o sólido racional e o etéreo fantasioso. No plano da inteligência é assim. Existem limites: alguns mais rigidamente “preto no branco” (rapidamente discerníveis, portanto) e outros transitando pelos muitos cinzas do dégradé existencial (logo, nebulosamente penumbrosos). Lidando-se com a busca da Verdade, temos de um lado a certeza e do outro a dúvida. A primeira, afirma; a segunda, inquire.

A certeza não se conjuga necessariamente à Verdade, já que não passa de uma convicção emocional, de uma sensação mais ou menos sincera de segurança intelectual que estaciona a alma humana numa posição de conforto mental. Como sentimento subjetivo que é, naturalmente a certeza pode advir de uma situação de erro e, então, estar a serviço da causa da Mentira. Aliás, quantas certezas não estão fundamentadas no mais alucinado delírio, no mais irracional fanatismo e até mesmo na mais tenebrosa anti-humanidade?

A dúvida, por sua vez, é saudavelmente útil na medida em que criva a Realidade, servindo, desde que em consonância com a razão, como sistemático depurador de qualquer afirmação. A dúvida é o intelecto pedindo provas da natureza das coisas, é a mente exigindo “Licht, mehr licht!” [Luz, mais luz!], é o homem dignificando o seu especial bipedismo. Quando frutuosa nas suas indagações, a dúvida leva à Verdade e, então, a enraíza no intelecto através da certeza, sedimentando-a em equilíbrio psicológico e harmonia cerebral.

Acontece, porém, que certa exacerbação dos limites funcionais da dúvida enquanto instrumento intelectual produziu, com o advento do Iluminismo, aquilo que se tem chamado de Racionalismo -- que é, criteriosamente, a perversão da Razão tornada sistema filosófico. Eis então o Cartesianismo, que inaugurou a era do otimismo cientificista. Posteriormente, irmanada ao Ceticismo, a dúvida racionalista tornou-se auto-gestionária, permanente e descrente de si mesma, em suma, indirimível. A incerteza contínua (sempre relativista), bem expressa pelo “Quid est veritas?” de Pôncio Pilatos, tornou-se sinônimo de honestidade intelectual. O perpétuo duvidar sepultou o Eureka. A inquirição missionária apostatou: não mais acredita na Verdade. Certezas, portanto, poucos as têm.  

Basta freqüentar as aulas de Filosofia de qualquer universidade mais ou menos citadina para se constatar a loucura sistêmica causada pelo apaixonado apego à dúvida. O homem já não acredita no que vê: o evidente tornou-se surreal e o real não passa de um arremedo de interações bioquímicas entre as sinapses. A dúvida hodierna é uma dúvida patológica, uma dúvida que cauterizou o espírito humano. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 12 de agosto de 2014)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Compreende?

A João Cabral de Mello Neto

"Compreende?" 
Era a sua vírgula oratória,
sua retilínea e lírica retórica, 
a síntese da fina arquitetura:
a pedra talhada da poesia. 

Era a pontuação demarcatória,

o fim-e-o-começo da narração,
era do ser a motora canção,
era a libertadora compreensão. 
"Compreende?" 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Notas pertinentes

Notas pertinentes

Um coral de ateus interpretando com apuro e primor a “Paixão segundo São Mateus” de Bach é tremendamente inferior -- em termos espirituais -- a qualquer avozinha analfabeta (aquelas piedosas, com seus coques evangélicos e rosários católicos) cantarolando, à pia da cozinha, qualquer musiquinha ouvida no radinho a pilha.

Poucas coisas são tão musicalmente belas, harmônicas e espiritualmente elevadas quanto o alegre “tá-tá-tá-tá-tá” de um bebê. Mozart, apesar de toda a sua potente genialidade, seria incapaz de compor coisa semelhante. A música das partituras é cópia maquinal da música que naturalmente pulsa com a vida: o oco martelar sobre a madeira é o som mais próximo que podemos obter ao tentar imitar a natural “melodia infantil”.

Uma mulher com o rosto limpo das pesadas cosméticas é a mais feminina das mulheres, é a mais bela das mulheres: e o é por revelar “A Mulher” numa mulher. Sem as brutas pinceladas dos apetrechos de maquiagem, nada ela traz consigo senão a nudez da alma. E quando chora, a lágrima corre e escorre livre dos borrões, como quando primeiro desceu sobre o rosto de Eva.

O sorriso dos velhinhos aposentados -- aqueles acomodados em meio às praças das igrejas-matriz -- quando ganham no jogo de xadrez, é comparável à fisionomia de Napoleão ao cabo da Batalha de Austerlitz e à expressão de Michelangelo diante da Pietà terminada. A chama do triunfo relampejando nos olhos do vitorioso é a mesma em todos os homens.

Ler um livro querendo que ele não tenha fim é almejar a Eternidade. Todo o enredo que prende o homem ao seu destino, seja ele fictício ou plenamente existencial, não passa de sede da imortalidade. Quem lê calculando a virada das páginas na tentativa de prorrogar o desfecho do romance, irmana-se ao crente que aguarda na morte eminente a vida que não tem fim.

A maioria dos ditos “intelectuais” não é profunda. São apenas rasos melancólicos. Nem todo membro chatamente taciturno da intelligentzia tupiniquim é intelectualmente complexo. No Brasil, uma xícara de café, uma barba por fazer, um óculos desalinhado e um livro à mão fazem de qualquer idiota neurastênico um Sócrates redivivo. O filósofo cristão, na contramão do cético melancolismo pagão, deve ser um apóstolo da felicidade.

Uma pétala seca modestamente aconchegada entre páginas esquecidas vale por mil arranjos artificiais. O artificial quase sempre é uma imitação nascida da indolência, da vagabundice da barbárie que é o Superficial querendo triunfar sobre a civilização do Real. O artificial é o artifício do medíocre. Panicats não são damas. Copos e talheres de polipropeno não são porcelana, prata e cristal. Playbacks em igrejas neo-pentecostais e lâmpadas vela-chama em santuários católicos não são, respectivamente, música sacra e litúrgicas velas de parafina.


Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 6 de agosto de 2014)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Recado ao sofredor

"Queres ser feliz? Aprende primeiro a sofrer." 
(Ivan Turgenev)

Engole o teu choro.
E as lágrimas que a terra marcaram, 
desmancha com o pé os úmidos regos.
Queima teu lenço branco. Compra um negro.
O luto mitiga sorrindo. Ri e gargalha ainda. 
A vida é o sentido da tua existência. 
Ide, vai: rompe a fronteira da tua dor. 
O teu choro engole. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O São Domingos


À Joana Todico Uemura

Era todo um ribeirão caudaloso;
hoje é um solitário fio espremido
entre as encostas de um choroso
pedaço de solo pelo mato velado.

Era o banho da braçada infantil
que ia nas claras águas se esfriar
enquanto o irmão, um velho tio,
alguém ia nele o almoço ganhar.

Era um quieto dilúvio controlado
que quando resolvia o Nilo imitar
só conseguia deixar o pé molhado
e alguma casa branquinha sujar.

Pindorama é uma dádiva do São Domingos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A política dos caricatos

A política dos caricatos

A caricatura é o grotesco ressaltado predominando cômica e rigidamente sobre as demais características -- físicas ou personalitárias -- de um indivíduo. Pessoas caricaturais podem ser excelentes atuando nos niveladores palcos do stand-up e ainda melhores no “desempenho” de algumas das aristocráticas Sete Artes. Se boas, dão excelentes amigos: muito emotivos, muito sinceros, muito humildes, muito autênticos. Se más, porém, dão para tiranizar tudo e todos; alçados à política, são ainda piores: são danosamente demolidores.

Qualquer organização liderada por pessoas caricatas está fadada à autodestruição. Estados controlados por esta cepa, naturalmente bufônica e histriônica (aliás, sempre há algo de kitsch nesta gente), logo sucumbem diante dos perigosos laivos de loucura (geralmente mesclados com espasmos de alguma genialidade patológica) que dão rumo aos respectivos governos. Temos aí, para prová-lo, a Alemanha nazista de Hitler, Goebbels e Göring, a Itália fascista de Mussolini, a Líbia islâmico-marxista de Gaddafi e a mezzo-napoleônica República Centro-Africana de Bokassa.

Se numa nação o destino do povo submetido à sandice do líder caricato é muitas vezes a mais sanguinária tirania, nos estados, províncias e cidades -- suas menores células administrativas -- o fim é outro. Trata-se dum fim menos doloroso fisicamente, é claro, mas não menos problemático espiritual, cultural, social e economicamente. Fazendo do aparelho governamental (seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário) uma sucursal das suas volições mais primitivas, o político caricato inaugura o reinado da idiotia sistêmica. Basta observar as hordas de discípulos de Odorico Paraguaçu viralmente espalhadas pelas pequenas cidades do interior do Brasil Profundo...

Aliás, quantas Câmaras Municipais não têm presidentes idênticos na ação e na verve aos mais circenses fascistas que já pisaram a terra? Quantas leis não são aprovadas e aplicadas sob a sombra darth-vaderiana dos toghe nere do Direito Alternativo? Não faltam exemplos de loucos marchadores prontos a assumirem não apenas o controle total dos nossos municípios, mas até mesmo a regência cósmica de todo o Universo, do qual eles seriam os destruidores buracos-negros. A loucura megalômana é uma sina quase que indissociável do caráter daqueles que, dados aos importantes negócios da polis, parecem terem saído de algum dos álbuns de Belmonte.

Bons políticos caricatos, bons Policarpos Quaresmas, enfim, são tão raros quanto a famigerada Pedra Filosofal. Os bons orgulhosamente descendem do valoroso Dom Quixote, os maus devem a existência ao feiticeiro Frestão.  Idealismo luta contra Pragmatismo, Yves Hublet peleja contra José Dirceu...

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 23 de julho de 2014)