quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ladainha da minha humildade

Em memória do cardeal Merry del Val, o humilde.

Eu sou vão.
Vão como uma fresta no teto
que deixa escapar a fina luz de dentro
para a tenebrosa noite sem luar do lado de fora.
Aparece como fagulha,
mas [por isso] não clarifica nem o mundo
d’alguma formiga nas imediações.
Eu sou vão.
Vão, sem vaidades.
Vão como a palavra de giz borrada
com turva água salobra pelas duras mãos da analfabeta
faxineira do colégio no final do expediente.
Eu sou vão.
Vão como o sujo mármore nunca esculpido
e indigno até de ser para os banheiros públicos
uma pia com missão higienizadora.
Eu não sou nada. Nem vão eu sou.
Mas, sou. Eu sou um vão.
Um intervalo entre a farta mesa com pão
e o térreo chão pleno de migalhas,
aquele momento de falsa calmaria
entre o raio fraco e o trovão das óperas de Verdi,
a justa medida do vácuo
não tão nulo das embalagens
que pouco duram nas prateleiras dos empórios.
A vida nos embala.
Por isso, vão-se todos e eu fico sendo vão.
No nada, há sempre lugar para o parto do pensamento,
que é vão. 

Nenhum comentário: