quarta-feira, 12 de março de 2014

Inversão

"E me deram mal pelo bem, e ódio pelo meu amor."
(Salmo 109:5)
 
Deixai o oceano ir lá desaguar na miúda fonte,
deixai o grão menor da planície peitar o monte,
deixai os gigantes cerrarem dos anões as pernas,
deixai os loucos ministrarem lógica nas tavernas. 

É dia, é noite, é penumbroso meio dia corroendo
a luz, as trevas, o acinzentado clarão das razões
diplomadas não com aquelas góticas impressões
em pergaminho; eis com Comic Sans escrevendo

as cacográficas impressoras o ignorável destino
do nacional futuro, a inumana letra a humilhar
a tão tíbia mão do formando, prestes a ruminar
o papel que já lhe assegurará o emprego cretino.

Deixai o mudo dar a Caruso aulas de fino canto,
deixai o riso do homem honesto tornar-se pranto,
deixai a águia despenada cobrir-se de suína lama,
deixai o bem imolado até que se diga: o mal ama.

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