quarta-feira, 30 de abril de 2014

Pó limpo e barro sujo

Pó limpo e barro sujo

O mundo só é (ou poderá ser) asséptico na cabeça de ateus panfletários e de fanáticos religiosos. Para o homem verdadeiramente sincero, a Terra é um conspurcado campo de batalha: É a tensão física de Nárnia e a pretensão metafísica da Terra Média. No aqui-e-agora não há leite e mel manando em Jerusalém, nos Campos Elísios, em Pasárgada, em Camelot, em Asgard ou em Avalon. A existência é dura e, como disse o Cristo, o “reino não é deste mundo.” Este mundo é a república do Maligno e a vida “é luta renhida”, como poetou Gonçalves Dias em sua “Canção do Tamoio.”

Em suma, a sanguinolenta terra sob nossos pés não é um laboratório de definíveis empirismos definitivos e muito menos um santuário de sanitarismo. Por aqui, a coisa será (até que algum querubim toque aquela trombeta...) sempre mesclada de cinza, sempre suja e lavável: “Preto” e “branco” puros e indissociáveis na/da ação humana, em tons absoluta e unicamente maniqueístas, só existem nas almas deformadas dos neo-iluministas cientificistas e dos xiitas de todas as crenças. A Verdade e o Bem são puros e incomunicáveis à Mentira e ao Mal, mas seus agentes humanos não. Estamos plantados, na fundamental hierarquia dos seres e coisas visíveis e invisíveis, entre os demônios e os anjos.

Se despertado à vida para além do biológico tripé existencial do “comer-defecar-e-dormir”, todo homem padecerá, necessariamente, de dolorosas pelejas intestinas, de profundas e muitas vezes dilacerantes dúvidas morais que, alçando-lhe depois ao pleno conhecimento do Sentido da Vida (logo, imediatamente exigindo-lhe postura acional condizente com a Verdade conhecida), o colocarão na condição de ser dividido desde o âmago, de indivíduo habilitado a bradar seus mistérios pessoais, em prolongado desabafo, valendo-se das inspiradas palavras de São Paulo, o Apóstolo dos Gentios: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.” (Romanos 7:19)

Por isso, toda utopia e ideologia terrena que se propor a ser a última e definitiva panacéia redentora para o caos humano fatalmente malogrará. Não há perfeição gerada por/entre imperfeitos. Há uma natureza humana estanque e ontologicamente inamovível que, se desdenhada e deixada de lado, transforma em inferno toda tentativa de se criar um idílico paraíso nos domínios dos filhos de Adão -- nós, nós mesmos. “Chassez le naturel, il revient au galop!”, pontificou Destouches. Imperativo dizer, então, que o “bom selvagem” de Rousseau não passa de um malicioso hipócrita proto-politicamente correto, um antepassado direto do super-homem nietzschiano e de todos os “Homens Novos” do Imanente (“ismos” da Esquerda e da Direita, das filosofias e loucuras que vão de Nimrod a Sartre) que tenazmente se opõem ao “Novo Homem” do Transcendente -- o evangélico homem “nascido de novo” que tanto espantou o erudito Nicodemos.

Diz a Escritura que o ser humano (daí, humus) foi criado à partir do pó limpo da terra. Entretanto, pelo ancestral pecado originado no Éden e pelo pecado diariamente originado no “Eu” de cada um de nós, este pó (nossa constituição carnal) tornou-se fétida lama, barro sujo cuja única salvação é passar pelas hábeis mãos de um oleiro que -- Ele próprio! -- escolheu moldar um mundo regido pelo livre-arbítrio de sua mais curiosa, enigmática e recalcitrante criatura, um mundo cuja limpeza definitiva se operará de acordo com a revelação dada a um certo João exilado em Patmos...

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 30 de abril de 2014)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Os servos, nossos senhores

Os servos, nossos senhores

Dia destes, à hora do almoço, paciente e deleitosamente eu ouvia o puritano esbravejar do meu velho avô materno: “Os ineptos nos governam!”, dizia o ancião alagoano detentor de brios patrióticos comparáveis apenas aos de Policarpo Quaresma. E ele estava certo. Ele está certo.

Há muito que faz água a canoa sem remo da moderna Democracia Eleitoral -- que alguns poderiam corretamente chamar de “Tirania do Voto”, sistema no qual a maioria decide, por meio da pressão dos números (a clássica e maligna opressão da quantidade), se é oportuno ou não desdenhar da Verdade e de todo o rol de antigas virtudes que a praticidade ideológica dos comedores de pão e dos espectadores de circo exige aniquilar ante a eminência de enfrentar a existência com enxada e consciência próprias. Em suma, a urna eletrônica é o sarcófago da Nação. E não é à toa que o cidadão honesto apenas consegue se sentir algo ateu quando alguém, tola e imprudentemente, solta ao ar e ao mundo aquela aberração moral que é o ditado “Vox populi, vox Dei.”

Voltemos à questão inicial. Se colocarmos os olhos naqueles que ocupam os primeiros lugares dos Três Poderes desta republiqueta lulo-bolivariana e em todo o aparato que dá sustentação ao leviatã estatal, haveremos de correr o risco de dar justa vazão à nossa indignação com palavras menos medidas e elegantes que as do meu fidalgal avô... Os adjetivos adequados à generalidade da atual classe política -- e aos sequazes sanguessugas que engraxam com a própria língua as botinas dos novos coronéis tupiniquins -- costumam fazer corar as avozinhas.

Não se trata apenas e tão somente do inequívoco despreparo técnico e administrativo da politicaiada-e-burocracia-anexa; antes, de um nível moral e ético que faria corar de pudica vergonha as mais depravadas putas da bíblica Babilônia. Deixando de lado a latrina brasiliense e as lamacentas pocilgas estaduais, prestemos atenção às instituições “públicas” que mais de perto nos cercam. Percebam a grosseria, a vulgaridade e a incivilidade que campeiam livres, leves e soltas nos paços e câmaras municipais. Notem o regurgitar do esgoto partidário que inunda as autarquias com corrupção, desvios e superfaturamentos e as tribunas com verborrágico linguajar indigno das tabernas de Chaucer -- easy-come, easy-go!

Salvo honrosas exceções (e eu conheço meia dúzia delas, nada além de meia dúzia), é o mais vil material humano que ocupa as púrpuras cadeiras almofadadas e as largas mesas de madeira-de-lei dos departamentos, secretarias, divisões e diretorias dos municípios deste Brasil nada guaranil. Sujeitos com históricos processuais incrivelmente extensos, com sérias condenações pretéritas e presentes e com “cicatrizes” maiores que as do gangster Al Capone dirigem o destino dos vivos e futuros mortos da grande Pindorama nacional. A escória social das nossas cidades é eleita, nomeada, condecorada, titulada, indicada e, paradoxalmente, passa a ser tratada de Excelência quando é ordinária e de Nobre sendo vilã.

“Que faremos?”, perguntam os honestos que não se dobraram ao Baal moderno. Respondo: fujam para os montes ou lutem. O que resta ao sujeito que guarda intactas a dignidade, o respeito e a honra que o berço familiar e o batismo cristão concedem é a luta. Luta destemida. Luta que, não poucas vezes, compete ao valoroso exército de um homem só -- o indivíduo consciente contra a turba alienada. O alvo é a canalhada. O dardo é a verdade proclamada com rigoroso destemor. Doa a quem doer, lute.

Tudo isso (já terminando estas minhas linhas semanais) me traz à memória, oportunamente, três versículos da sábia lavra de Salomão, o rei-filósofo que pisoteou Maquiavel antes mesmo de Roma ser qualquer coisa digna de nota: Há outro mal que vi debaixo do sol, um erro cometido pelos que governam: Tolos são postos em cargos elevados, enquanto ricos ocupam cargos inferiores. Tenho visto servos andando a cavalo, e príncipes andando a pé, como servos.” (Eclesiastes 10:5-7). Fica explicado o título deste artigo. 

                                                                                                                               Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 23 de abril de 2014)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Oculus mundi

As esquinas se negam a endireitar os homens.
Elas se curvam apenas aos sinuosos, aos tortos.
Elas cambaleiam com o passo do ébrio perene.
Então, sou um homem das praças, das ágoras,
Das retas avenidas e dos retilíneos caminhos
Que apenas se dobram quando imperceptíveis.
A Eternidade não permite lupas, microscópios,
Técnicas que destronam a pura rigidez do olhar.
Aonde estão os cantos dos círculos, oh pontos?
As quinas do mundo estão ocultas no desenho,
Porque o grão da fina areia também é rocha.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Fertilidade

Na areia do deserto enterrada,
No rio profundo mergulhada:
Não será fecunda tua raiz.

Fita no chão o rabisco, o país.
Mira com coragem a alvorada,
Faz do tempo frutuosa jornada.

Levanta a voz. Silencia a vida
Dos cambaleantes, dos ébrios
Da racional taça partida.

Ouve como se regam os brios,
Adota a nutridora medida:
Gotejará oceanos tua vida.

sábado, 5 de abril de 2014

O Credo do Reacionário

Por Erik von Kuehnelt-Leddihn

I


Eu não hesito em anunciar que sou um reacionário. Eu tomo com um profundo orgulho, na verdade. Não vejo mais razão em olhar para a frente, para um futuro desconhecido, ao invés de olhar para trás nostalgicamente para valores conhecidos e comprovados.

O termo "reacionário", na forma em que uso, não representa um conjunto de ideias definitivos e imutáveis. Representa uma atitude de espírito. Como um reacionário, eu me ressinto em opor o espírito e as tendências da época em que sou obrigado a viver e buscar restaurar o espírito que teve a sua melhor personificação em períodos já passados.

As circunstâncias em que o termo "reacionário" é aplicado como um epíteto para fascistas e outras marcas do homem moderno - as quais um verdadeiro reacionário tem apenas desprezo -  não é minha culpa.

Como um reacionário honesto, eu naturalmente rejeito o Nazismo, Comunismo, Fascismo e todas as ideologias relacionadas que são, de fato, um reductio ad absurdum da chamada democracia e do “povo no poder”. Eu rejeito os pressupostos absurdos do governo da maioria, do parlamento hocus-pocus, o falso liberalismo materialista da Escola de Manchester e o falso conservadorismo dos grandes banqueiros e industrialistas. Eu abomino o centralismo e a uniformidade da vida em rebanho, o espírito estúpido racista, o capitalismo privado, bem como o capitalismo de estado (socialismo) que contribuíram para a ruína gradual da nossa civilização nos últimos dois séculos. O verdadeiro reacionário desses dias é um rebelde contra os pressupostos prevalecentes e um "radical" que vai até as raízes.

Pessoalmente, sou um reacionário da fé Cristã Tradicional, com uma perspectiva liberal e com propensões agrárias. Onde tantos ao redor adoram o "novo", eu respeito as formas e as instituições que têm crescido organicamente por um longo período de tempo. Os períodos que precederam as duas grandes tempestades - a Idade Média e a Renascença, terminadas pela Reforma e no século XVIII, terminada pela Revolução Francesa – essas são ricas em formas e ideias de importância duradouras.  A universalidade de Nicolas de Cues ou de um Alberto Magno, a glória da Catedral de Chartes e o barroco tardio da Áustria, figuras inspiradoras como a Maria Teresa, Pascal, George Washington ou Leibnitz fascinam-me mais do que os três "homens comuns" do nosso tempo - Mussolini, Stalin e Hitler ou o esplendor democrático de uma loja de departamentos ou o vazio espiritual dos comícios comunistas e fascistas magnetizados por uma multidão em êxtase.

A nota introdutória a este declínio da civilização foi escrita por Martin Luther, que cultuava a nação, exaltava o estado e vociferava contra os Judeus; pelo bárbaro real do trono Inglês que suplantou o espírito católico do seu país com um provincianismo paralisante; pelo primeiro  "moderno" - o de Genebra, que negou a base de toda a liberdade filosófica, livre arbítrio - e o outro de Genebra que pregava o retorno à selva na forma de um barbarismo idílico.  Estes quatro cavaleiros - Lutero, Henrique VIII, Calvino e Rousseau - eram apenas os arautos das coisas mais fatídicas que estavam por vir. O desastre final foi, na Revolução Francesa, diante do eterno dilema de escolher entre liberdade e igualdade, decidiu-se pela igualdade. A guilhotina e os magistrados de Estrasburgo que acreditavam que a torre da catedral deveria ser demolida porque essa estava acima do nível igualitário de todas as outras casas, são símbolos do modernismo e do "progresso" perverso.

As massas, formando maiorias organizadas e abraçando ideias idênticas e odiando uniformemente todos aqueles que ousam ser diferentes, são o produto atual dessas várias revoltas.   Padre ou judeu, aristocrata ou mendigo, gênio ou imbecil, o não conformista-político e explorador da filosofia - todos eles estão na listas dos proibidos. O rebanho manda hoje em quase todos os lugares, com diversos meios e sob os mais diversos rótulos. É a essa tirania que eu me oponho.

II

Como um reacionário, acredito em liberdade, mas não igualdade. A única igualdade posso aceitar é a igualdade espiritual de dois bebês recém-nascidos, independentemente da cor, credo ou raça de seus pais. Não aceito nem o igualitarismo degradante dos "democratas", nem as divisões artificiais do racistas, nem as distinções de classe dos comunistas e esnobes.

Seres humanos são únicos. Eles devem ter a oportunidade de desenvolver suas personalidades -- e isso significa responsabilidade, sofrimento, solidão. Não somente gosto do princípio da monarquia como também gosto de todas as pessoas que são coroadas. E há todos os tipos de coroas, a mais nobre delas, composta por espinhos. O Homem Moderno -- este animal dócil, "cooperativo" e urbanizado -- não é preferência de um reacionário.

Eu acredito na família, na hierarquia natural dentro da família e no abismo natural entre os sexos. Eu amo os velhos cheios de dignidade e pais orgulhosos, mas também adoro crianças corajosas e justas. Em uma hierarquia o membro mais inferior é funcionalmente tão importante quanto o mais elevado. E o abismo entre os homens e as mulheres me parece uma coisa boa também. Não há triunfo na construção de uma ponte sobre uma mera poça.

Eu gosto de pessoas com propriedades. Não estou nada entusiasmado com um colega desenraizado em um apartamento, com um número social como sua principal distinção. Eu detesto o capitalismo que concentra a propriedade na mão de poucos, não menos do que o socialismo que quer transferi-lo para o grande ninguém, uma hidra com um milhão de cabeças e sem alma: Sociedade. Gosto de pessoas com sua própria morada, com seus próprios campos, com seus próprios pontos de vista levando-os a ações independentes. Eu tenho medo da massa: os 51 por cento que votaram em Hitler e Hugenberg; a multidão em frenesi que apoiou o Terror Francês; os 55 por cento dos brancos dos Estados do Sul que mantiveram 45 por cento dos negros "em seu lugar" com uma ajuda de torchas e cordas.

Eu temo todas as massas que consistem de homens com medo de serem únicos, de serem pessoas; se importando mais com a segurança do que a liberdade, temendo seus vizinhos ou a "comunidade" mais do que Deus e suas consciências. Essas são pessoas que não exigem somente a igualdade, mas também identidade. Eles suspeitam de qualquer um que se atreve a ser diferente. Eles preferem apenas os "ordinary, decent chaps" ingleses, "regular  guys" americanos ou "rechte Kerle" no padrão alemão. O homem moderno parece ter apenas um desejo: ver tudo moldado na sua própria imagem; ele detesta personalidade e tenta se assimilar. O que ele não consegue assimilar, ele extirpa. Toda a nossa época é marcada por um vasto sistema de nivelamento e agências que compõem as escolas, anúncios, quartéis, bens, jornais, livros e ideias produzidos em massa. O lado sombrio dese processo pode ser visto no ostracismo social praticado contra as minorias nas democracias pseudo-liberais; nos matadouros humanos e campos de concentração das nações totalitárias superdemocráticas; nos fluxos intermináveis de refugiados vagando sem rumo em todo o mundo.

Liberdade, afinal, é um ideal aristocrático. Em Washington, na frente da Casa Branca, na Jackson Square, há um simbolo maravilhoso: o monumento ao igualitarismo americano cercado por estátuas dos quatro nobres europeus que vieram para a América lutar pela liberdade e não pela identidade - o nobre Russo - Kosciuszko, Barão yon Steuben, o Conde de Rochambeau e o Marquês de Lafayette. O Barão de Kalb é comemorado em outros lugares e ao Conde Pulaski foi dado o nome a uma rodovia em Nova Jersey e uma estatua em Savannah. Pulaski foi o único general morto no Grande Levante Whigs Americano. Nós , reacionários (quer saibamos ou não) somos todos Whigs. Nossa tradição, em países de lingua inglesa, repousa sobre a Carta Magna, que só os ignorantes chamará de "democrática".

Eu não tenho afinidade pelo "liberalismo" do século XIX, com seu materialismo grosseiro e a crença pagã na "sobrevivência do mais apto", ou seja, do mais  inescrupuloso. Nas condições europeias, sou naturalmente monarquista,  porque a monarquia é, basicamente, supra-racial e supra-nacional. As instituições livres sobrevivem melhor não somente nas monarquias do Noroeste da Europa, mas também na área etnicamente mista da Europa Central e Oriental. Um europeu deve preferir monarcas de origem estrangeira com esposa estrangeira, mãe e filhos estrangeiros do que um "líder" político pertencente apaixonadamente a uma nacionalidade, classe ou partido específico.

Eu me sinto mais livre como um homem que não faz parte da escolha de ninguém do que se fosse alguém nomeado pela maioria, seguindo cegamente as emoções superaquecidas. Voltaire teve mais chances de influenciar os tribunais de Paris, Putsdam e São Petersburgo do que um Dawson, Sorokin, Ferrero ou um Bernanos tiveram para influenciar as massas "democraticas". Os monarcas europeus intelectualmente e moralmente igualaram-se com seus imitadores republicanos. Os Bourbons certamente são comparáveis com os politicos das três Republicas Francesas. Os Fuhers da era totalitária podem ter sido muitas vezes mais "brilhante" e bem sucedidos pois eram menos escrupulosos. Apoiado por plebiscitos cuidadosamente encenados, eles se sentiram justificados em tolerar matanças que nenhum Bourbon, Habsburg ou Hohenzollern teriam arriscado. Platão nos disse, há mais de dois mil anos atrás, que a democracia se degenera inevitavelmente em ditaduras e de-Toccqueville re-enfatizou isso em 1835.  A maioria dos idiotas, de ambos os lados do Atlântico, continuaram a confundir democracia com liberalismo, dois elementos que podem, ou não, coexistir. Uma "proibição" apoiada por 51 por cento do eleitorado pode ser muito democrático, mas é dificilmente liberal.

III

O que nós reacionários queremos, é liberdade e a diversidade. Nós acreditamos que existe uma força peculiar na diversidade. St. Estevão, Rei da Hungria, disse a seu filho: "Um reino de apenas uma linguagem e um costume, é tolo e frágil". Isso é contrário a crença supersticiosa demo-totalitária de nossa época da uniformidade. Os fascistas italianos que destruíram todas as instituições culturais de não-italianas. Os Tecnocratas progressistas clamavam que, uma vez que essa guerra chegasse à América, iriam confiscar toda a impressa de língua estrangeira.

Como um reacionário, gosto de patriotas; que ficam entusiasmados com a sua pátria, sua terra natal; e não gosto de nacionalistas, que ficam excitados com sua língua e seu sangue. O reacionário defende a ideia de solo e liberdade, ele luta contra o complexo de sangue e igualdade.


Como um reacionário, eu possuo opiniões definitivas como também opiniões provisórias. "Nas coisas necessárias, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade" é um bom programa reacionário. Se eu considerar algo ser a Verdade, eu desconsidero toda opinião que contrária.  Mas discordo com alguns eclesiásticos medievais ou com os conservadores de visão curta, que acreditavam que o erro pode ser combatido pela força. Qualquer erradicação meticulosa de erro por meios artificiais (sempre dirigida contra pessoas e não contra a idéia em si) acaba fazendo a Verdade ser intragável, obsoleta e desinteressante. Como reacionário, respeito qualquer pessoa que, com coragem e sinceridade, mantém visões errôneas, embora seguindo sua consciência. Eu tenho infinitamente mais respeito a um anarquista fanático catalão, ou por um Judeu Ortodoxo, ou por um Calvinista linha dura do que a um humanitário pseudo-liberal com uma veneração secreta a um estado onipotente. Um verdadeiro reacionário é um homem de fé absoluta e generosidade absoluta. Ele concilia dogma e liberdade.

Como um reacionário, gostaria de ver materializado neste país, mais ideias anti-democráticas dos Pais Fundadores. De fato, poucos escritores europeus escreveram mais fortemente contra ao demos do que Madison, Hamilton, Marshall, John Adams ou mesmo Jefferson que esteve do lado da aristocracia do mérito, não pela regras da massa. No entanto, o centralismo de Hamilton é basicamente esquerdista. Nem aqui nem na Europa isso deve prevalecer. O que precisamos de ambos os lados do Atlântico é mais uma atitude pessoal. Colossialismo e coletivismo são o inimigo. O agricultor de Hindelang, por exemplo, deve antes de tudo, ter orgulho de ser o chefe de uma família, dono de uma fazenda e depois, de ser um morador de Hindelang. Após um reflexão mais aprofundada, ele deve encontrar orgulho em ser um dos camponeses do Vale do Allgau e também por ser Bávaro. Seu Germanismo deveria ser uma unidade mística no próprio horizonte de seus pensamentos. Mas a tendência moderna é a de estabelecer uma hierarquia inversa de lealdades. A ênfase nazista em noventa milhões de alemães, a ênfase Soviética sobre "as massas", a identificação pelo "maior" com o "melhor, nos mostra a degradação expressa na adoração da quantidade, o nosso desprezo pela pessoa, todo o nosso desespero moderno pela singularidade humana.

Eu defendo que o Estado, as empresas e as fábricas, são os grandes donos de escravos de nossos tempos. "Fulano" trabalha como o seu antepassado espiritual, o servo medieval, um dia e meio por semana para o seu senhorio. De quatro cheques semanais, ele entrega pelo menos um para a empresa que aluga o seu habitat. Se não fazê-lo, resultará em desapropriação, uma ameaça desconhecida para o servo feudal do século XIII. Na fábrica, ele trabalha, diferentemente de um membro da guilda, para investidores desconhecidos, bem como para líderes sindicais corruptos, se não, como na URSS, para uma combinação leviatã de Estado e Sociedade. Os trabalhadores devem possuir as ferramentas de produção; não existe nenhuma razão terrena para que eles não devam possuir fábricas, em um sentido literal ou ser titulares de todas as ações comercializadas. Uma usina pode ser uma comunidade viva não menos do que uma oficina medieval.

Eu gosto das pessoas que são "atrasadas", como os tiroleses, os alpinistas suíços  os escoceses, os moradores de Navarra, os bascos, os sombrios camponeses dos Bálcãs  os curdos. Eles escaparam de um mal menor da servidão na Idade Média e do grande mal da urbanização dos tempos modernos. Eles são bastante reacionários, conservadores e amam a liberdade. Eles podem dar ao luxo de serem conservadores porque sua cultura está fora de sintonia com os tempos modernos; o que eles possuem, vale a pena preservar. O conservador urbano, por outro lado, não é senão um "progressista" inibido.

Eu acredito no homem de excelência, no homem do dever; contra o Homem-Comum cuja a única força está nos números, cuja a manifestação política é a submissão à "convicções" pré-fabricadas ou a "líderes" que, diferentemente dos "governantes", não diferem das massas, mas personificam todas as suas piores características.

Hoje, um grupo de genuínos reacionários carregam o peso da luta contra o super-progressismo na sua forma totalitária. Eles sabem que a democracia, como força, não pode lidar com os totalitários; formas embrionárias não podem ter sucesso contra manifestações mais maduras. Platão, de Tocqueville, Donoso Cortes, Burckhardt sabiam disso. A democracia progressista como um pseudo-liberalismo nada mais é que um Girondino, um precursor do Terror.


Entre este punhado estão Winston Churchill e o Conde Galen, Conde Preysing e yon Faulhaber, Niemoller e Georges Bermanos, Giraud e d'Ormesson, Conde Teleki, Calvo Sotelo, Schuschnigg e Edgar Jung. Nenhum deles fez compromisso com a perversidade quer dos Girondinos ou com o Terror em suas formas modernas; vivos ou mortos, eles não iram ceder. Eles não acreditaram necessariamente em um Passado Glorioso em oposição a um Admirável Mundo Novo, mas eles viram as calamidades do presente, crescendo dos erros do passado, nas catástrofes do futuro.   Eles estão isolados pela suspeita que os rodeia. Eles são considerados desmancha-prazeres por não entrar na apologia universal do Progresso. Eles se tornaram inflexíveis e apaixonados. Eles vão levar suas bandeiras até a morte, e suas bandeiras são muito antigas, vaidosas e ilustres.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Silêncio é Civilização

Silêncio é Civilização

O turbilhão diário com suas infernais buzinas e sirenes no trânsito, a cacofonia chamada vergonhosamente de Música e disseminada desde supermercados a elevadores, os performáticos comerciais na televisão e no Youtube, os almoços nos restaurantes com “pagode ambiente”, os histéricos cultos forrozeiros e as anticatólicas missas com danças e palmas que fazem da irreverência virtude e da reverência “reacionarismo tradicionalista” [pastores e padres que se derem ao trabalho de lerem o capítulo 19 do livro de I Reis, perceberão que Deus não estava nos “efeitos especiais” com furacão, terremoto e fogo, mas na voz “mansa e delicada”], as repartições públicas à hora do burocrático cafezinho pós-carimbo, enfim, este “mundão véio sem portera”, como diria o caipira. Por todos os lados e em todos os lugares, o chão que abriga o Ocidente está pleno de barulho. Nossos sentidos são excitados a todo instante e, como resultado, o frenesi, esbaldando-se em adrenalina, acabou se assentando como “estado natural” de ação e consciência no dia-a-dia da imensa maioria das pessoas. Em suma, “tá todo mundo louco”, mas sem o alegrinho “oba!”.

O efeito de tudo isso na psiquê humana beira à patologia. À medida que fervilha o externo do Mundo sobre os sentidos e emoções, o interno espiritual do indivíduo se atrofia, seca e resseca. Não é à toa que as gentes andam infantilizadas, débeis e transtornadas diante de qualquer acontecimento que as faça pensar. Afinal de contas, o pandemônio do “lado de fora” é uma fuga abafadora das questões do “lado de dentro” -- tão complexo e difícil, mas tão humano...

A associação entre o medo de si e da vida e a diversão eufórica que as luzes e sons da Sociedade do Espetáculo promovem para a existência, transtornaram a alma humana a ponto de torná-la um reativo motor de instintos -- completa e integralmente animalesco. Em outras palavras, a ação procedida da imediata reação sobrepujou a razão e, consequentemente, de certa forma, anulou o livre-arbítrio. Tudo se faz pela vontade e suas pulsões; nada pela consciência e seus discernimentos éticos e morais. Ecce homo mendax ludens!

Justamente por isso, o silêncio só é possível quando a razão imanta o impulsivo biológico e o calibra para que se exista intelectualmente, ou seja, quando o homem chega ao conhecimento de si mesmo, que é, aliás, o princípio da Maiêutica Socrática e, em boa medida, o medrado caminho para aquilo que o Cristianismo providencialmente chama de Metanóia (mudança de pensamento). Fruto da paz, o silêncio põe em movimento a mente e o “coração racional” do homem. O externo é serenado enquanto o interno é revolvido e resolvido. O homem, então, torna-se profundo e feliz e não teme, como diria Pascal, estar a sós consigo mesmo num quarto.

É o “silêncio corporal”, aliás, o principal meio de distinção da Música Clássica (erudita) da Música Comum (algo popular). A primeira infunde quietude corpórea enquanto ativa o espírito humano; a segunda, “mexe e remexe o esqueleto” e põe em sono o intelecto. Alguém seria capaz de sapatear ouvindo Beethoven, Mozart e Bach? Quem dançaria, no “ritmo do bonde”, ao som da Sinfonia nº 2 de Mahler? Fica evidente, portanto, que o silêncio molda não apenas a ausência de sons, mas a sua frequência espiritual. Em tempo, fica a pertinente questão: Quem nunca ouviu alguém dizendo que sente sono diante de qualquer composição clássica? O sono da alma está ligado ao ápice das atividades físico-sensoriais do Imanente. A paciência do corpo liberto do “auê” mundano, por sua vez, prende-se ao vértice do diálogo do âmago do indivíduo com o Transcendente.

Para encerrar esta oportuna divagação, já que o espaço e o tempo não me permitem maiores e melhores explanações, devo lhes dizer o seguinte: Sosseguem! A generalidade das depressões, crises existenciais, neuroses e arrivismos que assolam a pessoa pós-moderna tem o Barulho como uma das suas principais causas. O Barulho que gera o afastamento de Deus e o apego à matéria, o Barulho que fomenta o desamor à Verdade e a paixão pelas facilidades do aqui-e-agora, o Barulho e os seus movimentos anárquicos nas Sete Artes e nas Sete Virtudes. Calem-se. Fechem a boca. Desliguem os aparelhos de televisão e façam do domingo o “Dia do Senhor” e não o “Domingão do Faustão” (que vomita como o diabo, parafraseando Goethe). Desliguem o rádio que toca sertanejos sem viola e um funk que odeia James Brown. Derribem os altares da cacofonia e, então, os caminhos se aplainarão e o Mundo, fechando a “portera”, voltará ao caminho da Civilização, deixando para atrás a brutalidade da caverna.

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 2 de abril de 2014)