quarta-feira, 23 de abril de 2014

Os servos, nossos senhores

Os servos, nossos senhores

Dia destes, à hora do almoço, paciente e deleitosamente eu ouvia o puritano esbravejar do meu velho avô materno: “Os ineptos nos governam!”, dizia o ancião alagoano detentor de brios patrióticos comparáveis apenas aos de Policarpo Quaresma. E ele estava certo. Ele está certo.

Há muito que faz água a canoa sem remo da moderna Democracia Eleitoral -- que alguns poderiam corretamente chamar de “Tirania do Voto”, sistema no qual a maioria decide, por meio da pressão dos números (a clássica e maligna opressão da quantidade), se é oportuno ou não desdenhar da Verdade e de todo o rol de antigas virtudes que a praticidade ideológica dos comedores de pão e dos espectadores de circo exige aniquilar ante a eminência de enfrentar a existência com enxada e consciência próprias. Em suma, a urna eletrônica é o sarcófago da Nação. E não é à toa que o cidadão honesto apenas consegue se sentir algo ateu quando alguém, tola e imprudentemente, solta ao ar e ao mundo aquela aberração moral que é o ditado “Vox populi, vox Dei.”

Voltemos à questão inicial. Se colocarmos os olhos naqueles que ocupam os primeiros lugares dos Três Poderes desta republiqueta lulo-bolivariana e em todo o aparato que dá sustentação ao leviatã estatal, haveremos de correr o risco de dar justa vazão à nossa indignação com palavras menos medidas e elegantes que as do meu fidalgal avô... Os adjetivos adequados à generalidade da atual classe política -- e aos sequazes sanguessugas que engraxam com a própria língua as botinas dos novos coronéis tupiniquins -- costumam fazer corar as avozinhas.

Não se trata apenas e tão somente do inequívoco despreparo técnico e administrativo da politicaiada-e-burocracia-anexa; antes, de um nível moral e ético que faria corar de pudica vergonha as mais depravadas putas da bíblica Babilônia. Deixando de lado a latrina brasiliense e as lamacentas pocilgas estaduais, prestemos atenção às instituições “públicas” que mais de perto nos cercam. Percebam a grosseria, a vulgaridade e a incivilidade que campeiam livres, leves e soltas nos paços e câmaras municipais. Notem o regurgitar do esgoto partidário que inunda as autarquias com corrupção, desvios e superfaturamentos e as tribunas com verborrágico linguajar indigno das tabernas de Chaucer -- easy-come, easy-go!

Salvo honrosas exceções (e eu conheço meia dúzia delas, nada além de meia dúzia), é o mais vil material humano que ocupa as púrpuras cadeiras almofadadas e as largas mesas de madeira-de-lei dos departamentos, secretarias, divisões e diretorias dos municípios deste Brasil nada guaranil. Sujeitos com históricos processuais incrivelmente extensos, com sérias condenações pretéritas e presentes e com “cicatrizes” maiores que as do gangster Al Capone dirigem o destino dos vivos e futuros mortos da grande Pindorama nacional. A escória social das nossas cidades é eleita, nomeada, condecorada, titulada, indicada e, paradoxalmente, passa a ser tratada de Excelência quando é ordinária e de Nobre sendo vilã.

“Que faremos?”, perguntam os honestos que não se dobraram ao Baal moderno. Respondo: fujam para os montes ou lutem. O que resta ao sujeito que guarda intactas a dignidade, o respeito e a honra que o berço familiar e o batismo cristão concedem é a luta. Luta destemida. Luta que, não poucas vezes, compete ao valoroso exército de um homem só -- o indivíduo consciente contra a turba alienada. O alvo é a canalhada. O dardo é a verdade proclamada com rigoroso destemor. Doa a quem doer, lute.

Tudo isso (já terminando estas minhas linhas semanais) me traz à memória, oportunamente, três versículos da sábia lavra de Salomão, o rei-filósofo que pisoteou Maquiavel antes mesmo de Roma ser qualquer coisa digna de nota: Há outro mal que vi debaixo do sol, um erro cometido pelos que governam: Tolos são postos em cargos elevados, enquanto ricos ocupam cargos inferiores. Tenho visto servos andando a cavalo, e príncipes andando a pé, como servos.” (Eclesiastes 10:5-7). Fica explicado o título deste artigo. 

                                                                                                                               Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 23 de abril de 2014)

Nenhum comentário: