quarta-feira, 30 de abril de 2014

Pó limpo e barro sujo

Pó limpo e barro sujo

O mundo só é (ou poderá ser) asséptico na cabeça de ateus panfletários e de fanáticos religiosos. Para o homem verdadeiramente sincero, a Terra é um conspurcado campo de batalha: É a tensão física de Nárnia e a pretensão metafísica da Terra Média. No aqui-e-agora não há leite e mel manando em Jerusalém, nos Campos Elísios, em Pasárgada, em Camelot, em Asgard ou em Avalon. A existência é dura e, como disse o Cristo, o “reino não é deste mundo.” Este mundo é a república do Maligno e a vida “é luta renhida”, como poetou Gonçalves Dias em sua “Canção do Tamoio.”

Em suma, a sanguinolenta terra sob nossos pés não é um laboratório de definíveis empirismos definitivos e muito menos um santuário de sanitarismo. Por aqui, a coisa será (até que algum querubim toque aquela trombeta...) sempre mesclada de cinza, sempre suja e lavável: “Preto” e “branco” puros e indissociáveis na/da ação humana, em tons absoluta e unicamente maniqueístas, só existem nas almas deformadas dos neo-iluministas cientificistas e dos xiitas de todas as crenças. A Verdade e o Bem são puros e incomunicáveis à Mentira e ao Mal, mas seus agentes humanos não. Estamos plantados, na fundamental hierarquia dos seres e coisas visíveis e invisíveis, entre os demônios e os anjos.

Se despertado à vida para além do biológico tripé existencial do “comer-defecar-e-dormir”, todo homem padecerá, necessariamente, de dolorosas pelejas intestinas, de profundas e muitas vezes dilacerantes dúvidas morais que, alçando-lhe depois ao pleno conhecimento do Sentido da Vida (logo, imediatamente exigindo-lhe postura acional condizente com a Verdade conhecida), o colocarão na condição de ser dividido desde o âmago, de indivíduo habilitado a bradar seus mistérios pessoais, em prolongado desabafo, valendo-se das inspiradas palavras de São Paulo, o Apóstolo dos Gentios: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.” (Romanos 7:19)

Por isso, toda utopia e ideologia terrena que se propor a ser a última e definitiva panacéia redentora para o caos humano fatalmente malogrará. Não há perfeição gerada por/entre imperfeitos. Há uma natureza humana estanque e ontologicamente inamovível que, se desdenhada e deixada de lado, transforma em inferno toda tentativa de se criar um idílico paraíso nos domínios dos filhos de Adão -- nós, nós mesmos. “Chassez le naturel, il revient au galop!”, pontificou Destouches. Imperativo dizer, então, que o “bom selvagem” de Rousseau não passa de um malicioso hipócrita proto-politicamente correto, um antepassado direto do super-homem nietzschiano e de todos os “Homens Novos” do Imanente (“ismos” da Esquerda e da Direita, das filosofias e loucuras que vão de Nimrod a Sartre) que tenazmente se opõem ao “Novo Homem” do Transcendente -- o evangélico homem “nascido de novo” que tanto espantou o erudito Nicodemos.

Diz a Escritura que o ser humano (daí, humus) foi criado à partir do pó limpo da terra. Entretanto, pelo ancestral pecado originado no Éden e pelo pecado diariamente originado no “Eu” de cada um de nós, este pó (nossa constituição carnal) tornou-se fétida lama, barro sujo cuja única salvação é passar pelas hábeis mãos de um oleiro que -- Ele próprio! -- escolheu moldar um mundo regido pelo livre-arbítrio de sua mais curiosa, enigmática e recalcitrante criatura, um mundo cuja limpeza definitiva se operará de acordo com a revelação dada a um certo João exilado em Patmos...

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 30 de abril de 2014)

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