quarta-feira, 2 de abril de 2014

Silêncio é Civilização

Silêncio é Civilização

O turbilhão diário com suas infernais buzinas e sirenes no trânsito, a cacofonia chamada vergonhosamente de Música e disseminada desde supermercados a elevadores, os performáticos comerciais na televisão e no Youtube, os almoços nos restaurantes com “pagode ambiente”, os histéricos cultos forrozeiros e as anticatólicas missas com danças e palmas que fazem da irreverência virtude e da reverência “reacionarismo tradicionalista” [pastores e padres que se derem ao trabalho de lerem o capítulo 19 do livro de I Reis, perceberão que Deus não estava nos “efeitos especiais” com furacão, terremoto e fogo, mas na voz “mansa e delicada”], as repartições públicas à hora do burocrático cafezinho pós-carimbo, enfim, este “mundão véio sem portera”, como diria o caipira. Por todos os lados e em todos os lugares, o chão que abriga o Ocidente está pleno de barulho. Nossos sentidos são excitados a todo instante e, como resultado, o frenesi, esbaldando-se em adrenalina, acabou se assentando como “estado natural” de ação e consciência no dia-a-dia da imensa maioria das pessoas. Em suma, “tá todo mundo louco”, mas sem o alegrinho “oba!”.

O efeito de tudo isso na psiquê humana beira à patologia. À medida que fervilha o externo do Mundo sobre os sentidos e emoções, o interno espiritual do indivíduo se atrofia, seca e resseca. Não é à toa que as gentes andam infantilizadas, débeis e transtornadas diante de qualquer acontecimento que as faça pensar. Afinal de contas, o pandemônio do “lado de fora” é uma fuga abafadora das questões do “lado de dentro” -- tão complexo e difícil, mas tão humano...

A associação entre o medo de si e da vida e a diversão eufórica que as luzes e sons da Sociedade do Espetáculo promovem para a existência, transtornaram a alma humana a ponto de torná-la um reativo motor de instintos -- completa e integralmente animalesco. Em outras palavras, a ação procedida da imediata reação sobrepujou a razão e, consequentemente, de certa forma, anulou o livre-arbítrio. Tudo se faz pela vontade e suas pulsões; nada pela consciência e seus discernimentos éticos e morais. Ecce homo mendax ludens!

Justamente por isso, o silêncio só é possível quando a razão imanta o impulsivo biológico e o calibra para que se exista intelectualmente, ou seja, quando o homem chega ao conhecimento de si mesmo, que é, aliás, o princípio da Maiêutica Socrática e, em boa medida, o medrado caminho para aquilo que o Cristianismo providencialmente chama de Metanóia (mudança de pensamento). Fruto da paz, o silêncio põe em movimento a mente e o “coração racional” do homem. O externo é serenado enquanto o interno é revolvido e resolvido. O homem, então, torna-se profundo e feliz e não teme, como diria Pascal, estar a sós consigo mesmo num quarto.

É o “silêncio corporal”, aliás, o principal meio de distinção da Música Clássica (erudita) da Música Comum (algo popular). A primeira infunde quietude corpórea enquanto ativa o espírito humano; a segunda, “mexe e remexe o esqueleto” e põe em sono o intelecto. Alguém seria capaz de sapatear ouvindo Beethoven, Mozart e Bach? Quem dançaria, no “ritmo do bonde”, ao som da Sinfonia nº 2 de Mahler? Fica evidente, portanto, que o silêncio molda não apenas a ausência de sons, mas a sua frequência espiritual. Em tempo, fica a pertinente questão: Quem nunca ouviu alguém dizendo que sente sono diante de qualquer composição clássica? O sono da alma está ligado ao ápice das atividades físico-sensoriais do Imanente. A paciência do corpo liberto do “auê” mundano, por sua vez, prende-se ao vértice do diálogo do âmago do indivíduo com o Transcendente.

Para encerrar esta oportuna divagação, já que o espaço e o tempo não me permitem maiores e melhores explanações, devo lhes dizer o seguinte: Sosseguem! A generalidade das depressões, crises existenciais, neuroses e arrivismos que assolam a pessoa pós-moderna tem o Barulho como uma das suas principais causas. O Barulho que gera o afastamento de Deus e o apego à matéria, o Barulho que fomenta o desamor à Verdade e a paixão pelas facilidades do aqui-e-agora, o Barulho e os seus movimentos anárquicos nas Sete Artes e nas Sete Virtudes. Calem-se. Fechem a boca. Desliguem os aparelhos de televisão e façam do domingo o “Dia do Senhor” e não o “Domingão do Faustão” (que vomita como o diabo, parafraseando Goethe). Desliguem o rádio que toca sertanejos sem viola e um funk que odeia James Brown. Derribem os altares da cacofonia e, então, os caminhos se aplainarão e o Mundo, fechando a “portera”, voltará ao caminho da Civilização, deixando para atrás a brutalidade da caverna.

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 2 de abril de 2014)


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