quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dinastias republicanas

Dinastias republicanas

Da tenebrosa Coréia do Norte sob o clã Kim à devastada Cuba dos irmãos Castro, é impossível não perceber que, entre povos incultos e pouco civilizados, o poder do sangue e do sobrenome constitui-se em passaporte para a perpetuação no poder (o kratos estatal). José Sarney, o vil sir sarnento do Maranhão e da ABL, é para os brasileiros o arquétipo pronto e acabado do que seja um “dinasta republicano” -- um Adão imorrível, patriarca exclusivo de Cains palanqueiros.

Salvo nas constitucionais e parlamentaristas monarquias ocidentais -- onde os soberanos, cristãos, bela e naturalmente reinam mas não governam --, poder hereditário, sobretudo entre políticos profissionais, não passa de espoliação geracional. Vai o pai, fica o filho. Fica o filho, vai o pai. Chega o neto (que é filho e será pai e avô) e o ciclo de concepções e eleições persiste indefinidamente. E esta equação genealógica se repete até que morra de anemia e inanição a grande vaca leiteira dos governos, cujas tetas andam produzindo fartamente o mais doce “leite-condensado”.

Contudo, esta “linha sucessória” não se restringe ao poder Executivo. O carreirismo político ungido pelo DNA se alastra pelo Legislativo dos parlamentos e parlapatões e chega, feito raiz de hera sepulcral, às moralmente puídas togas do Judiciário -- uma grei de meritíssimos lavadores de mãos (Mateus 27:24) com medo patológico de crucifixo. Prefeitos, deputados, juízes, senadores, governadores, ministros do STF, vereadores, presidentes: Há um Almanaque de Gotha, de inumeráveis tomos, dando conta destas indecentes ascendências e delinqüentes descendências. O nepotismo sempre vem acompanhado de um falso ar nobiliárquico; falso até a medula, já que entre estes novos barões semi-feudais “noblesse non oblige”.

Convém notar, por outro lado, que não se trata daquelas antigas famílias políticas que se envolviam (pretérito, pretérito mesmo...) na causa do Bem Comum por verdadeira e autêntica vocação, por conta de um chamado dir-se-ia atávico, e que nada acumulavam em seus cofres do suor do trabalhador; famílias que não tinham suas árvores genealógicas pregadas nas placas, ruas, prédios e monumentos públicos sem deter no espírito a virtude, na alma o mérito e no corpo as marcas do altruísmo -- de precoces calvície e cabelos brancos conquistados nas tribunas às honrosas rugas e mutilações obtidas nos tempos de guerra. Famílias que dispensavam toda forma de “assessoria”: Comunicação resumia-se a heróicos discursos oferecendo nada além de “blood, toil, tears and sweat”, a olhos sinceros diretamente mirando outros olhos sinceros, a igualitário e fraternal apertar de mãos entre homens diferentes e desiguais.

Não é à toda que, nestes nossos dias, até as comoções dos mandatários e dos parentais mandatários são milimetricamente planejadas para causar determinados efeitos emocionais nas massas eleitoras. Das quermesses igrejeiras às inaugurações de lombadas nas periferias, toda “boa ação”, inclusive a mais-ou-menos sincera, acaba sendo instrumentalizada pelo marqueteirismo de outdoor do neo-coronelato. A publicidade impera. Impera e engana. Assim, não é nada fácil abandonar nosso imediato e precavido ceticismo diante do embargado e muitas vezes histérico choro presidencial, estadual e municipal. Afinal, até o crocodilo tem a sua “furtiva lagrima” e se há alguma coisa que o estudo da História nos ensina é justamente desconfiar de políticos que fazem da máquina pública uma arena de maquinação privada do gênero “tutto in famiglia.”

Por isso, na próxima vez em que alguém lhe indagar acerca de um -- apenas um -- dos muitos porquês de as coisas não irem bem na sua cidade, bastará calmamente dizer, cum grano salis: Tal pai, tal filho; tal irmão, tal irmã; tal sangue, tal chouriço... A república dos “poderosos chefões” não passa de ré pública!

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 28 de maio de 2014)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cafetões da fé

Cafetões da fé

Religião se discute. Mais, ainda: Cristianismo se discute. Discute-se providencialmente quando ele está sendo vagarosa e progressivamente minado justamente por aqueles que deveriam sustentá-lo por meio da verdadeira e original pregação das “Boas Novas” -- conforme quis Aquele que, num acinzentado dia de dor, caminhou para o Gólgota. E Cristianismo se discute, sobretudo, quando o Senhor é brutalmente arrancado de seu áureo e sanguinolento altar cruciforme e substituído pelo falso brilho de um Mamon entronizado entre dourados cifrões de sangue.

Nos cambaleantes inícios da década de 90, surgiu no Brasil, recém-desembarcada dos EUA na maleta pastoral d’algum discípulo de Judas -- “Porque era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava.” (João 12:6) --, a famigerada “Teologia da Prosperidade”. Para além de constituir-se numa versão antípoda daquela velhacaria (a marxistóide Teologia da Libertação) de frades teologicamente promíscuos, a nova doutrina tinha como missão extrair de Cristo as mesmíssimas coisas que Satanás quisera extrair de Jesus quando do episódio da tentação no deserto: próspera fartura (“manda que estas pedras se tornem pães”), saúde imunizada (“lança-te de aqui abaixo”) e poder político-social (“mostrou-lhe todos os reinos do mundo”).

Imediatamente abraçada pela generalidade eclesiástica do Neo-Pentecostalismo tupiniquim (completamente diverso do Pentecostalismo Clássico, note-se), a Teologia da Prosperidade foi malignamente de encontro às sôfregas massas que, sempre débeis..., prontamente aderiram às falsas panacéias triunfalistas de um “evangelho” que deu as costas à Cruz, permutando a riscada “cédula que era contra nós” (Colossenses 2:14) pelo feio e amassado papel moeda dos jubilosamente reinstalados vendilhões. O templo, casa de oração, voltou a ser covil de ladrões.

Pregando riqueza em níveis que praticamente envergonhariam o próprio Midas (o marketing é a alma no negócio, certo?), os “cafetões da fé” ocuparam redes de tv com sua despudorada adoração às “trinta moedas” -- símbolo-mor da traição por dinheiro. Se dantes todo cristão sincero e verdadeiro era, em potência, um Estêvão apedrejado e um João Batista decapitado, à partir de então a condição de discípulo do Ressuscitado passou a ser, em ato, a de um Bill Gates herodiano. Afinal de contas, o “Jesus” neo-pentecostal é um pajé macunaímico. É um milagreiro xamanístico sempre pronto a negar o sofrimento e a dor enquanto apanágios da Vera Fides [Verdadeira Fé], sempre disposto a amaldiçoar o martírio físico e espiritual enquanto sinal de contradição da esperança no Reino que, definitivamente, “não é deste mundo.” (João 18:36)

Sabem de uma coisa? Sozinho, o filme “Marcelino Pão e Vinho” -- amenizador espiritual da Espanha franquista -- faz/fez muito mais pela Cristandade do que todas as “igrejas” internacionais, mundiais e universais deste Brasil semi-desguaranizado. Amalgamada ao “jeitinho brasileiro”, qualquer falsa teologia, por mais notoriamente demoníaca que seja, torna-se ainda mais corrupta e corruptora. Parafraseando Vaz de Caminha, nesta terra em se pervertendo tudo dá. E o resultado disso tudo? Eis um povo fraco, escravizado, submisso não apenas ao leviatã estatal, mas também à serpente dos falsos ídolos. A Santa Ceia foi substituída pelo pão churrasqueiro dos pseudos apóstolos apóstatas. A Liturgia, reverente e silenciosa, foi trocada pelo circo dos ultra-exorcismos e roletas las-veguianas das catedrais de néon. Em suma, resta o milenar alerta profético: Saí do meio deles, ó povo meu! (Jeremias 51:45) 

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 21 de maio de 2014)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Reflexão: de legado, vida, alienação e tempo

Reflexão: de legado, vida, alienação e tempo

Todos haveremos de morrer. Todos ao pó volveremos. Caiado ou não, há um sepulcro preparado para receber os restos mortais do homem. Nem todo filho de Adão conquistará sobre o solo campal dos cemitérios uma marmórea lápide bem talhada, mas, diante da Eternidade, todo homem terá minuciosamente escrito o seu pessoal necrológio quando a suprema hora do derradeiro suspiro chegar. Portanto, o legado individual (impresso na terra) constitui-se em epitáfio permanente no “pós-tempo.”

Entretanto, a esmagadora maioria dos indivíduos artificialmente vive como se a morte não existisse e existe como se a vida não tivesse um fim natural. O indivíduo moderno tem a alma malemolente; uma alma que se deixa escravizar por uma alienadora rotina dotada das automáticas repetições de um vazio malignamente adornado com entretenimento, uma alma que faz dos sete dias do calendário uma incessante sucessão de mediocridades indignas da “Imagem e Semelhança de Deus”. Oportuno dizer que o indivíduo moderno é tão indivíduo quanto uma das centenas de serpentes enxertadas no crânio da Medusa. Trata-se do conhecido “homem-massa”, tão bem conceitualizado por Ortega y Gasset.

A decorrente realidade não poderia ser outra: O ser humano contemporâneo tem ocupado seu tempo com toda sorte de insipiências que o “Príncipe deste mundo” (João 12:31) viralmente espalha sobre a face da Terra com o intuito de afastar o homem de sua superior vocação. A existência usufruída pelas últimas três gerações não passa de uma caricatura “springfieldiana” da ainda mais mísera Disneylândia: Homer Simpson [ri tu!] é o arquétipo universal deste novo e já dominante paradigma anti-civilizacional que almeja a anulação da realidade sensível por meio da “diversão permanente.” Eis então, por aí, um sujeitinho orgulhoso da própria grosseria, um beberrão que se ufana da embriaguez, um pateta indolente que faz do seu tempo um parque de diversões dedicado à orgiástica emulação dos mais baixos sentidos do homo sapiens.

E este pandemônio constitui-se numa das principais causas da falta de “sentido na vida” das gentes. Pandemônio que, com suas idas materialistas e vindas humanistas, retira da pessoa a plena consciência da realidade, impedindo-a de, a cada pisada na Terra, mirar o Céu que a acompanha. Daí, nada mais natural que a vida do sujeito se restrinja às atividades biológicas mais rasteiras e à “cultura fecal” dela derivada: Do completo uso rotineiro do banheiro aos extremos carnais dos bailes funk, não é difícil perceber que o Regime Mundano está hoje organizado para produzir anarquia. Após 1789, com seus desvairados berros requisitando “Liberté, Egalité, Fraternité”, a desordem produzida no interior do indivíduo expandiu-se para além do sujeito e gerou uma sistêmica desordem coletiva a tal ponto irrefreável que, hoje, pode-se dizer que a nossa terráquea esfera armilar não passa de um feroz ouroboros canibal. Resulta que o “homem médio” (a célula primordial da massa dominante) não quer nada com nada.

Resta, é claro, um pugilo de sinceros sonhadores e retos idealistas. Mas... dia após dia extingue-se a valorosa grei dos homens verdadeiros. Pertencemos à uma geração que não erigirá estátuas, que não produzirá sequer meia dúzia de poemas e canções épicas e cuja máxima glória e aspiração resume-se em “ganhar a vida” (perdendo-a) sendo um songamonga BBB, um atorzinho profundamente desconhecedor de Stanislavski ou um traficante milionário amante da política partidária, enfim, sendo qualquer porcaria que envolva a suja mídia das Caras & Bundas -- dos favelados “morros da ostentação” à pornográfica Hollywood. Ser nulo é o caminho para a fama meteórica e etereamente passageira; a fama semanal que instantaneamente abate o astro na velocidade e inversa proporção em que dantes o elevara aos píncaros.

Poucos querem fazer da existência uma vida que valha a pena e que acrescente algo -- por mais ínfimo que seja! -- ao arcabouço civilizacional. Poucos querem dotar o mundo de outras Sete Maravilhas. Poucos querem evangelizar bárbaras tribos africanas, descobrir a desejada cura para o câncer, construir impérios de duradoura paz, ganhar o prêmio Nobel e desenterrar a mítica Atlântida. Poucos querem ser o Shakespeare, o Dante, o Cervantes e o Camões do século XXI. Poucos querem derrubar Golias, libertar treze colônias e esculpir uma nova Pietà. Poucos querem ser humanos, enfim.

Habitamos cidades inundadas com multidões que não passam de gente cujo nome não será lembrado para além dos próprios filhos e netos, e cuja memória cessará com a atestada morte corporal. O homem é pó, mas não foi feito para ser pó inominado. Não foi feito para figurar apenas em niveladores documentos civis, com seus inumanos registros numéricos. Não se trata, evidentemente, daquela bem conhecida busca pagã por fama e notoriedade (lembrai-vos de Aquiles!). Absolutamente. Trata-se de, em vergada humildade, projetar a forte luz da divindade sobre o fraco lampejo de razão que nos pode, constantemente, eivar o espírito.

Em suma, resta a visceral questão: Depois de partirmos, o quê há de sobrar de nós?

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 14 de maio de 2014)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Vida de cão

Vida de cão

Há quem diga que os cães vêem coisas que não vemos; justamente aquelas coisas de ordem metafísica que se prestam a justificar o fato arrebatador de que "There are more things in heaven and earth [...] than are dreamt of in your philosophy." Certo está que das paisagens o colorido eles não podem discernir tanto quanto nós. Afinal, nos olhos eles têm um par de pigmentos; e nós uma trindade completa. Nada mais coerente, já que para dominar o mundo físico, indispensável que sejam três, posto que é ele o primeiro número existente na geometria, logo, é o que dá a primeira forma à matéria.

Contudo, para além do aspecto meramente biológico, é certo que eles têm uma espécie de "anima” indissociável ao corpo, enquanto nós somos tricotômicos e separáveis, com partes divisíveis pela espada de dois gumes do Logos. Ou seja, nós temos um espírito ironicamente obcecado com aquele “Espírito que enche a solidão", como escreveu Quental; o que equivale a dizer que os cães não perdem sono com o trabalho de cogitar a existência e que tratados de Filosofia e partituras de Bach para eles não passam de embrulho para bacalhau mal-salgado. Enquanto os cães preguiçosamente se coçam estendidos ao sol nos dias de inverno, vestidos de moletom nós suamos para poder comprar a carne da qual lhes advêm aqueles imensos ossos recheados de tutano; e suamos para entender o porquê de também "tirarmos água" das sinapses.

Não conhecem os cães o que seja pecado. Não atribuem valor e moralidade aos seus instintos e sentidos. Porém, nós não apenas o conhecemos. Nós praticamos o pecado e o compartilhamos diariamente, pondo em conflito carne e espírito. Daí, raramente enxergamos o "sobrenatural" em sua esplendida e integral nudez. Sobrenatural que, não paradoxalmente, é naturalíssimo, uma vez que se constitui em realidade tão presente quanto o rugir do imposto de renda em abril. As coisas visíveis e invisíveis são uma única realidade, mas para Günther, o morto pastor alemão de minha falecida bisavó, o santo arcanjo Miguel pelejando contra o próprio Satanás nos céus valeria tanto quanto sua matinal mijada no poste. Brutal indiferença! Para ele, o mais próximo do que seja o transcendental talvez fosse a leitoa à pururuca em cima da larga mesa da fazenda. Sobrepujar essa distância era seu particular nirvana; devorar a tenra carne, seu bodhi. Porém, teria que se conformar, à imagem da metáfora proposta pela mulher cananéia nos Evangelhos, com as "migalhas que caem da mesa dos seus senhores." (Mateus 15:27)

O certo é que eles se deparam com coisas inefáveis sem entendê-las. O céu e a terra passam e os nossos "melhores amigos" não cessam de babar. Por outro lado, se não nos damos conta do invisível em suas andanças, tal deve-se por dois motivos: o pecado já referido e a "comum neutralidade" que carrega todo "homem natural", sobretudo à partir da idade da razão, como uma espécie de véu dotado da capacidade de não expor o indefeso sapiens-sapiens à uma realidade que o coagiria tanto à salvação quanto à danação eterna. Apenas a santificação permitiria ao homem ver Deus pelas costas e, com isso, como diria Dante no Tratado II de seu Convívio, "Voi che 'ntendendo il terzo ciel movete." Entender e praticar a graça da lei da ascética é o colírio que nos revela o profundo e o escondido no raso e no evidente. Eis o limiar entre a cachorrinha que tenho aqui em casa e qualquer pessoa.

Há meia dúzia de milênios utilizamos a expressão "vida de cão." Antes, quando a lógica da fé racional nos regia, possuía significado eminentemente pejorativo, pois tinha-se por evidente que este animal -- nosso amigo -- se prestava à mais ordinária das existências, em tudo dependendo do homem, seu "egoísta" domesticador. Reminiscências desta acepção atualmente subsistem nos histéricos xingamentos da mulher traída que não tosqueneja em gritar "cachorro!" Entretanto, "vida de cão" é hoje sinônimo de conforto idílico, da sombra do teto da casinha almofadada e da fresca água mineral na tigela. A Modernidade, ciosa do espírito, inverteu tudo: humanizou o poodle e animalizou o homem, não mais "dono-proprietário", mas guardião e faz-tudo do distinto totó; fez do neto de Adão um raivoso hidrófobo e da neta da Laika uma depressiva blasé.

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 7 de maio de 2014)