quarta-feira, 14 de maio de 2014

Reflexão: de legado, vida, alienação e tempo

Reflexão: de legado, vida, alienação e tempo

Todos haveremos de morrer. Todos ao pó volveremos. Caiado ou não, há um sepulcro preparado para receber os restos mortais do homem. Nem todo filho de Adão conquistará sobre o solo campal dos cemitérios uma marmórea lápide bem talhada, mas, diante da Eternidade, todo homem terá minuciosamente escrito o seu pessoal necrológio quando a suprema hora do derradeiro suspiro chegar. Portanto, o legado individual (impresso na terra) constitui-se em epitáfio permanente no “pós-tempo.”

Entretanto, a esmagadora maioria dos indivíduos artificialmente vive como se a morte não existisse e existe como se a vida não tivesse um fim natural. O indivíduo moderno tem a alma malemolente; uma alma que se deixa escravizar por uma alienadora rotina dotada das automáticas repetições de um vazio malignamente adornado com entretenimento, uma alma que faz dos sete dias do calendário uma incessante sucessão de mediocridades indignas da “Imagem e Semelhança de Deus”. Oportuno dizer que o indivíduo moderno é tão indivíduo quanto uma das centenas de serpentes enxertadas no crânio da Medusa. Trata-se do conhecido “homem-massa”, tão bem conceitualizado por Ortega y Gasset.

A decorrente realidade não poderia ser outra: O ser humano contemporâneo tem ocupado seu tempo com toda sorte de insipiências que o “Príncipe deste mundo” (João 12:31) viralmente espalha sobre a face da Terra com o intuito de afastar o homem de sua superior vocação. A existência usufruída pelas últimas três gerações não passa de uma caricatura “springfieldiana” da ainda mais mísera Disneylândia: Homer Simpson [ri tu!] é o arquétipo universal deste novo e já dominante paradigma anti-civilizacional que almeja a anulação da realidade sensível por meio da “diversão permanente.” Eis então, por aí, um sujeitinho orgulhoso da própria grosseria, um beberrão que se ufana da embriaguez, um pateta indolente que faz do seu tempo um parque de diversões dedicado à orgiástica emulação dos mais baixos sentidos do homo sapiens.

E este pandemônio constitui-se numa das principais causas da falta de “sentido na vida” das gentes. Pandemônio que, com suas idas materialistas e vindas humanistas, retira da pessoa a plena consciência da realidade, impedindo-a de, a cada pisada na Terra, mirar o Céu que a acompanha. Daí, nada mais natural que a vida do sujeito se restrinja às atividades biológicas mais rasteiras e à “cultura fecal” dela derivada: Do completo uso rotineiro do banheiro aos extremos carnais dos bailes funk, não é difícil perceber que o Regime Mundano está hoje organizado para produzir anarquia. Após 1789, com seus desvairados berros requisitando “Liberté, Egalité, Fraternité”, a desordem produzida no interior do indivíduo expandiu-se para além do sujeito e gerou uma sistêmica desordem coletiva a tal ponto irrefreável que, hoje, pode-se dizer que a nossa terráquea esfera armilar não passa de um feroz ouroboros canibal. Resulta que o “homem médio” (a célula primordial da massa dominante) não quer nada com nada.

Resta, é claro, um pugilo de sinceros sonhadores e retos idealistas. Mas... dia após dia extingue-se a valorosa grei dos homens verdadeiros. Pertencemos à uma geração que não erigirá estátuas, que não produzirá sequer meia dúzia de poemas e canções épicas e cuja máxima glória e aspiração resume-se em “ganhar a vida” (perdendo-a) sendo um songamonga BBB, um atorzinho profundamente desconhecedor de Stanislavski ou um traficante milionário amante da política partidária, enfim, sendo qualquer porcaria que envolva a suja mídia das Caras & Bundas -- dos favelados “morros da ostentação” à pornográfica Hollywood. Ser nulo é o caminho para a fama meteórica e etereamente passageira; a fama semanal que instantaneamente abate o astro na velocidade e inversa proporção em que dantes o elevara aos píncaros.

Poucos querem fazer da existência uma vida que valha a pena e que acrescente algo -- por mais ínfimo que seja! -- ao arcabouço civilizacional. Poucos querem dotar o mundo de outras Sete Maravilhas. Poucos querem evangelizar bárbaras tribos africanas, descobrir a desejada cura para o câncer, construir impérios de duradoura paz, ganhar o prêmio Nobel e desenterrar a mítica Atlântida. Poucos querem ser o Shakespeare, o Dante, o Cervantes e o Camões do século XXI. Poucos querem derrubar Golias, libertar treze colônias e esculpir uma nova Pietà. Poucos querem ser humanos, enfim.

Habitamos cidades inundadas com multidões que não passam de gente cujo nome não será lembrado para além dos próprios filhos e netos, e cuja memória cessará com a atestada morte corporal. O homem é pó, mas não foi feito para ser pó inominado. Não foi feito para figurar apenas em niveladores documentos civis, com seus inumanos registros numéricos. Não se trata, evidentemente, daquela bem conhecida busca pagã por fama e notoriedade (lembrai-vos de Aquiles!). Absolutamente. Trata-se de, em vergada humildade, projetar a forte luz da divindade sobre o fraco lampejo de razão que nos pode, constantemente, eivar o espírito.

Em suma, resta a visceral questão: Depois de partirmos, o quê há de sobrar de nós?

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 14 de maio de 2014)

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