domingo, 29 de junho de 2014

Ego sum Petrus?

Deixai-me contar
que um dia
a água fez-se dura
como a pedra,

E que sobre o mar

caminhei seguro
como em sólida rocha.

Mas titubeou a alma

que erigia o meu pé.

Vacilei... e conforme

minguava a fé,
gotejava a rocha,
desintegrava o chão.

O solo era de fino papel

e se rasgou em palavras.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Ode a mulher comum

Ode a mulher comum

A ti, que geras no ventre a Humanidade e sentes no crescer da criança -- o feto feito -- o tempo que embebeu os séculos e as gerações; a ti, que dos cães e gatos te apiedas, diariamente alimentando-os à porta de tua casa, recolhendo-os nos dias de frio e dando-lhes água fresca nos dias de calor; a ti, que choras por “qualquer coisinha”, porquê “qualquer coisinha” faz demolir os fundamentos do teu sensível coração e sensibilidade é encontrar a agulha no palheiro.

A ti, que cultivas jardins em caixinhas de leite longa vida e delas arrancas o boldo para as cólicas -- fardo de Eva; a ti, que cantarolas enquanto passas roupa e tomas banho e, depois, quase silenciosamente, embalas teus filhos com as singelas cantigas que ouviste de tua mãe; a ti, que zelosamente areias as velhas panelas de alumínio da cozinha até que rivalizem com o brilho uniforme da elegante prataria rococó das famílias fidalgas.

A ti, que ainda sabes amassar e assar pão, o pão caseiro que, ainda quente, a manteiga derretida vem fazer recordar o forno de barro do sítio da velha avó; a ti, que não conheces a chacona da Partita para violino solo em Ré menor no. 2 de Bach, mas quando, de relance assistindo a TV, ouves qualquer coisa parecida com a música melancólica dos violinos, te sentes arrebatada pelas pontadas que ela produz em tu’alma; a ti, que na juventude escreveste os poemas (alguns bregas, outros bons e alguns poemas verdadeiros) que gostarias de ter recebido do homem que não é o teu marido.

A ti, que quiseste ser professora (como querem os meninos tornarem-se policiais) mas esqueceste o sonho de giz quando a água dos baldes de diarista vagarosamente o borrou; a ti, que ainda rezas o “Com Deus me deito, com Deus me levanto” antes de ir sonhar com as misturadas coisas que presenciaste durante o dia; a ti, que escreves com o dedo no embaçado espelho do banheiro sem recordar que, quando menina, escrevias na terra com os caules secos da roseira matizada.

A ti, que não nasceste para ser compreendida, mas para ser amada com aquela poderosa paixão que teve Salomão pela Sulamita, “porque o amor é forte como a morte” (Cânticos 8:6); a ti, que costuras os vestidos de linho azul dos quais falava Augusto Frederico Schmidt e que de remendos desorganizados fazes aquelas mantas que imitam caleidoscópios; a ti, que orgulhosamente afirmas ser dona-de-casa quando a atendente do Posto de Saúde do bairro pergunta a tua profissão.

A ti, que aos domingos tradicionalmente preparas o macarrão da mamma aos filhos, noras e genros, e o macarrão da nonna aos netos e bisnetos que te vêm visitar; a ti, que não lês revistas de fofoca, porquê “fofoca boa” é aquela contada à noitinha, quando as comadres põem as cadeiras na rua para falar da vida comum a todos; a ti, que sabes as datas dos casamentos, aniversários, noivados, idas ao além e das contas e prestações que mantêm de pé a casa que tu tornaste lar.

Tu és uma mulher comum.

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 25 de junho de 2014)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Ode ao homem comum

Ode ao homem comum

A ti, que és quixotesco herói dos teus filhos nas tardezinhas em que, sem as horas e suores extras, chegas mais cedo do trabalho; a ti, que dobras os joelhos calejados diante do panis angelicus sem a secura agnóstica dos teólogos de hoje-em-dia e que apenas na igreja consegues sentir-te verdadeiramente humano; a ti, que pescas lambaris no sossegado rio que corta o sítio onde viveste até o dia em que o teu pai disse “vamos embora para a cidade.”

A ti, que o almoço amornado pelo calor do meio-dia comes na velha marmita de alumínio polido, servindo-te da colher de estanho do jogo-de-cozinha de tua avó; a ti, que ouves o “Triste Berrante” de Pena Branca e Xavantinho sem desconfiar que doutos filósofos há muito pedem essa “volta à Casa” antiga e modesta do passado não tão idílico, mas tão melhor...; a ti, que hoje torces para a briosa Seleção Canarinho e não misturas futebol com circo e eleição com pão -- porquê a esperança há de vencer o PT. 

A ti, que constróis estas modernas academias de belas artes à moda Bauhaus -- cheias de elevadores -- e ainda desconheces o romano Vitrúvio; a ti, que não tens ilusão alguma e cuja maior alegria é “viver quieto, e tratar dos próprios negócios, e trabalhar com as próprias mãos” (I Tessalonicenses 4:11); a ti, que cheio de admiração olhas o céu estrelado com a mesma singeleza que uniu qualquer índio pré-colombiano a Immanuel Kant.

A ti, que casaste com a primeira ou com a segunda namorada, com aquela quieta menina sorridente que sentou ao teu lado no primeiro dia de aula no primário; a ti, que não entendes as palavras complexas dos literatos pedantes, mas compreendes a essência mais pura e simples dos poemas de Mário Quintana quando notas a efêmera eternidade das nuvens, quanto te olhas no espelho e vês o rosto do teu velho pai, quando viras a esquina da tua Rua dos Cataventos; a ti, que cobres o teu caçula com a mantinha de lã que um dia foi tua.

A ti, que dormes e acordas cedo e que tomas o mais quente dos cafés antes de ir pegar os três ônibus que te separam do fardo de Adão; a ti, que foste ao restaurante mais caro e elegante da cidade e não conseguiste ficar longe do bom arroz e do velho feijão; a ti, que chegaste até a quarta ou oitava série (porque tiveste que trabalhar!), mas candidamente corriges a confusa conta da mocinha do caixa que valsou no baile de formatura da faculdade. 

A ti, que lês o jornal para saber das coisas e destas coisas tirar qualquer proveito -- inclusive as cada vez menores cruzadinhas; a ti, que cantas o hino nacional cheio de patriótico orgulho e resignada tristeza, recordando dos austeros cultos cívicos da tua “infância querida que os anos não trazem mais!”; a ti, que passas agora os olhos nestas palavras e sentes no coração uma serena alegria por, sendo anônimo, ter sido lembrado.

Tu és um homem comum.

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 18 de junho de 2014)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A primeira-trama

A primeira-trama

É antiga a relação do povo com as mulheres que os prefeitos escolhem para as venturas e desatinos da vida a dois. Entre trancos e barrancos, inundações e inaugurações, palanques e camas, afiliações e filhos, há sempre uma mulher que o protocolo social dos municípios resolve chamar de primeira-dama. Mas... nem tudo são chás beneficentes e conselhos sazonais, afinal, existem primeiras-damas e primeiras-tramas... As primeiras desempenham suas funções cheias daquela evangélica caridade que fez do nome de dona Leonor Mendes de Barros sinônimo de filantropia; já as segundas, crendo-se eleitas por tabela, fazem dos paços municipais prolongamentos das suas tramóias e detestáveis sub-personalidades. Trataremos brevemente destas.

Senhora absoluta da penumbrosa caverna que chama de lar, a primeira-trama domina o marido e, por conseqüência, faz do prefeito gato-e-sapato, governando a cidade desde a alcova, decretando e sancionando leis enquanto descarrega suas “superiores internalidades” na privada. Caso deseje a nomeação de alguma confreira de fofocas para uma das muitas Assessorias de Assuntos Voláteis ou a danação do enxerido vice-prefeito durante todo o quadriênio, basta ameaçar Sua Excelência com alguma dieta caseira à base de ervas e tubérculos. A proibição de bacon no café da manhã, aliada à perpétua dor de cabeça à hora do coito, é capaz de provocar a demissão de todo o secretariado e até mesmo a instituição do Dia Municipal da Ira Uxória.

A situação pode ser ainda pior caso a megera indomada -- lembrai-vos de Shakespeare! -- cisme em ter seus “momentos espirituais.” Digamos que a ínclita senhora seja demasiado sensível às charlatanices de alguma macumbeira de incerto terreiro. Então, ao organograma de mandos e desmandos doméstico-coletivos somar-se-á a influência direta e controladora de uma bruxa à moda Rasputin e, do dia para noite, o frágil governo da cidade acabará regido por um sistema de ventriloquia institucional, no qual o prefeito é marionete de sua senhora e sua senhora é títere de alguma “assassina litúrgica” de galinhas pretas. A Democracia será despachada nas encruzilhadas e o destino de todo um povo -- dos velhinhos na fila do SUS às crianças semi-órfãs nas creches -- estará depositado nas mãos de uma charuteira profissional.

Trágico, não? Mas é esta a realidade nua, dura e crua de centenas e mais centenas de cidades do Caburaí ao Chuí. A Grã-Pindorama tupiniquim está entregue não apenas à audácia de labiosos prefeitos corruptos, mas também, não poucas vezes, à uma tenebrosa comunhão universal de bens com as maquiavélicas esposas deles. Oportuno citar Franz Kafka, em “O Castelo”:“-- Essa desculpa cai por terra -- disse a estalajadeira. -- O prefeito é uma pessoa sem importância. Não percebeu isso? Ele não ficaria mais um dia em seu posto se não fosse por sua esposa, que resolve tudo.” 

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 11 de junho de 2014)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Algo sobre “Imagem e Semelhança”

Algo sobre “Imagem e Semelhança”

A vida é, de certa forma, uma organização da existência. É um ordenamento dado ao caos natural -- não o natural da Natureza ontológica das “coisas visíveis e invisíveis”, mas o natural do homem que, do nada anterior a própria concepção ao tudo posterior a luz do próprio parto, encontra-se de repente perdido num Mundo perdido. Do desencontro imprevisto fazemos encontro planejado, da ida insegura criamos a vinda celebrada, dos atalhos tortuosos geramos caminhos planos. A vida dá forma e conteúdo àquilo que dantes existia, mas “era sem forma e vazio”, como enuncia o Gênesis.

Mas... por que somos assim? Por que legislamos, transformamos e organizamos? Por que somos impulsionados a fazer e a criar? Por que o senso de ordem nos move a ponto de querermos endireitar o pau que nasceu torto? Por que Michelangelo gritou “parla, parla!” ao seu Moisés, como querendo animar o frio mármore, imitando Elohim quando soprou nas narinas de Adão o fôlego de vida? Por que Sir Isaiah Berlin chegou a afirmar que, diante do Eterno, os anjos tocam a música de Bach, quando antes de sua orgulhosa elevação interior e queda pública era o querubim Lúcifer o compositor-mor e regente da orquestra celestial? Por que cargas d’água somos, no dizer de Horácio, uma “raça irritável de poetas”, irritadiços poetas ordenadores?

Nós ordenamos as pequenas coisas -- a nossa pequena existência e a pequena terra -- porque somos imagem e semelhança (Gênesis 1:26) daquele que criou, ex nihilo, “os céus e a terra [expressão aramaica equivalente ao grego “kósmos”], o mar e tudo quanto há neles” (Salmo 146:6). Javé, pelo Logos, criou o pó da terra, o barro e a argila; nós, pela razão tornada informação e idéia, criamos ânforas para o vinho de Homero, zigurates babéicos para os magos da Astronomia e bolinhas de barro seco para os estilingues da molecada do bairro. Eis, portanto, o termo: o Criador criou à partir do nada e nós criamos à partir da Criação.

Ser imagem e semelhança de Deus significa, ainda, que somos superiores a tudo aquilo que, no Universo, é composto de átomos, de carbono, de qualquer elemento que subsista dentro ou fora da tabela periódica (Mendeleiev não era profeta...), afinal, o homem foi feito “um pouco menor do que os anjos” (Hebreus 2:7), compartilhando, como reflexo, dos atributos mentais (racionalidade, sobretudo), morais (consciência e ação pessoal no bem e do mal) e sociais (relacionalidade) do Altíssimo. Atributos estes que impelem o humano a olhar para a lua e não apenas compará-la, pela poesia dos românticos e parnasianos, à prata dos pratos e ao queijo nos pratos, mas a nela assentar os pés e fincar bandeiras de conquista, como outrora os súditos dos Reis Católicos arvoravam os estandartes da Cristandade neste nosso Novo Mundo.

Continua...

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 4 de junho de 2014)