quarta-feira, 11 de junho de 2014

A primeira-trama

A primeira-trama

É antiga a relação do povo com as mulheres que os prefeitos escolhem para as venturas e desatinos da vida a dois. Entre trancos e barrancos, inundações e inaugurações, palanques e camas, afiliações e filhos, há sempre uma mulher que o protocolo social dos municípios resolve chamar de primeira-dama. Mas... nem tudo são chás beneficentes e conselhos sazonais, afinal, existem primeiras-damas e primeiras-tramas... As primeiras desempenham suas funções cheias daquela evangélica caridade que fez do nome de dona Leonor Mendes de Barros sinônimo de filantropia; já as segundas, crendo-se eleitas por tabela, fazem dos paços municipais prolongamentos das suas tramóias e detestáveis sub-personalidades. Trataremos brevemente destas.

Senhora absoluta da penumbrosa caverna que chama de lar, a primeira-trama domina o marido e, por conseqüência, faz do prefeito gato-e-sapato, governando a cidade desde a alcova, decretando e sancionando leis enquanto descarrega suas “superiores internalidades” na privada. Caso deseje a nomeação de alguma confreira de fofocas para uma das muitas Assessorias de Assuntos Voláteis ou a danação do enxerido vice-prefeito durante todo o quadriênio, basta ameaçar Sua Excelência com alguma dieta caseira à base de ervas e tubérculos. A proibição de bacon no café da manhã, aliada à perpétua dor de cabeça à hora do coito, é capaz de provocar a demissão de todo o secretariado e até mesmo a instituição do Dia Municipal da Ira Uxória.

A situação pode ser ainda pior caso a megera indomada -- lembrai-vos de Shakespeare! -- cisme em ter seus “momentos espirituais.” Digamos que a ínclita senhora seja demasiado sensível às charlatanices de alguma macumbeira de incerto terreiro. Então, ao organograma de mandos e desmandos doméstico-coletivos somar-se-á a influência direta e controladora de uma bruxa à moda Rasputin e, do dia para noite, o frágil governo da cidade acabará regido por um sistema de ventriloquia institucional, no qual o prefeito é marionete de sua senhora e sua senhora é títere de alguma “assassina litúrgica” de galinhas pretas. A Democracia será despachada nas encruzilhadas e o destino de todo um povo -- dos velhinhos na fila do SUS às crianças semi-órfãs nas creches -- estará depositado nas mãos de uma charuteira profissional.

Trágico, não? Mas é esta a realidade nua, dura e crua de centenas e mais centenas de cidades do Caburaí ao Chuí. A Grã-Pindorama tupiniquim está entregue não apenas à audácia de labiosos prefeitos corruptos, mas também, não poucas vezes, à uma tenebrosa comunhão universal de bens com as maquiavélicas esposas deles. Oportuno citar Franz Kafka, em “O Castelo”:“-- Essa desculpa cai por terra -- disse a estalajadeira. -- O prefeito é uma pessoa sem importância. Não percebeu isso? Ele não ficaria mais um dia em seu posto se não fosse por sua esposa, que resolve tudo.” 

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 11 de junho de 2014)

Nenhum comentário: