quarta-feira, 4 de junho de 2014

Algo sobre “Imagem e Semelhança”

Algo sobre “Imagem e Semelhança”

A vida é, de certa forma, uma organização da existência. É um ordenamento dado ao caos natural -- não o natural da Natureza ontológica das “coisas visíveis e invisíveis”, mas o natural do homem que, do nada anterior a própria concepção ao tudo posterior a luz do próprio parto, encontra-se de repente perdido num Mundo perdido. Do desencontro imprevisto fazemos encontro planejado, da ida insegura criamos a vinda celebrada, dos atalhos tortuosos geramos caminhos planos. A vida dá forma e conteúdo àquilo que dantes existia, mas “era sem forma e vazio”, como enuncia o Gênesis.

Mas... por que somos assim? Por que legislamos, transformamos e organizamos? Por que somos impulsionados a fazer e a criar? Por que o senso de ordem nos move a ponto de querermos endireitar o pau que nasceu torto? Por que Michelangelo gritou “parla, parla!” ao seu Moisés, como querendo animar o frio mármore, imitando Elohim quando soprou nas narinas de Adão o fôlego de vida? Por que Sir Isaiah Berlin chegou a afirmar que, diante do Eterno, os anjos tocam a música de Bach, quando antes de sua orgulhosa elevação interior e queda pública era o querubim Lúcifer o compositor-mor e regente da orquestra celestial? Por que cargas d’água somos, no dizer de Horácio, uma “raça irritável de poetas”, irritadiços poetas ordenadores?

Nós ordenamos as pequenas coisas -- a nossa pequena existência e a pequena terra -- porque somos imagem e semelhança (Gênesis 1:26) daquele que criou, ex nihilo, “os céus e a terra [expressão aramaica equivalente ao grego “kósmos”], o mar e tudo quanto há neles” (Salmo 146:6). Javé, pelo Logos, criou o pó da terra, o barro e a argila; nós, pela razão tornada informação e idéia, criamos ânforas para o vinho de Homero, zigurates babéicos para os magos da Astronomia e bolinhas de barro seco para os estilingues da molecada do bairro. Eis, portanto, o termo: o Criador criou à partir do nada e nós criamos à partir da Criação.

Ser imagem e semelhança de Deus significa, ainda, que somos superiores a tudo aquilo que, no Universo, é composto de átomos, de carbono, de qualquer elemento que subsista dentro ou fora da tabela periódica (Mendeleiev não era profeta...), afinal, o homem foi feito “um pouco menor do que os anjos” (Hebreus 2:7), compartilhando, como reflexo, dos atributos mentais (racionalidade, sobretudo), morais (consciência e ação pessoal no bem e do mal) e sociais (relacionalidade) do Altíssimo. Atributos estes que impelem o humano a olhar para a lua e não apenas compará-la, pela poesia dos românticos e parnasianos, à prata dos pratos e ao queijo nos pratos, mas a nela assentar os pés e fincar bandeiras de conquista, como outrora os súditos dos Reis Católicos arvoravam os estandartes da Cristandade neste nosso Novo Mundo.

Continua...

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 4 de junho de 2014)

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