quarta-feira, 18 de junho de 2014

Ode ao homem comum

Ode ao homem comum

A ti, que és quixotesco herói dos teus filhos nas tardezinhas em que, sem as horas e suores extras, chegas mais cedo do trabalho; a ti, que dobras os joelhos calejados diante do panis angelicus sem a secura agnóstica dos teólogos de hoje-em-dia e que apenas na igreja consegues sentir-te verdadeiramente humano; a ti, que pescas lambaris no sossegado rio que corta o sítio onde viveste até o dia em que o teu pai disse “vamos embora para a cidade.”

A ti, que o almoço amornado pelo calor do meio-dia comes na velha marmita de alumínio polido, servindo-te da colher de estanho do jogo-de-cozinha de tua avó; a ti, que ouves o “Triste Berrante” de Pena Branca e Xavantinho sem desconfiar que doutos filósofos há muito pedem essa “volta à Casa” antiga e modesta do passado não tão idílico, mas tão melhor...; a ti, que hoje torces para a briosa Seleção Canarinho e não misturas futebol com circo e eleição com pão -- porquê a esperança há de vencer o PT. 

A ti, que constróis estas modernas academias de belas artes à moda Bauhaus -- cheias de elevadores -- e ainda desconheces o romano Vitrúvio; a ti, que não tens ilusão alguma e cuja maior alegria é “viver quieto, e tratar dos próprios negócios, e trabalhar com as próprias mãos” (I Tessalonicenses 4:11); a ti, que cheio de admiração olhas o céu estrelado com a mesma singeleza que uniu qualquer índio pré-colombiano a Immanuel Kant.

A ti, que casaste com a primeira ou com a segunda namorada, com aquela quieta menina sorridente que sentou ao teu lado no primeiro dia de aula no primário; a ti, que não entendes as palavras complexas dos literatos pedantes, mas compreendes a essência mais pura e simples dos poemas de Mário Quintana quando notas a efêmera eternidade das nuvens, quanto te olhas no espelho e vês o rosto do teu velho pai, quando viras a esquina da tua Rua dos Cataventos; a ti, que cobres o teu caçula com a mantinha de lã que um dia foi tua.

A ti, que dormes e acordas cedo e que tomas o mais quente dos cafés antes de ir pegar os três ônibus que te separam do fardo de Adão; a ti, que foste ao restaurante mais caro e elegante da cidade e não conseguiste ficar longe do bom arroz e do velho feijão; a ti, que chegaste até a quarta ou oitava série (porque tiveste que trabalhar!), mas candidamente corriges a confusa conta da mocinha do caixa que valsou no baile de formatura da faculdade. 

A ti, que lês o jornal para saber das coisas e destas coisas tirar qualquer proveito -- inclusive as cada vez menores cruzadinhas; a ti, que cantas o hino nacional cheio de patriótico orgulho e resignada tristeza, recordando dos austeros cultos cívicos da tua “infância querida que os anos não trazem mais!”; a ti, que passas agora os olhos nestas palavras e sentes no coração uma serena alegria por, sendo anônimo, ter sido lembrado.

Tu és um homem comum.

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 18 de junho de 2014)

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