quarta-feira, 25 de junho de 2014

Ode a mulher comum

Ode a mulher comum

A ti, que geras no ventre a Humanidade e sentes no crescer da criança -- o feto feito -- o tempo que embebeu os séculos e as gerações; a ti, que dos cães e gatos te apiedas, diariamente alimentando-os à porta de tua casa, recolhendo-os nos dias de frio e dando-lhes água fresca nos dias de calor; a ti, que choras por “qualquer coisinha”, porquê “qualquer coisinha” faz demolir os fundamentos do teu sensível coração e sensibilidade é encontrar a agulha no palheiro.

A ti, que cultivas jardins em caixinhas de leite longa vida e delas arrancas o boldo para as cólicas -- fardo de Eva; a ti, que cantarolas enquanto passas roupa e tomas banho e, depois, quase silenciosamente, embalas teus filhos com as singelas cantigas que ouviste de tua mãe; a ti, que zelosamente areias as velhas panelas de alumínio da cozinha até que rivalizem com o brilho uniforme da elegante prataria rococó das famílias fidalgas.

A ti, que ainda sabes amassar e assar pão, o pão caseiro que, ainda quente, a manteiga derretida vem fazer recordar o forno de barro do sítio da velha avó; a ti, que não conheces a chacona da Partita para violino solo em Ré menor no. 2 de Bach, mas quando, de relance assistindo a TV, ouves qualquer coisa parecida com a música melancólica dos violinos, te sentes arrebatada pelas pontadas que ela produz em tu’alma; a ti, que na juventude escreveste os poemas (alguns bregas, outros bons e alguns poemas verdadeiros) que gostarias de ter recebido do homem que não é o teu marido.

A ti, que quiseste ser professora (como querem os meninos tornarem-se policiais) mas esqueceste o sonho de giz quando a água dos baldes de diarista vagarosamente o borrou; a ti, que ainda rezas o “Com Deus me deito, com Deus me levanto” antes de ir sonhar com as misturadas coisas que presenciaste durante o dia; a ti, que escreves com o dedo no embaçado espelho do banheiro sem recordar que, quando menina, escrevias na terra com os caules secos da roseira matizada.

A ti, que não nasceste para ser compreendida, mas para ser amada com aquela poderosa paixão que teve Salomão pela Sulamita, “porque o amor é forte como a morte” (Cânticos 8:6); a ti, que costuras os vestidos de linho azul dos quais falava Augusto Frederico Schmidt e que de remendos desorganizados fazes aquelas mantas que imitam caleidoscópios; a ti, que orgulhosamente afirmas ser dona-de-casa quando a atendente do Posto de Saúde do bairro pergunta a tua profissão.

A ti, que aos domingos tradicionalmente preparas o macarrão da mamma aos filhos, noras e genros, e o macarrão da nonna aos netos e bisnetos que te vêm visitar; a ti, que não lês revistas de fofoca, porquê “fofoca boa” é aquela contada à noitinha, quando as comadres põem as cadeiras na rua para falar da vida comum a todos; a ti, que sabes as datas dos casamentos, aniversários, noivados, idas ao além e das contas e prestações que mantêm de pé a casa que tu tornaste lar.

Tu és uma mulher comum.

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 25 de junho de 2014)

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