quinta-feira, 31 de julho de 2014

O São Domingos


À Joana Todico Uemura

Era todo um ribeirão caudaloso;
hoje é um solitário fio espremido
entre as encostas de um choroso
pedaço de solo pelo mato velado.

Era o banho da braçada infantil
que ia nas claras águas se esfriar
enquanto o irmão, um velho tio,
alguém ia nele o almoço ganhar.

Era um quieto dilúvio controlado
que quando resolvia o Nilo imitar
só conseguia deixar o pé molhado
e alguma casa branquinha sujar.

Pindorama é uma dádiva do São Domingos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A política dos caricatos

A política dos caricatos

A caricatura é o grotesco ressaltado predominando cômica e rigidamente sobre as demais características -- físicas ou personalitárias -- de um indivíduo. Pessoas caricaturais podem ser excelentes atuando nos niveladores palcos do stand-up e ainda melhores no “desempenho” de algumas das aristocráticas Sete Artes. Se boas, dão excelentes amigos: muito emotivos, muito sinceros, muito humildes, muito autênticos. Se más, porém, dão para tiranizar tudo e todos; alçados à política, são ainda piores: são danosamente demolidores.

Qualquer organização liderada por pessoas caricatas está fadada à autodestruição. Estados controlados por esta cepa, naturalmente bufônica e histriônica (aliás, sempre há algo de kitsch nesta gente), logo sucumbem diante dos perigosos laivos de loucura (geralmente mesclados com espasmos de alguma genialidade patológica) que dão rumo aos respectivos governos. Temos aí, para prová-lo, a Alemanha nazista de Hitler, Goebbels e Göring, a Itália fascista de Mussolini, a Líbia islâmico-marxista de Gaddafi e a mezzo-napoleônica República Centro-Africana de Bokassa.

Se numa nação o destino do povo submetido à sandice do líder caricato é muitas vezes a mais sanguinária tirania, nos estados, províncias e cidades -- suas menores células administrativas -- o fim é outro. Trata-se dum fim menos doloroso fisicamente, é claro, mas não menos problemático espiritual, cultural, social e economicamente. Fazendo do aparelho governamental (seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário) uma sucursal das suas volições mais primitivas, o político caricato inaugura o reinado da idiotia sistêmica. Basta observar as hordas de discípulos de Odorico Paraguaçu viralmente espalhadas pelas pequenas cidades do interior do Brasil Profundo...

Aliás, quantas Câmaras Municipais não têm presidentes idênticos na ação e na verve aos mais circenses fascistas que já pisaram a terra? Quantas leis não são aprovadas e aplicadas sob a sombra darth-vaderiana dos toghe nere do Direito Alternativo? Não faltam exemplos de loucos marchadores prontos a assumirem não apenas o controle total dos nossos municípios, mas até mesmo a regência cósmica de todo o Universo, do qual eles seriam os destruidores buracos-negros. A loucura megalômana é uma sina quase que indissociável do caráter daqueles que, dados aos importantes negócios da polis, parecem terem saído de algum dos álbuns de Belmonte.

Bons políticos caricatos, bons Policarpos Quaresmas, enfim, são tão raros quanto a famigerada Pedra Filosofal. Os bons orgulhosamente descendem do valoroso Dom Quixote, os maus devem a existência ao feiticeiro Frestão.  Idealismo luta contra Pragmatismo, Yves Hublet peleja contra José Dirceu...

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 23 de julho de 2014)

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Heroísmo sufocado

Heroísmo sufocado

Os heróis andam sumidos. Andam sumidos porquê o heroísmo anda sumido; pelo menos o heroísmo tornado público -- aquele heroísmo dantes celebrado pelo povo e conscientemente adotado pelo herói como “destino auto-imposto”. Já não se vêem estátuas sendo erigidas, monumentos sendo inaugurados, placas de prata sendo gravadas, medalhas sendo benzidas, marchas sendo compostas, paradas rompendo as avenidas em dupla celebração: louros ao honrado e à honra. O herói se perdeu na noite dos novos tempos. O cavaleiro andante tem três empregos, o soldado destemido é burocrata bate-carimbo, o monge-cruzado cochila tristemente no confessionário da igreja vazia...

E este herói natimorto anda depressivo. A “inquietude blasé” de não poucos homens deriva justamente disso: o herói latente não consegue, nos termos em que o Mundo Moderno está organizado, encontrar o espaço vital necessário para dar vazão às proezas que jazem no espírito. A Modernidade sufoca o herói, impede a saga, silencia a ode. O sentido da vida, diluído na rotina, castra as poesias, as glórias, os impérios. Como Dante, o homem tem chegado “nel mezzo del cammin di nostra vita”, encontrando-se numa selva escura perdido da reta estrada, mas... acaba perpetuamente retido no limbo da inatividade. Sem inferno, sem purgatório, sem paraíso. Tudo é vácuo. Tudo é medíocre e incerto.

Como toda revolução precisa substituir as estruturas psicoemocionais e os modelos sociais e culturais que sustentavam o estado anterior de coisas para se afirmar e definitivamente se enraizar no “ser coletivo”, a Modernidade substituiu o verdadeiro heroísmo pelo falso heroísmo -- logo, substituiu o verdadeiro herói pelo falso herói. No Brasil, sazonal nacionalismo futebolístico triunfou sobre o permanente patriotismo do dia-a-dia; o homem bom sumiu, cedendo o pódio moral ao sujeito “do bem”; as galinhas e os galinhas do BBB são os novos heróis, ungidos pela tola literatura de Pedro Bial. Que tipo de poesia épica poder-se-ia escrever à partir destes tão insólitos exemplos? O bom Homero sairia do cochilo para, inconsolável, chorar. E elevado ao panteão da pátria, Homer Simpson gargalharia entre seus ímpios lauréis.

Isso não quer dizer que o heroísmo autêntico não mais ocorra e que a terra esteja estéril e integralmente despovoada destes exemplos magnos de suprema humanidade. Ocorre. Mas ocorre diluído num “dever profissional” que freqüentemente o impede de ser reconhecido como abnegado altruísmo até mesmo por aqueles que o praticam. Bombeiros diariamente salvam pessoas das chamas da morte, policiais a todo instante estouram cativeiros de crianças seqüestradas, enfim, homens salvam homens. Contudo, ao cabo do dia, vão todos dormir, dormir para esquecer. Dormem os homens que fugazmente aplaudiram, dormem os fugazes heróis aplaudidos. Dormem e acordam igualitariamente nivelados a qualquer delinqüente de esquina. O heroísmo verdadeiro tem sido um instante e o herói um mero agente casual. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 23 de julho de 2014)

sábado, 19 de julho de 2014

Don Chico

A Don Chico Giménez, meu saudoso avô.

Poça sem fundo, 
mas não abissal. 
Interno profundo,
externo superficial.
Verniz de dândi, 
estrutura de Gandhi.  

Antiqua sunt optima

Quando o mundo voltar à razão,
tijolinhos vermelhos se amontoarão
um a um, 
construindo quietas casas
e novos templos para a antiga fé:
lareiras nos lares e altares nos ares.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Políticos “curtos”

Políticos “curtos”

Homens melhores já nos governaram. Homens que sabiam pensar um pouco e agir um pouco. Homens que, obrigados a serem ilustrados pela importância dos cargos que ocupavam, podiam citar algum latinório arduamente decorado, sabiam discursar por uma hora sem parecerem cacatuas disléxicas, conseguiam apontar as impropriedades lógicas no discurso positivista do erudito da aldeia e até mesmo se atreviam a julgar a qualidade dos quadros ecléticos expostos no saguão da prefeitura, enfim, homens impedidos de serem publicamente ogros -- caso fossem, porquê vários eram realmente cultos. O verniz da Civilização salvava o povo da brutalidade suína que tradicionalmente acompanha a maioria dos políticos pós-15 de Novembro. O ambiente “coagia” o eleito delinqüente a ser e parecer melhor do que de fato era.

Mas... já não é assim. A situação piorou muito. Desde o advento do lulo-petismo (um “populismo alcoolizado”) em 2002, dar vazão à bronquice tornou-se normalidade protocolar entre os mandatários. O populismo à antiga, diga-se, tinha lá o seu “garbo”; era demagógico, mas relativamente superior ao que vemos hoje no Planalto, nos palácios estaduais e, sobretudo, nos paços municipais. O presidente Getúlio Vargas, por exemplo, era não apenas estudioso de Nietzsche mas capaz de citar, de memória, capítulos inteiros da obra do filósofo. Jango era extremamente culto e sincero cultor da melhor música clássica. Jânio, a despeito dos sanduíches de mortadela nos palanques e dos ternos intencionalmente puídos, sabia regar a “última flor do Lácio”. Hoje, pinguços sindicalistas do ABC e economistas que não sabem fazer conta imperam arrogantemente desde suas poltronas de couro artificial, sendo o pior do povo, pelo povo e para o povo. Alegoria feminina: de Maria Thereza Goulart a Marisa Letícia, da Princesa Isabel a Dilma Rousseff... Não há “honoris causa” capaz de dourar essa pílula.

Mas... eis a visceral questão: Por que a generalidade da classe política tanto odeia a Alta Cultura? Por que, em Brasília, o MEC exalta a “ginga” e a barbárie de Oloduns & Caxirolas enquanto relega projetos culturais de formato mais erudito às sombras da inanição orçamentária? Por que, cá na Pindorama municipal, o prefeito dá cabo da Secretaria de Cultura e desleixadamente deixa perecer o pouco que se havia arduamente conquistado no mandato anterior? Os homens curtos odeiam os homens cultos. A grosseria da caverna ressente-se da gigantesca existência do mundo do lado de fora. As trevas abominam a luz e se esforçam por ofuscá-la com a pegajosa sombra da ignorância. Afinal, um povo culto é a cura permanente para a tirania dos governos eleitos, justamente, pela debilidade da massa intelectualmente sofredora. A manutenção da pobreza dá votos, mas é a incultura -- que vem desde cima -- que sedimenta e sela a existência ordinária daqueles que esperam messias e panacéias de anticristos e promessas de palanque. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 16 de julho de 2014)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

De genialidade, razão e bondade

De genialidade, razão e bondade

A genialidade, ao produzir, só pode tomar dois rumos: o amor ao próximo ou a misantropia. O gênio é o homem que mais e melhor compreende a Criação e, justamente por isso, é quem acumula informações suficientes para amá-la (em si e nos outros) ou odiá-la (em si e nos outros). Temos aí exemplos, extremamente polarizados, que vão de G. K. Chesterton a J. D. Salinger. Ambos produziram beleza tornada arte -- arte refinada, promotora da Alta Cultura --, mas o primeiro descobriu a mais profunda alegria que a realista esperança cristã infunde no coração daqueles que abraçam a Cruz; enquanto que o segundo medrou seu caminho através daquele niilismo que quer por nas portas das maternidades o “Lasciate ogni speranza voi che entrate” dantiano.

A condição de “intelectual” não traz consigo qualidades morais elevadas e muito menos conversão espiritual. Albert Einstein era um homem naturalmente bom, mas não precisaria ser bom para criar a famigerada fórmula da equivalência massa-energia (E=mc²). Adolf Hitler, por sua vez, era um tenebroso gênio quanto às habilidades retóricas (convenceu mares humanos, como que os seduzindo pela hipnose -- daí, ter sido real e literalmente um “führer”) e por meio delas arrastou a culta Alemanha à barbárie cavernesca. Se bom cristão, Hitler poderia ter sido o Billy Graham bávaro. 

Ser erudito é fácil: difícil é ser santo. Acumular e criar conhecimentos não é tarefa tão hercúlea quanto acumular e desenvolver virtudes. Encher-se de livros, devorar bibliotecas inteiras, escrever luminosos trabalhos filosóficos e científicos, compor elevados poemas que ecoarão nas mais sensíveis almas das gerações futuras não chega sequer perto da silenciosa labuta que é o lapidar dos afetos desordenados, enfim, que é o “cortar na própria carne” para fazer triunfar o espírito. Discernir o Universo material é pouca coisa comparada à tarefa de discernir o próprio “eu” imaterial. Sábios e simples, gênios e medíocres, todos!, têm a capacidade do auto-conhecimento -- conhecer-se e, com isso, mudar. Afinal, possuir determinadas habilidades e talentos não constitui condição sine qua non para entrar na Jerusalém celestial pelas portas.

Neste sentido, a Razão, quando utilizada (porquê ela é faculdade e instrumento do intelecto) com a coerência e com o desapego ideológico capazes de impedir sua desvirtuação em “ismos” (o Racionalismo, sobretudo), necessariamente conduzirá o indivíduo àquela “beleza tão antiga e tão nova” da qual falou Santo Agostinho. A Razão será uma via lateral que levará ao único e reto Caminho; será uma minúscula chama que, no fim do longo túnel de escuridão, conduzirá à luz da Verdade; será a vereda existencial que dirigirá os passos do homem à Vida. A Razão é um bem que pode produzir um homem bom, um gênio bom. Contudo, se instrumentalizada pela vaidade, pelo ódio e pelo egocentrismo, enfim, pelo mal, produzirá um homem mau, um gênio mau. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 9 de julho de 2014)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Pequenos milagres

Pequenos milagres

Desde o momento em que abri os olhos -- ainda “arenosos” pelo sono -- na quarta-feira passada, fiquei logo pensando, obsessivamente, na oração do “Pai Nosso”: a antiga, bela e teologicamente completa oração do “Pai Nosso”. Meditei nela o dia todo. Lembrei de seu desditoso e apóstata abandono nas igrejas, sobretudo: porque poucos a têm orado... Orei-a pela manhã, antes de almoçar, à tarde e ainda à tardinha. À noite, acompanhado de meu irmão, fui ao teatro e, vejam só, um quarteto abriu o concerto (oferecido pelo Conservatório Santa Cecília) interpretando “The Lord’s Prayer”, de Malotte. Nada de coincidências! Não foi o acaso que dirigiu as potentes vozes do quarteto Adventus, fazendo-as cantar a pedagógica oração que o Senhor nos deixou: foi a Providência, a Divina Providência. A platéia toda, publicamente, ouviu a oração que silencioso eu repetia a caminho do Aniz Pachá. Foi um pequeno milagre. E há muitos pequenos milagres.

Mas... por que chamar pequeno a um milagre? Por que chamar pequeno a um ato que vem do céu abalar as leis que regem a terra? O pequeno milagre é assim adjetivado não porque seja irrelevante, nanico ou “débil”. Ele é pequeno por ser e estar serenamente abscôndito no fluir da Eternidade, assim como a nossa vida “está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3:3); porque sem uma alma pacienciosa (logo, sensível) é impossível discernir os movimentos das invisíveis coisas eternas que se sucedem ao nosso redor e derredor; e porque Deus é o Deus do Silêncio, cuja grandeza quer se manifestar mais pela delicadeza do ir-e-vir das coisas da Criação do que por meio de bombásticos “efeitos especiais” hollywoodianos. O pequeno milagre é reconhecido apenas pelos homens que da “noche oscura del alma” se fizeram íntimos. O pequeno milagre é o milagre de Deus para aqueles cuja fé, já amadurecida, dispensa as provas e sinais legitimadores que constantemente pedem os racionalistas discípulos de Tomé. O pequeno milagre é o milagre diário concedido ao silencioso crente comum, ao homem ordinário que ora dialogando.

Quando você está atrasado para um compromisso e o carro não pega e estes minutos perdidos apenas acumulam impaciência, você pode estar diante de um pequeno milagre que salvou sua vida: se não estivesse atrasado -- com alguns quilômetros à frente na viagem -- uma carreta desgovernada teria cruzado o seu caminho e reduzido sua vida à uma sanguinolenta pasta humana espalhada no asfalto esburacado da rodovia. Quando você cai da escada e, mesmo sem sofrer com o natural aparecimento de um ou dois hematomas, é imediatamente obrigado pelo médico a fazer um check-up completo, você pode estar diante de um pequeno milagre que salvou sua vida: sem a queda e os exames dela advindos, passariam anos até que uma dor aguda no pâncreas diagnosticasse algum câncer terminal. 

Agradeçamos, então, pelos pequenos milagres...

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 2 de julho de 2014)