quarta-feira, 30 de julho de 2014

A política dos caricatos

A política dos caricatos

A caricatura é o grotesco ressaltado predominando cômica e rigidamente sobre as demais características -- físicas ou personalitárias -- de um indivíduo. Pessoas caricaturais podem ser excelentes atuando nos niveladores palcos do stand-up e ainda melhores no “desempenho” de algumas das aristocráticas Sete Artes. Se boas, dão excelentes amigos: muito emotivos, muito sinceros, muito humildes, muito autênticos. Se más, porém, dão para tiranizar tudo e todos; alçados à política, são ainda piores: são danosamente demolidores.

Qualquer organização liderada por pessoas caricatas está fadada à autodestruição. Estados controlados por esta cepa, naturalmente bufônica e histriônica (aliás, sempre há algo de kitsch nesta gente), logo sucumbem diante dos perigosos laivos de loucura (geralmente mesclados com espasmos de alguma genialidade patológica) que dão rumo aos respectivos governos. Temos aí, para prová-lo, a Alemanha nazista de Hitler, Goebbels e Göring, a Itália fascista de Mussolini, a Líbia islâmico-marxista de Gaddafi e a mezzo-napoleônica República Centro-Africana de Bokassa.

Se numa nação o destino do povo submetido à sandice do líder caricato é muitas vezes a mais sanguinária tirania, nos estados, províncias e cidades -- suas menores células administrativas -- o fim é outro. Trata-se dum fim menos doloroso fisicamente, é claro, mas não menos problemático espiritual, cultural, social e economicamente. Fazendo do aparelho governamental (seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário) uma sucursal das suas volições mais primitivas, o político caricato inaugura o reinado da idiotia sistêmica. Basta observar as hordas de discípulos de Odorico Paraguaçu viralmente espalhadas pelas pequenas cidades do interior do Brasil Profundo...

Aliás, quantas Câmaras Municipais não têm presidentes idênticos na ação e na verve aos mais circenses fascistas que já pisaram a terra? Quantas leis não são aprovadas e aplicadas sob a sombra darth-vaderiana dos toghe nere do Direito Alternativo? Não faltam exemplos de loucos marchadores prontos a assumirem não apenas o controle total dos nossos municípios, mas até mesmo a regência cósmica de todo o Universo, do qual eles seriam os destruidores buracos-negros. A loucura megalômana é uma sina quase que indissociável do caráter daqueles que, dados aos importantes negócios da polis, parecem terem saído de algum dos álbuns de Belmonte.

Bons políticos caricatos, bons Policarpos Quaresmas, enfim, são tão raros quanto a famigerada Pedra Filosofal. Os bons orgulhosamente descendem do valoroso Dom Quixote, os maus devem a existência ao feiticeiro Frestão.  Idealismo luta contra Pragmatismo, Yves Hublet peleja contra José Dirceu...

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 23 de julho de 2014)

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