quarta-feira, 2 de julho de 2014

Pequenos milagres

Pequenos milagres

Desde o momento em que abri os olhos -- ainda “arenosos” pelo sono -- na quarta-feira passada, fiquei logo pensando, obsessivamente, na oração do “Pai Nosso”: a antiga, bela e teologicamente completa oração do “Pai Nosso”. Meditei nela o dia todo. Lembrei de seu desditoso e apóstata abandono nas igrejas, sobretudo: porque poucos a têm orado... Orei-a pela manhã, antes de almoçar, à tarde e ainda à tardinha. À noite, acompanhado de meu irmão, fui ao teatro e, vejam só, um quarteto abriu o concerto (oferecido pelo Conservatório Santa Cecília) interpretando “The Lord’s Prayer”, de Malotte. Nada de coincidências! Não foi o acaso que dirigiu as potentes vozes do quarteto Adventus, fazendo-as cantar a pedagógica oração que o Senhor nos deixou: foi a Providência, a Divina Providência. A platéia toda, publicamente, ouviu a oração que silencioso eu repetia a caminho do Aniz Pachá. Foi um pequeno milagre. E há muitos pequenos milagres.

Mas... por que chamar pequeno a um milagre? Por que chamar pequeno a um ato que vem do céu abalar as leis que regem a terra? O pequeno milagre é assim adjetivado não porque seja irrelevante, nanico ou “débil”. Ele é pequeno por ser e estar serenamente abscôndito no fluir da Eternidade, assim como a nossa vida “está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3:3); porque sem uma alma pacienciosa (logo, sensível) é impossível discernir os movimentos das invisíveis coisas eternas que se sucedem ao nosso redor e derredor; e porque Deus é o Deus do Silêncio, cuja grandeza quer se manifestar mais pela delicadeza do ir-e-vir das coisas da Criação do que por meio de bombásticos “efeitos especiais” hollywoodianos. O pequeno milagre é reconhecido apenas pelos homens que da “noche oscura del alma” se fizeram íntimos. O pequeno milagre é o milagre de Deus para aqueles cuja fé, já amadurecida, dispensa as provas e sinais legitimadores que constantemente pedem os racionalistas discípulos de Tomé. O pequeno milagre é o milagre diário concedido ao silencioso crente comum, ao homem ordinário que ora dialogando.

Quando você está atrasado para um compromisso e o carro não pega e estes minutos perdidos apenas acumulam impaciência, você pode estar diante de um pequeno milagre que salvou sua vida: se não estivesse atrasado -- com alguns quilômetros à frente na viagem -- uma carreta desgovernada teria cruzado o seu caminho e reduzido sua vida à uma sanguinolenta pasta humana espalhada no asfalto esburacado da rodovia. Quando você cai da escada e, mesmo sem sofrer com o natural aparecimento de um ou dois hematomas, é imediatamente obrigado pelo médico a fazer um check-up completo, você pode estar diante de um pequeno milagre que salvou sua vida: sem a queda e os exames dela advindos, passariam anos até que uma dor aguda no pâncreas diagnosticasse algum câncer terminal. 

Agradeçamos, então, pelos pequenos milagres...

 Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 2 de julho de 2014)

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