quarta-feira, 16 de julho de 2014

Políticos “curtos”

Políticos “curtos”

Homens melhores já nos governaram. Homens que sabiam pensar um pouco e agir um pouco. Homens que, obrigados a serem ilustrados pela importância dos cargos que ocupavam, podiam citar algum latinório arduamente decorado, sabiam discursar por uma hora sem parecerem cacatuas disléxicas, conseguiam apontar as impropriedades lógicas no discurso positivista do erudito da aldeia e até mesmo se atreviam a julgar a qualidade dos quadros ecléticos expostos no saguão da prefeitura, enfim, homens impedidos de serem publicamente ogros -- caso fossem, porquê vários eram realmente cultos. O verniz da Civilização salvava o povo da brutalidade suína que tradicionalmente acompanha a maioria dos políticos pós-15 de Novembro. O ambiente “coagia” o eleito delinqüente a ser e parecer melhor do que de fato era.

Mas... já não é assim. A situação piorou muito. Desde o advento do lulo-petismo (um “populismo alcoolizado”) em 2002, dar vazão à bronquice tornou-se normalidade protocolar entre os mandatários. O populismo à antiga, diga-se, tinha lá o seu “garbo”; era demagógico, mas relativamente superior ao que vemos hoje no Planalto, nos palácios estaduais e, sobretudo, nos paços municipais. O presidente Getúlio Vargas, por exemplo, era não apenas estudioso de Nietzsche mas capaz de citar, de memória, capítulos inteiros da obra do filósofo. Jango era extremamente culto e sincero cultor da melhor música clássica. Jânio, a despeito dos sanduíches de mortadela nos palanques e dos ternos intencionalmente puídos, sabia regar a “última flor do Lácio”. Hoje, pinguços sindicalistas do ABC e economistas que não sabem fazer conta imperam arrogantemente desde suas poltronas de couro artificial, sendo o pior do povo, pelo povo e para o povo. Alegoria feminina: de Maria Thereza Goulart a Marisa Letícia, da Princesa Isabel a Dilma Rousseff... Não há “honoris causa” capaz de dourar essa pílula.

Mas... eis a visceral questão: Por que a generalidade da classe política tanto odeia a Alta Cultura? Por que, em Brasília, o MEC exalta a “ginga” e a barbárie de Oloduns & Caxirolas enquanto relega projetos culturais de formato mais erudito às sombras da inanição orçamentária? Por que, cá na Pindorama municipal, o prefeito dá cabo da Secretaria de Cultura e desleixadamente deixa perecer o pouco que se havia arduamente conquistado no mandato anterior? Os homens curtos odeiam os homens cultos. A grosseria da caverna ressente-se da gigantesca existência do mundo do lado de fora. As trevas abominam a luz e se esforçam por ofuscá-la com a pegajosa sombra da ignorância. Afinal, um povo culto é a cura permanente para a tirania dos governos eleitos, justamente, pela debilidade da massa intelectualmente sofredora. A manutenção da pobreza dá votos, mas é a incultura -- que vem desde cima -- que sedimenta e sela a existência ordinária daqueles que esperam messias e panacéias de anticristos e promessas de palanque. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 16 de julho de 2014)

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