quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cacofonia sacra?

Cacofonia sacra?

O ano era 1932. O mês, outubro. São Paulo, heroicamente solitário, fazia a sua revolução constitucionalista contra a tirania varguista. Era noite em Pindorama. Era noite nas almas pindoramenses. Aqui, famílias inteiras tinham mandado às linhas de frente seus melhores filhos. Celebrava-se missa na Igreja Matriz de Santo Antônio. O coro, regido por um velho frei espanhol, entoava reverente o madrigal “Jesu, rex admirabilis” de Palestrina. A música consolava e a liturgia, latina, era a propulsora espiritual da beleza da Fé. A beleza não apenas salvava o mundo -- no dizer dostoieviskiano --, antes, salvava as almas da amargura da desesperança. O único templo neo-gótico da Araraquarense cedia suas ogivas arquitetônicas à mais refinada música da Escola Romana.

Desde então, tudo mudou... Veio o Concílio Vaticano II que, já no atropelo demolidor da Modernidade, deu cabo não apenas da missa de sempre, mas também da beleza de sempre. Atendendo aos chamados progressistas, o neo-iconoclasta Catolicismo Brasileiro jogou tinta rosa nos afrescos, demoliu os vetustos altares de mármore, pôs a baixo todo o antigo barroco colonial para beatificar as linhas atéias de Niemeyer (simulacros do etéreo, não inspiram nada além da sensação de que “tudo o que era sólido se desmancha no ar”), emudeceu os corais, silenciou as orquestras, enfim, extinguiu a Música, a Música da qual Agostinho comovido tinha dito: “Chorei a ouvir os teus hinos e cânticos, profundamente emocionado pelas vozes de tua Igreja, que canta suavemente”. Mas... o que são as opiniões do santo Bispo de Hipona diante das infalíveis sumas dum Fábio de Melo? Triunfou a mediocridade. Venceu o nivelamento por baixo.

Saberão quem foi o católico Mozart os padrecos que abandonaram a batina pelo jeans atochado e que arrastam sua má fama pelas insalubres ladeiras da madrugada? E os irreverentes pastores do histerismo neo-pentecostal, fanáticos dizimistas da hortelã, do endro e do cominho (Mateus 23:23), conhecerão o luterano Bach? Salvo honrosas exceções, o templo padrão da Cristandade brasileira tem sido um herético monumento à cacofonia. Missas rezadas sob o ritmo do axé, do samba, do pagode e do heavy metal. Procurem pelo “Padre Pinto” no Youtube. Cultos oficiados ao som do forró, do funk, do pop e do sertanejo universitário. Procurem pelo “Passinho do Abençoado” no Google. Se por um lado não há espaço nos santuários cristãos para Vivaldi, Handel, Beethoven e Haydn, por outro lado, abundam “lepo-lepos” gospel e “ai, se eu te pego” católicos.

Baterias agudas, levitas do louvorzão, violões de corda bamba, pandeiros carnavalescos, guitarras sem amplificador, guinchos e firulas vocais, microfonias, playbacks da Cassiane, composições escritas nas mesas dos empresários, etc. Deus não é surdo nem tem ouvido de pinico, irmão!

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 27 de agosto de 2014)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Notas pertinentes – II

Notas pertinentes – II

As duas mais belas bandeiras estaduais são a paulista e a pernambucana. A primeira simboliza o Brasil moderno, industrial e burguês; a segunda, o Brasil antigo, agrário e aristocrático. Pernambuco é o que foi o São Paulo dos bandeirantes. São Paulo foi o que é o Pernambuco dos heróis de Guararapes. Há também em ambos uma “nobreza da terra” que dá o tom de suas vidas coletivas -- éticas e estéticas. “Paulista, para um só instante”, corre e vê a “nova Roma de bravos guerreiros”.

Enquanto o Homem não alcançou a técnica, sua Arte era algo deformatória mas almejava o registro ideal da realidade. Dominada a técnica, todavia, sua Arte tornou-se intencionalmente deformatória e a serviço da consciente fuga do real. A Vênus de Brassempouy queria ser a Vênus de Milo enquanto a Vênus de qualquer escultor moderno quer ser a Vênus de Willendorf.

Na Arte Medieval, não há “macro sem micro” -- a Arquitetura Moderna poderia assim ser definida, aliás: o macro sem o micro ou o micro tornado macro. Tudo o que há de grande depende do pequeno detalhado. A minúcia é de tudo a base, porquê, como diria Gregório de Matos, “O todo sem a parte não é todo, / A parte sem o todo não é parte, / Mas se a parte o faz todo, sendo parte, / Não se diga, que é parte, sendo todo”. O medievo era algo “fractal”, pois.

O sossego das rotinas honestas é uma bênção. A rotina do homem íntegro o assenta e enraíza na existência, criando o constante equilíbrio psíquico necessário ao surgimento da “consistência temporal” que garante sanidade mental e saúde espiritual. A rotina gera harmonia. A saudável repetição de “agendas diárias” (do emprego profissional aos hábitos pessoais) nos prepara para a alegria da modesta diversão nos finais de semana, para a felicidade sazonal dos acontecimentos mensais, para o extraordinário dos eventos anuais, para a raridade das grandes ocorrências da vida -- dos amores aos casamentos, dos nascimentos aos batizados.

A espinha se curva quando a alma é curvada. Um homem consciente de sua dignidade jamais se desfará em salamaleques diante de um humano indigno. Apenas os sicofantas e os bajuladores dobram os joelhos quando vêem pomposamente passar um canalha que o protocolo do Mundo pôs numa posição elevada. O pobre e sábio Mardoqueu sempre será superior ao rico e néscio Hamã.

A sensibilidade nem sempre é doce, silenciosa e meiga. As mulheres verdadeira e integralmente sensíveis que conheci (e conheço) são, às vezes, grosseiramente inquietas. Há nelas imprevistas reações externas reverberando causas internas extremamente previsíveis. Por exemplo, quando não encontram o seu “bom homem bom”, desesperam-se completamente e vão cair nos braços vis do primeiro Don Juan botequeiro que lhes promete casa, comida e roupa lavada. Sensibilidade não correspondida produz cópias mundanas das aspirações celestes que a nutrem. Não raro, a fome de amor verdadeiro conduz à mais torpe luxúria. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 20 de agosto de 2014)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

La tromba al finale

Oh Luz, que das estrelas consomes o finito brilho,
Subirá à meia-noite o fulgor do teu sol derradeiro? 
Vespertina canção já foram os anjos entoar.
Do querubim os lábios já se pregam ao clarim.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dúvida patológica

Dúvida patológica

Para tudo o quê no homem move o espírito há um limite bem definido, uma barreira de segurança, uma fronteira que demarca a divisa entre a planície segura e o perigoso abismo, entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre o sólido racional e o etéreo fantasioso. No plano da inteligência é assim. Existem limites: alguns mais rigidamente “preto no branco” (rapidamente discerníveis, portanto) e outros transitando pelos muitos cinzas do dégradé existencial (logo, nebulosamente penumbrosos). Lidando-se com a busca da Verdade, temos de um lado a certeza e do outro a dúvida. A primeira, afirma; a segunda, inquire.

A certeza não se conjuga necessariamente à Verdade, já que não passa de uma convicção emocional, de uma sensação mais ou menos sincera de segurança intelectual que estaciona a alma humana numa posição de conforto mental. Como sentimento subjetivo que é, naturalmente a certeza pode advir de uma situação de erro e, então, estar a serviço da causa da Mentira. Aliás, quantas certezas não estão fundamentadas no mais alucinado delírio, no mais irracional fanatismo e até mesmo na mais tenebrosa anti-humanidade?

A dúvida, por sua vez, é saudavelmente útil na medida em que criva a Realidade, servindo, desde que em consonância com a razão, como sistemático depurador de qualquer afirmação. A dúvida é o intelecto pedindo provas da natureza das coisas, é a mente exigindo “Licht, mehr licht!” [Luz, mais luz!], é o homem dignificando o seu especial bipedismo. Quando frutuosa nas suas indagações, a dúvida leva à Verdade e, então, a enraíza no intelecto através da certeza, sedimentando-a em equilíbrio psicológico e harmonia cerebral.

Acontece, porém, que certa exacerbação dos limites funcionais da dúvida enquanto instrumento intelectual produziu, com o advento do Iluminismo, aquilo que se tem chamado de Racionalismo -- que é, criteriosamente, a perversão da Razão tornada sistema filosófico. Eis então o Cartesianismo, que inaugurou a era do otimismo cientificista. Posteriormente, irmanada ao Ceticismo, a dúvida racionalista tornou-se auto-gestionária, permanente e descrente de si mesma, em suma, indirimível. A incerteza contínua (sempre relativista), bem expressa pelo “Quid est veritas?” de Pôncio Pilatos, tornou-se sinônimo de honestidade intelectual. O perpétuo duvidar sepultou o Eureka. A inquirição missionária apostatou: não mais acredita na Verdade. Certezas, portanto, poucos as têm.  

Basta freqüentar as aulas de Filosofia de qualquer universidade mais ou menos citadina para se constatar a loucura sistêmica causada pelo apaixonado apego à dúvida. O homem já não acredita no que vê: o evidente tornou-se surreal e o real não passa de um arremedo de interações bioquímicas entre as sinapses. A dúvida hodierna é uma dúvida patológica, uma dúvida que cauterizou o espírito humano. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 12 de agosto de 2014)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Compreende?

A João Cabral de Mello Neto

"Compreende?" 
Era a sua vírgula oratória,
sua retilínea e lírica retórica, 
a síntese da fina arquitetura:
a pedra talhada da poesia. 

Era a pontuação demarcatória,

o fim-e-o-começo da narração,
era do ser a motora canção,
era a libertadora compreensão. 
"Compreende?" 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Notas pertinentes

Notas pertinentes

Um coral de ateus interpretando com apuro e primor a “Paixão segundo São Mateus” de Bach é tremendamente inferior -- em termos espirituais -- a qualquer avozinha analfabeta (aquelas piedosas, com seus coques evangélicos e rosários católicos) cantarolando, à pia da cozinha, qualquer musiquinha ouvida no radinho a pilha.

Poucas coisas são tão musicalmente belas, harmônicas e espiritualmente elevadas quanto o alegre “tá-tá-tá-tá-tá” de um bebê. Mozart, apesar de toda a sua potente genialidade, seria incapaz de compor coisa semelhante. A música das partituras é cópia maquinal da música que naturalmente pulsa com a vida: o oco martelar sobre a madeira é o som mais próximo que podemos obter ao tentar imitar a natural “melodia infantil”.

Uma mulher com o rosto limpo das pesadas cosméticas é a mais feminina das mulheres, é a mais bela das mulheres: e o é por revelar “A Mulher” numa mulher. Sem as brutas pinceladas dos apetrechos de maquiagem, nada ela traz consigo senão a nudez da alma. E quando chora, a lágrima corre e escorre livre dos borrões, como quando primeiro desceu sobre o rosto de Eva.

O sorriso dos velhinhos aposentados -- aqueles acomodados em meio às praças das igrejas-matriz -- quando ganham no jogo de xadrez, é comparável à fisionomia de Napoleão ao cabo da Batalha de Austerlitz e à expressão de Michelangelo diante da Pietà terminada. A chama do triunfo relampejando nos olhos do vitorioso é a mesma em todos os homens.

Ler um livro querendo que ele não tenha fim é almejar a Eternidade. Todo o enredo que prende o homem ao seu destino, seja ele fictício ou plenamente existencial, não passa de sede da imortalidade. Quem lê calculando a virada das páginas na tentativa de prorrogar o desfecho do romance, irmana-se ao crente que aguarda na morte eminente a vida que não tem fim.

A maioria dos ditos “intelectuais” não é profunda. São apenas rasos melancólicos. Nem todo membro chatamente taciturno da intelligentzia tupiniquim é intelectualmente complexo. No Brasil, uma xícara de café, uma barba por fazer, um óculos desalinhado e um livro à mão fazem de qualquer idiota neurastênico um Sócrates redivivo. O filósofo cristão, na contramão do cético melancolismo pagão, deve ser um apóstolo da felicidade.

Uma pétala seca modestamente aconchegada entre páginas esquecidas vale por mil arranjos artificiais. O artificial quase sempre é uma imitação nascida da indolência, da vagabundice da barbárie que é o Superficial querendo triunfar sobre a civilização do Real. O artificial é o artifício do medíocre. Panicats não são damas. Copos e talheres de polipropeno não são porcelana, prata e cristal. Playbacks em igrejas neo-pentecostais e lâmpadas vela-chama em santuários católicos não são, respectivamente, música sacra e litúrgicas velas de parafina.


Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 6 de agosto de 2014)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Recado ao sofredor

"Queres ser feliz? Aprende primeiro a sofrer." 
(Ivan Turgenev)

Engole o teu choro.
E as lágrimas que a terra marcaram, 
desmancha com o pé os úmidos regos.
Queima teu lenço branco. Compra um negro.
O luto mitiga sorrindo. Ri e gargalha ainda. 
A vida é o sentido da tua existência. 
Ide, vai: rompe a fronteira da tua dor. 
O teu choro engole.