quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dúvida patológica

Dúvida patológica

Para tudo o quê no homem move o espírito há um limite bem definido, uma barreira de segurança, uma fronteira que demarca a divisa entre a planície segura e o perigoso abismo, entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre o sólido racional e o etéreo fantasioso. No plano da inteligência é assim. Existem limites: alguns mais rigidamente “preto no branco” (rapidamente discerníveis, portanto) e outros transitando pelos muitos cinzas do dégradé existencial (logo, nebulosamente penumbrosos). Lidando-se com a busca da Verdade, temos de um lado a certeza e do outro a dúvida. A primeira, afirma; a segunda, inquire.

A certeza não se conjuga necessariamente à Verdade, já que não passa de uma convicção emocional, de uma sensação mais ou menos sincera de segurança intelectual que estaciona a alma humana numa posição de conforto mental. Como sentimento subjetivo que é, naturalmente a certeza pode advir de uma situação de erro e, então, estar a serviço da causa da Mentira. Aliás, quantas certezas não estão fundamentadas no mais alucinado delírio, no mais irracional fanatismo e até mesmo na mais tenebrosa anti-humanidade?

A dúvida, por sua vez, é saudavelmente útil na medida em que criva a Realidade, servindo, desde que em consonância com a razão, como sistemático depurador de qualquer afirmação. A dúvida é o intelecto pedindo provas da natureza das coisas, é a mente exigindo “Licht, mehr licht!” [Luz, mais luz!], é o homem dignificando o seu especial bipedismo. Quando frutuosa nas suas indagações, a dúvida leva à Verdade e, então, a enraíza no intelecto através da certeza, sedimentando-a em equilíbrio psicológico e harmonia cerebral.

Acontece, porém, que certa exacerbação dos limites funcionais da dúvida enquanto instrumento intelectual produziu, com o advento do Iluminismo, aquilo que se tem chamado de Racionalismo -- que é, criteriosamente, a perversão da Razão tornada sistema filosófico. Eis então o Cartesianismo, que inaugurou a era do otimismo cientificista. Posteriormente, irmanada ao Ceticismo, a dúvida racionalista tornou-se auto-gestionária, permanente e descrente de si mesma, em suma, indirimível. A incerteza contínua (sempre relativista), bem expressa pelo “Quid est veritas?” de Pôncio Pilatos, tornou-se sinônimo de honestidade intelectual. O perpétuo duvidar sepultou o Eureka. A inquirição missionária apostatou: não mais acredita na Verdade. Certezas, portanto, poucos as têm.  

Basta freqüentar as aulas de Filosofia de qualquer universidade mais ou menos citadina para se constatar a loucura sistêmica causada pelo apaixonado apego à dúvida. O homem já não acredita no que vê: o evidente tornou-se surreal e o real não passa de um arremedo de interações bioquímicas entre as sinapses. A dúvida hodierna é uma dúvida patológica, uma dúvida que cauterizou o espírito humano. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 12 de agosto de 2014)

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