quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Notas pertinentes – II

Notas pertinentes – II

As duas mais belas bandeiras estaduais são a paulista e a pernambucana. A primeira simboliza o Brasil moderno, industrial e burguês; a segunda, o Brasil antigo, agrário e aristocrático. Pernambuco é o que foi o São Paulo dos bandeirantes. São Paulo foi o que é o Pernambuco dos heróis de Guararapes. Há também em ambos uma “nobreza da terra” que dá o tom de suas vidas coletivas -- éticas e estéticas. “Paulista, para um só instante”, corre e vê a “nova Roma de bravos guerreiros”.

Enquanto o Homem não alcançou a técnica, sua Arte era algo deformatória mas almejava o registro ideal da realidade. Dominada a técnica, todavia, sua Arte tornou-se intencionalmente deformatória e a serviço da consciente fuga do real. A Vênus de Brassempouy queria ser a Vênus de Milo enquanto a Vênus de qualquer escultor moderno quer ser a Vênus de Willendorf.

Na Arte Medieval, não há “macro sem micro” -- a Arquitetura Moderna poderia assim ser definida, aliás: o macro sem o micro ou o micro tornado macro. Tudo o que há de grande depende do pequeno detalhado. A minúcia é de tudo a base, porquê, como diria Gregório de Matos, “O todo sem a parte não é todo, / A parte sem o todo não é parte, / Mas se a parte o faz todo, sendo parte, / Não se diga, que é parte, sendo todo”. O medievo era algo “fractal”, pois.

O sossego das rotinas honestas é uma bênção. A rotina do homem íntegro o assenta e enraíza na existência, criando o constante equilíbrio psíquico necessário ao surgimento da “consistência temporal” que garante sanidade mental e saúde espiritual. A rotina gera harmonia. A saudável repetição de “agendas diárias” (do emprego profissional aos hábitos pessoais) nos prepara para a alegria da modesta diversão nos finais de semana, para a felicidade sazonal dos acontecimentos mensais, para o extraordinário dos eventos anuais, para a raridade das grandes ocorrências da vida -- dos amores aos casamentos, dos nascimentos aos batizados.

A espinha se curva quando a alma é curvada. Um homem consciente de sua dignidade jamais se desfará em salamaleques diante de um humano indigno. Apenas os sicofantas e os bajuladores dobram os joelhos quando vêem pomposamente passar um canalha que o protocolo do Mundo pôs numa posição elevada. O pobre e sábio Mardoqueu sempre será superior ao rico e néscio Hamã.

A sensibilidade nem sempre é doce, silenciosa e meiga. As mulheres verdadeira e integralmente sensíveis que conheci (e conheço) são, às vezes, grosseiramente inquietas. Há nelas imprevistas reações externas reverberando causas internas extremamente previsíveis. Por exemplo, quando não encontram o seu “bom homem bom”, desesperam-se completamente e vão cair nos braços vis do primeiro Don Juan botequeiro que lhes promete casa, comida e roupa lavada. Sensibilidade não correspondida produz cópias mundanas das aspirações celestes que a nutrem. Não raro, a fome de amor verdadeiro conduz à mais torpe luxúria. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 20 de agosto de 2014)

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