quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Notas pertinentes

Notas pertinentes

Um coral de ateus interpretando com apuro e primor a “Paixão segundo São Mateus” de Bach é tremendamente inferior -- em termos espirituais -- a qualquer avozinha analfabeta (aquelas piedosas, com seus coques evangélicos e rosários católicos) cantarolando, à pia da cozinha, qualquer musiquinha ouvida no radinho a pilha.

Poucas coisas são tão musicalmente belas, harmônicas e espiritualmente elevadas quanto o alegre “tá-tá-tá-tá-tá” de um bebê. Mozart, apesar de toda a sua potente genialidade, seria incapaz de compor coisa semelhante. A música das partituras é cópia maquinal da música que naturalmente pulsa com a vida: o oco martelar sobre a madeira é o som mais próximo que podemos obter ao tentar imitar a natural “melodia infantil”.

Uma mulher com o rosto limpo das pesadas cosméticas é a mais feminina das mulheres, é a mais bela das mulheres: e o é por revelar “A Mulher” numa mulher. Sem as brutas pinceladas dos apetrechos de maquiagem, nada ela traz consigo senão a nudez da alma. E quando chora, a lágrima corre e escorre livre dos borrões, como quando primeiro desceu sobre o rosto de Eva.

O sorriso dos velhinhos aposentados -- aqueles acomodados em meio às praças das igrejas-matriz -- quando ganham no jogo de xadrez, é comparável à fisionomia de Napoleão ao cabo da Batalha de Austerlitz e à expressão de Michelangelo diante da Pietà terminada. A chama do triunfo relampejando nos olhos do vitorioso é a mesma em todos os homens.

Ler um livro querendo que ele não tenha fim é almejar a Eternidade. Todo o enredo que prende o homem ao seu destino, seja ele fictício ou plenamente existencial, não passa de sede da imortalidade. Quem lê calculando a virada das páginas na tentativa de prorrogar o desfecho do romance, irmana-se ao crente que aguarda na morte eminente a vida que não tem fim.

A maioria dos ditos “intelectuais” não é profunda. São apenas rasos melancólicos. Nem todo membro chatamente taciturno da intelligentzia tupiniquim é intelectualmente complexo. No Brasil, uma xícara de café, uma barba por fazer, um óculos desalinhado e um livro à mão fazem de qualquer idiota neurastênico um Sócrates redivivo. O filósofo cristão, na contramão do cético melancolismo pagão, deve ser um apóstolo da felicidade.

Uma pétala seca modestamente aconchegada entre páginas esquecidas vale por mil arranjos artificiais. O artificial quase sempre é uma imitação nascida da indolência, da vagabundice da barbárie que é o Superficial querendo triunfar sobre a civilização do Real. O artificial é o artifício do medíocre. Panicats não são damas. Copos e talheres de polipropeno não são porcelana, prata e cristal. Playbacks em igrejas neo-pentecostais e lâmpadas vela-chama em santuários católicos não são, respectivamente, música sacra e litúrgicas velas de parafina.


Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 6 de agosto de 2014)

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