domingo, 28 de setembro de 2014

Spiegel im Spiegel

Imersos em ar
estão os galhos.
E as raízes,
em terra submersas.

Prolongam-se estas extremidades
em idêntica proporção: ao céu
as folhas pulmonares, à terra 
os intestinos radiculares.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sobre os santos

Sobre os santos

O santo não é um super-homem tremendamente sobrenatural que congenitamente se eleva acima dos demais membros da espécie. Ele nasceu criança, não santo, posto que é “homem sujeito às mesmas paixões que nós” (Tiago 5:17). É, portanto, o mais humano dos homens que pisa a terra, mas com a consciência de dela ser, ao mesmo tempo, finita e infinita progressão: o santo sabe que é pó brutalmente levado pelos variados ventos das estações e que é na existência diluído tanto pelo suave orvalho quanto pela turbulenta tempestade; contudo, sabe também que é espírito e que a tumba não poderá aguilhoar-lhe, posto que foi moldado para usufruir a Eternidade e existir para além da matéria deste mundo com prazo de validade.

Mas, quem e como são os santos? Forrest Gump seria um santo. Valdemiro Santiago, não. O príncipe Míchkin seria um santo. Caio Fábio, não. Os santos são distinguidos não pelo muito falar em Deus (Mateus 7:22), não pela sua religiosidade fanaticamente ranheta que a todos quer converter pelo temor do fogo e do enxofre do inferno. Eles são quietamente grandiosos. Imersos na graça de Deus, corrigem o pecador falando do Amor e não lançando mão de impropérios nascidos de ódio justiceiro -- que é pagão. A misericórdia é a pedra de toque da santidade. Os santos não saem à cata das sementes de joio na Terra lançadas, mas deixam-nas germinar até o dia da ceifa. Por isso, não são violentos revolucionários, imediatistas que à força querem instalar o Regnum Dei; afinal, o heroísmo cristão é o martírio e os torquemadas farão companhia ao diabo...

O santo deixa passar o tempo sem medi-lo pelo calendário dos homens. Ele sabe que as coisas acontecem, vêm e vão conforme quer Deus: o kairós transcendente pulveriza o movimento espacial do chronos imanente e faz da vida interior do homem virtuoso o propulsor das coisas externas que com ele se deparam, afinal, “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). Daí, tudo tem significado, todas as coisas desvelam porquês, forças visíveis e invisíveis colaboram uniformemente para dar sentido à vida de quem abraça a cruz. O santo banha-se de ontologia e por isso sua consciência participa do Mistério, não sendo afligido pelas questões que a tantos levaram à loucura. Tudo é paz. Tal como São Luiz Gonzaga, ele “continuaria brincando” mesmo sabendo que passaria ao Além dentro de poucos minutos.

Tampouco é “perfeito” o homem que ingressará no céu ou mesmo o foi aquele que já recebe na terra a honra dos altares. Os santos jamais passaram o limiar da boa sanidade querendo atingir a inatingível perfeição, cuja busca (sempre obsessiva) traz inquietude e perdição. Eles conhecem e distinguem o que é perfeito, mas são alegremente imperfeitos e, nesta condição, diariamente se aperfeiçoam. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 24 de setembro de 2014)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Efeito Borboleta

Efeito Borboleta

A torneira que vagarosamente pingava abria pequenos veios que aguavam os carrapichos do quintal. Seu Zé tentou arrancá-los com a velha enxada. Na sétima batida, acertou o ferro enferrujado no dorso do pé, que sangrou. Foi ao hospital cuidar da ferida e horas depois, já indo embora, andando pelos corredores, tropeçou numa enfermeira que carregava, afobada, os prontuários dos pacientes da UTI. Os papéis se misturaram e um deles, elevado pelo ar, voou pela janela e foi pousar no meio da rua. A enfermeira torceu o pé. O doente que ficou sem o prontuário deixou de tomar o antibiótico que o teria matado em meia hora -- era alérgico. De pé torcido e canela inflamada, Luísa não pôde dançar a valsa no casamento da irmã e deixou de conhecer e amar o melancólico Augusto, que se lançou do amplo vão de uma centenária ponte alsaciana três anos depois. Arthur, vizinho de Augusto, propenso a sucumbir às intempéries da psique, atemorizou-se com o suicídio e resolveu por em ordem a existência. Sentiu a vida. Sentiu e saiu triufante do quarto: ordenou-se pastor, apaixonou-se pela filha do deão do seminário e, cheio de alegria, foi ter filhos como tinham os patriarcas de outrora. Seu primogênito, poeta, escreveu os mais pungentes versos do século; lidos, num preguiçoso sábado de inverno, por uma destas ricas solteironas ianques, milionárias que em pencas produzira o industrial século XX. “Na areia do deserto enterrada, / No rio profundo mergulhada: / Não será fecunda tua raiz. // Fita no chão o rabisco, o país. / Mira com coragem a alvorada, / Faz do tempo frutuosa jornada.” O coração cioso mas não indolente da velha se comoveu e, querendo a esmo fazer caridade, mandou buscar na praça qualquer infeliz que carecesse de cobertor e comida. Subiu o austero mordomo com o indigente, que deixou cair, enquanto entrava no elevador, uma pequena bolsa, toda cheia de puídos recortes de jornal. A bolsa, leve e redonda, rolou até o hall, onde foi chutada para fora por um pirralho mimado que por ali passava. Na rua, foi parar no pequeno bueiro da esquina, que ficou entupido. Choveu à noite. O bueiro, vedado, não escoou a água daquele fim de quarteirão, impedindo que quatro cãezinhos fossem arrastados para o caudaloso esgoto da metrópole. Encontrados na manhã seguinte pelo entregador de jornal do bairro, conseguiram um lar, ganharam um nome e foram ter as suas férteis gerações de filhotes. Um dos bisnetos destes bassets acabou na casa de uma menininha que padecia de câncer. Athos, o cão, fez a vez dos amigos de infância que Alice teria amealhado se vivesse o primário. Com suas sinceras lambidas, ajudou a salvá-la. A quimioterapia também cumpriu sua missão. Curada, decidiu então ser médica. Queria curar os outros. Jurou com Hipócrates e foi servir a Humanidade, engrossando as fileiras dos Médicos Sem Fronteiras. Enquanto tratava de tuberculosos terminais na Somália, maometanos a arrastaram ao harém-cativeiro. Seqüestrada, pelo celular conseguiu enviar a mais sintética das mensagens aos pais e ao país: “Help me!”. Horas após, uma esquadrilha de F-22 bombardeava os redutos do grupelho jihadista. Sic transit gloria mundi... 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 17 de setembro de 2014)

sábado, 13 de setembro de 2014

El Camino de Santiago

Vede que o tempo escaço está
e não se pode mais pela luz contar. 
Como mediremos a areia e o ar,
as águas que diluviam e o mar?

Passem as nuvens todas,
sumam as marcas do firmamento
e inundem de quieta tempestade
a terra que ao céu faz guerra.

Círios ao vento, luz às trevas:
toda marcha tem uma prece
a guiar os pés peregrinos,
a guardar o espírito andarilho. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Destinatus obdura

Dize tu, oh filho de espartanos, 
se preferes com a foice a terra cegar
ou com a espada tua vida ganhar,
se queres ancião na cama fenecer
ou em glória jovem perecer. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Notas pertinentes – III

Notas pertinentes – III

A arte do Neanderthal é superior a tudo o que se tem apresentado de “contemporâneo” na Royal Academy of Arts de Londres, no MAM e em qualquer lugar onde o conceito de artístico seja tido como “toda manifestação humana”. Qualquer cusparada ocre nas paredes das cavernas cantábricas supera em talento, beleza e profundidade espiritual qualquer destes esguichos-e-espirros que o arrematador milionário emergente têm posto burguesamente acima da lareira rococó, ao lado da coleção de pratos de porcelana que pertencera à avozinha de sua nova cocota.

O Ato Falho -- chamado por Freud de Fehlleistung -- nada mais é do que a conceituação psicanalítica, como lapso, daquele célebre dizer do Cristo: “Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mateus 12:34). Toda a sabedoria do Mundo de antanho supera largamente os “eurekas” modernos de Freud, Jung e tutti quanti. Qualquer budinha tibetano, encerrado em escuro claustro lá pelos idos do século VIII, sabia mais da psique humana que estes adoradores de divã e ansiolíticos que clinicam por aí...

Queres conhecer a essência de alguém, perscrutando o âmago da pessoa escolhida até o limiar da alma e do espírito? Mande-a ao piano e deixe-a sozinha com o instrumento pelo tempo suficiente para que, confortável e acostumada com as teclas e algo íntima do pontuado som delas emanado, ela se atreva a compor uma melodia. O que dos dedos naturalmente sair será a síntese mais refinada daquilo que ela carrega no coração. Se de personalidade melancólica, algum noturno de Chopin será sentido; se alegre e jovial, o bailado das valsas de Strauss; se tensa, a Sonata 17 de Beethoven turbará o ambiente. Todos nós temos uma música interior que inconscientemente se expande e dilata.

Na Antiguidade, a falta de chuva era sinal de punição divina. Basta recordar o episódio com o profeta Elias. Pecava o povo e as janelas do céu se fechavam. O sertão virava mar e o mar virava sertão, no dizer de Antônio Conselheiro: Caem sobre o Nordeste dilúvios diários enquanto São Paulo vê minguar suas fontes. O riacho do Ipiranga é agora um borrão vermelho que grita mudo. Terá seriamente pecado o povo bandeirante? Que fez o paulista para merecer a aridez que anuncia racionamento e renite? Após o nosso coletivo mea culpa, talvez “uma pequena nuvem, do tamanho da mão dum homem” (I Reis 18:44) venha molhar o rosto seco dos nossos quatrocentões, carcamanos e caipiras.

Curtidores compulsivos são idiotas compulsórios. Basta postar qualquer trivialidade acompanha de hashtags intelectualmente ocas para que enxames de perfis (gente despersonalizada), em frenesi, curtam sem quase ler, comentem com os “disse tudo!” e compartilhem sistematicamente aquilo que vier de encontro às suas volições, pulsões e ideários impensados. Não ouse discordar: Senão, a matilha virtual criará campanhas contra você e lhe infernizará a vida até o dia em que a Eternidade substituir a timeline. Isto é proto-fascismo de Facebook. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 10 de setembro de 2014)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O profeta

O profeta

Ainda existem profetas. Há quatro anos, presenciei o austero e exortativo discurso de um deles. Parei o carro no primeiro semáforo da entrada de Catanduva, lá no começo da Avenida São Vicente de Paula. Na esquina à esquerda, um homem alto, de compleição vigorosamente robusta, talvez uns cinqüenta e tantos anos, vestido como outrora se vestiam todos os homens decentes -- de terno bem talhado, naturalmente --, bradava a quem passava, apontando assertivamente com o dedo: “Vocês, os poderosos, hão de prestar contas ao Todo-Poderoso; vocês, que nos fazem de escada, que nos pisam e amassam. Vocês hão de pagar!” Palavras de alguém que, certamente, estudou a Escritura, de alguém que leu e assimilou no próprio espírito a elevada vocação de Isaías, de Jeremias, de Ezequiel, de João Batista... Quem presenciou aquele falar energicamente impetuoso, presenciou o mesmo espírito que animou Elias a enfrentar a fúria de Jezabel e a indolência perniciosa do rei Acabe.

Profeta, anuncia e clama / ao povo rebelde e blasfemo; / dize a quem não ama / que virá fogo sobre o feno. / Profeta, tua língua é espada / que corta pelo Senhor; / derrete ferramenta e enxada / e vai à guerra, ao labor!

A voz do profeta é uma voz de consciência, é a voz do prenuncio de castigos coletivos, de juízos eminentes, de punições corretivas que almejam revolver a terra seca do atrofiado coração humano. Quando um povo perde a alma e se amasia com seus algozes, quando o bem é chamado de mal e o mal é elevado à condição de bem, quando se calam os homens de virtude e as pedras ameaçam clamar, então se levantam da obscuridade de suas existências modestas os profetas. Pastores de ovelhas que pouco ouviam do barulho citadino, como Davi, quietos copeiros exilados em cortes estrangeiras, como Neemias, são chamados a deixar de lado os seus afazeres ordinários, para irem às praças, às ruas, aos valados, às salas reais e defender o bom caminho das “veredas antigas”.

Profeta, anuncia a verdade, / dize que vomitados serão / aqueles que são leviandade; / pois como palha queimarão! / Profeta, cumpre teu ofício / e esperar-te-á o Céu. / Levanta-te contra o ócio / e clama: Shema Yisrael!

O que queria aquele homem, então? Queria dizer alguma coisa a Catanduva e ao seu povo enfeitiçado? Talvez, estivesse apontando a mudez quadrienal dos políticos que, em tempos de eleição, vem tocar seus jingles carnavalescos na porta dos desvalidos. Talvez, falasse das tribunas -- outrora púlpitos da honra! -- transformadas em picadeiros dedicados à mais baixa prosa de peixaria algarviana. Talvez,  ferido por alguma injustiça repentinamente avassaladora do seu próprio coração, nos quisesse lembrar das mudas opressões que se abatem sobre os homens que, silenciosamente virtuosos, um dia abrem a boca e despejam nas ágoras das cidades o juízo que o próprio Deus há de mandar sobre aqueles que escandalizam a Humanidade.

                                                           Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 27 de agosto de 2014)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

L'enfant terrible

Quando eu era menino,
tão corajoso era
que ao cavaleiro Quixote
a covardia eu censurava. 

O ideal do beato Morus
era para mim material
e toda utopia descoberta
mero esboço do meu ideal. 

A espinha, forte, arrepiava
diante de qualquer sinfonia.
No piano lá de casa eu via
o portal para o eternal.

Quisera eu, mais uma vez,
falar como menino,
sentir como menino,
discorrer como menino...