quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Efeito Borboleta

Efeito Borboleta

A torneira que vagarosamente pingava abria pequenos veios que aguavam os carrapichos do quintal. Seu Zé tentou arrancá-los com a velha enxada. Na sétima batida, acertou o ferro enferrujado no dorso do pé, que sangrou. Foi ao hospital cuidar da ferida e horas depois, já indo embora, andando pelos corredores, tropeçou numa enfermeira que carregava, afobada, os prontuários dos pacientes da UTI. Os papéis se misturaram e um deles, elevado pelo ar, voou pela janela e foi pousar no meio da rua. A enfermeira torceu o pé. O doente que ficou sem o prontuário deixou de tomar o antibiótico que o teria matado em meia hora -- era alérgico. De pé torcido e canela inflamada, Luísa não pôde dançar a valsa no casamento da irmã e deixou de conhecer e amar o melancólico Augusto, que se lançou do amplo vão de uma centenária ponte alsaciana três anos depois. Arthur, vizinho de Augusto, propenso a sucumbir às intempéries da psique, atemorizou-se com o suicídio e resolveu por em ordem a existência. Sentiu a vida. Sentiu e saiu triufante do quarto: ordenou-se pastor, apaixonou-se pela filha do deão do seminário e, cheio de alegria, foi ter filhos como tinham os patriarcas de outrora. Seu primogênito, poeta, escreveu os mais pungentes versos do século; lidos, num preguiçoso sábado de inverno, por uma destas ricas solteironas ianques, milionárias que em pencas produzira o industrial século XX. “Na areia do deserto enterrada, / No rio profundo mergulhada: / Não será fecunda tua raiz. // Fita no chão o rabisco, o país. / Mira com coragem a alvorada, / Faz do tempo frutuosa jornada.” O coração cioso mas não indolente da velha se comoveu e, querendo a esmo fazer caridade, mandou buscar na praça qualquer infeliz que carecesse de cobertor e comida. Subiu o austero mordomo com o indigente, que deixou cair, enquanto entrava no elevador, uma pequena bolsa, toda cheia de puídos recortes de jornal. A bolsa, leve e redonda, rolou até o hall, onde foi chutada para fora por um pirralho mimado que por ali passava. Na rua, foi parar no pequeno bueiro da esquina, que ficou entupido. Choveu à noite. O bueiro, vedado, não escoou a água daquele fim de quarteirão, impedindo que quatro cãezinhos fossem arrastados para o caudaloso esgoto da metrópole. Encontrados na manhã seguinte pelo entregador de jornal do bairro, conseguiram um lar, ganharam um nome e foram ter as suas férteis gerações de filhotes. Um dos bisnetos destes bassets acabou na casa de uma menininha que padecia de câncer. Athos, o cão, fez a vez dos amigos de infância que Alice teria amealhado se vivesse o primário. Com suas sinceras lambidas, ajudou a salvá-la. A quimioterapia também cumpriu sua missão. Curada, decidiu então ser médica. Queria curar os outros. Jurou com Hipócrates e foi servir a Humanidade, engrossando as fileiras dos Médicos Sem Fronteiras. Enquanto tratava de tuberculosos terminais na Somália, maometanos a arrastaram ao harém-cativeiro. Seqüestrada, pelo celular conseguiu enviar a mais sintética das mensagens aos pais e ao país: “Help me!”. Horas após, uma esquadrilha de F-22 bombardeava os redutos do grupelho jihadista. Sic transit gloria mundi... 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 17 de setembro de 2014)

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