quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Notas pertinentes – III

Notas pertinentes – III

A arte do Neanderthal é superior a tudo o que se tem apresentado de “contemporâneo” na Royal Academy of Arts de Londres, no MAM e em qualquer lugar onde o conceito de artístico seja tido como “toda manifestação humana”. Qualquer cusparada ocre nas paredes das cavernas cantábricas supera em talento, beleza e profundidade espiritual qualquer destes esguichos-e-espirros que o arrematador milionário emergente têm posto burguesamente acima da lareira rococó, ao lado da coleção de pratos de porcelana que pertencera à avozinha de sua nova cocota.

O Ato Falho -- chamado por Freud de Fehlleistung -- nada mais é do que a conceituação psicanalítica, como lapso, daquele célebre dizer do Cristo: “Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mateus 12:34). Toda a sabedoria do Mundo de antanho supera largamente os “eurekas” modernos de Freud, Jung e tutti quanti. Qualquer budinha tibetano, encerrado em escuro claustro lá pelos idos do século VIII, sabia mais da psique humana que estes adoradores de divã e ansiolíticos que clinicam por aí...

Queres conhecer a essência de alguém, perscrutando o âmago da pessoa escolhida até o limiar da alma e do espírito? Mande-a ao piano e deixe-a sozinha com o instrumento pelo tempo suficiente para que, confortável e acostumada com as teclas e algo íntima do pontuado som delas emanado, ela se atreva a compor uma melodia. O que dos dedos naturalmente sair será a síntese mais refinada daquilo que ela carrega no coração. Se de personalidade melancólica, algum noturno de Chopin será sentido; se alegre e jovial, o bailado das valsas de Strauss; se tensa, a Sonata 17 de Beethoven turbará o ambiente. Todos nós temos uma música interior que inconscientemente se expande e dilata.

Na Antiguidade, a falta de chuva era sinal de punição divina. Basta recordar o episódio com o profeta Elias. Pecava o povo e as janelas do céu se fechavam. O sertão virava mar e o mar virava sertão, no dizer de Antônio Conselheiro: Caem sobre o Nordeste dilúvios diários enquanto São Paulo vê minguar suas fontes. O riacho do Ipiranga é agora um borrão vermelho que grita mudo. Terá seriamente pecado o povo bandeirante? Que fez o paulista para merecer a aridez que anuncia racionamento e renite? Após o nosso coletivo mea culpa, talvez “uma pequena nuvem, do tamanho da mão dum homem” (I Reis 18:44) venha molhar o rosto seco dos nossos quatrocentões, carcamanos e caipiras.

Curtidores compulsivos são idiotas compulsórios. Basta postar qualquer trivialidade acompanha de hashtags intelectualmente ocas para que enxames de perfis (gente despersonalizada), em frenesi, curtam sem quase ler, comentem com os “disse tudo!” e compartilhem sistematicamente aquilo que vier de encontro às suas volições, pulsões e ideários impensados. Não ouse discordar: Senão, a matilha virtual criará campanhas contra você e lhe infernizará a vida até o dia em que a Eternidade substituir a timeline. Isto é proto-fascismo de Facebook. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 10 de setembro de 2014)

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