quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O profeta

O profeta

Ainda existem profetas. Há quatro anos, presenciei o austero e exortativo discurso de um deles. Parei o carro no primeiro semáforo da entrada de Catanduva, lá no começo da Avenida São Vicente de Paula. Na esquina à esquerda, um homem alto, de compleição vigorosamente robusta, talvez uns cinqüenta e tantos anos, vestido como outrora se vestiam todos os homens decentes -- de terno bem talhado, naturalmente --, bradava a quem passava, apontando assertivamente com o dedo: “Vocês, os poderosos, hão de prestar contas ao Todo-Poderoso; vocês, que nos fazem de escada, que nos pisam e amassam. Vocês hão de pagar!” Palavras de alguém que, certamente, estudou a Escritura, de alguém que leu e assimilou no próprio espírito a elevada vocação de Isaías, de Jeremias, de Ezequiel, de João Batista... Quem presenciou aquele falar energicamente impetuoso, presenciou o mesmo espírito que animou Elias a enfrentar a fúria de Jezabel e a indolência perniciosa do rei Acabe.

Profeta, anuncia e clama / ao povo rebelde e blasfemo; / dize a quem não ama / que virá fogo sobre o feno. / Profeta, tua língua é espada / que corta pelo Senhor; / derrete ferramenta e enxada / e vai à guerra, ao labor!

A voz do profeta é uma voz de consciência, é a voz do prenuncio de castigos coletivos, de juízos eminentes, de punições corretivas que almejam revolver a terra seca do atrofiado coração humano. Quando um povo perde a alma e se amasia com seus algozes, quando o bem é chamado de mal e o mal é elevado à condição de bem, quando se calam os homens de virtude e as pedras ameaçam clamar, então se levantam da obscuridade de suas existências modestas os profetas. Pastores de ovelhas que pouco ouviam do barulho citadino, como Davi, quietos copeiros exilados em cortes estrangeiras, como Neemias, são chamados a deixar de lado os seus afazeres ordinários, para irem às praças, às ruas, aos valados, às salas reais e defender o bom caminho das “veredas antigas”.

Profeta, anuncia a verdade, / dize que vomitados serão / aqueles que são leviandade; / pois como palha queimarão! / Profeta, cumpre teu ofício / e esperar-te-á o Céu. / Levanta-te contra o ócio / e clama: Shema Yisrael!

O que queria aquele homem, então? Queria dizer alguma coisa a Catanduva e ao seu povo enfeitiçado? Talvez, estivesse apontando a mudez quadrienal dos políticos que, em tempos de eleição, vem tocar seus jingles carnavalescos na porta dos desvalidos. Talvez, falasse das tribunas -- outrora púlpitos da honra! -- transformadas em picadeiros dedicados à mais baixa prosa de peixaria algarviana. Talvez,  ferido por alguma injustiça repentinamente avassaladora do seu próprio coração, nos quisesse lembrar das mudas opressões que se abatem sobre os homens que, silenciosamente virtuosos, um dia abrem a boca e despejam nas ágoras das cidades o juízo que o próprio Deus há de mandar sobre aqueles que escandalizam a Humanidade.

                                                           Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 27 de agosto de 2014)

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