quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sobre os santos

Sobre os santos

O santo não é um super-homem tremendamente sobrenatural que congenitamente se eleva acima dos demais membros da espécie. Ele nasceu criança, não santo, posto que é “homem sujeito às mesmas paixões que nós” (Tiago 5:17). É, portanto, o mais humano dos homens que pisa a terra, mas com a consciência de dela ser, ao mesmo tempo, finita e infinita progressão: o santo sabe que é pó brutalmente levado pelos variados ventos das estações e que é na existência diluído tanto pelo suave orvalho quanto pela turbulenta tempestade; contudo, sabe também que é espírito e que a tumba não poderá aguilhoar-lhe, posto que foi moldado para usufruir a Eternidade e existir para além da matéria deste mundo com prazo de validade.

Mas, quem e como são os santos? Forrest Gump seria um santo. Valdemiro Santiago, não. O príncipe Míchkin seria um santo. Caio Fábio, não. Os santos são distinguidos não pelo muito falar em Deus (Mateus 7:22), não pela sua religiosidade fanaticamente ranheta que a todos quer converter pelo temor do fogo e do enxofre do inferno. Eles são quietamente grandiosos. Imersos na graça de Deus, corrigem o pecador falando do Amor e não lançando mão de impropérios nascidos de ódio justiceiro -- que é pagão. A misericórdia é a pedra de toque da santidade. Os santos não saem à cata das sementes de joio na Terra lançadas, mas deixam-nas germinar até o dia da ceifa. Por isso, não são violentos revolucionários, imediatistas que à força querem instalar o Regnum Dei; afinal, o heroísmo cristão é o martírio e os torquemadas farão companhia ao diabo...

O santo deixa passar o tempo sem medi-lo pelo calendário dos homens. Ele sabe que as coisas acontecem, vêm e vão conforme quer Deus: o kairós transcendente pulveriza o movimento espacial do chronos imanente e faz da vida interior do homem virtuoso o propulsor das coisas externas que com ele se deparam, afinal, “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). Daí, tudo tem significado, todas as coisas desvelam porquês, forças visíveis e invisíveis colaboram uniformemente para dar sentido à vida de quem abraça a cruz. O santo banha-se de ontologia e por isso sua consciência participa do Mistério, não sendo afligido pelas questões que a tantos levaram à loucura. Tudo é paz. Tal como São Luiz Gonzaga, ele “continuaria brincando” mesmo sabendo que passaria ao Além dentro de poucos minutos.

Tampouco é “perfeito” o homem que ingressará no céu ou mesmo o foi aquele que já recebe na terra a honra dos altares. Os santos jamais passaram o limiar da boa sanidade querendo atingir a inatingível perfeição, cuja busca (sempre obsessiva) traz inquietude e perdição. Eles conhecem e distinguem o que é perfeito, mas são alegremente imperfeitos e, nesta condição, diariamente se aperfeiçoam. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 24 de setembro de 2014)

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