quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Elogio do Pardal

Elogio do Pardal

Quem te quererá na gaiola?
Não tens o colorido das aves tropicais e a força das penas da rapina.
Diga-me em qual mito da Antiguidade te pegaram por símbolo.
Que rei te quis na sua heráldica e foi no ouro e na prata cunhar a tua delgada figura?
Quantas canções para ti foram compostas? Vê a andorinha, que “veloz y fatigada” sempre “ritorna tutti gli anni sempre alla stessa data” para os poetas inspirar. Cadê a tua ode?
Voas livre e ninguém sabe do teu longínquo olhar de falcão.
Cantas pelo dia, quando o barulho da existência inautêntica te abafa e o canário, o sabiá e o curió potentes reinam nas suas prisões fartas de alpiste.
Cantas para ti e para os teus. Ao rouxinol deixas o erudito lirismo.
Dormes atentamente à noite, quando a coruja, tua algoz, decide piar sua caçadora filosofia na roça.
És simples. Simples como os modestos homens simples.
Passam as gentes indiferentes a tua singela presença.
Nos fios estendidos pelos postes pousas despretensioso.
No chão seco das praças rastreias os farelos deixados pelos pombos gordos.
Não semeias. Não segas. Não ajuntas em celeiros. Mas o Pai celestial te alimenta.
Quantas poças cheias pelas chuvas e pelas mangueiras plásticas das donas de casas não se tornaram oásis salvadores para o teu bico ofegante?
Quem se preocupou em lançar farelos aos teus filhotes ou com açúcar foi licorar a água, como se faz ao delicado beija-flor?
Teu vôo não se eleva acima do Himalaia.
Não planas como as águias -- altivas e altaneiras.
Bates continuamente as asas por sobre as planícies do interior e arranha-céus da metrópole.
Este teu aconchegante ninho é a palafita dos ares: os pequeninos galhos e os matinhos que encontras, recolhes para transformar em conforto.
Peregrino como os patriarcas semitas, armas passageiras cabanas.
Para quê o pesado, o denso, o amanteigado barro cuspido dos joões?
Não renascerás das cinzas como a Fênix. Mas te perpetuarás pelo fogo vital das tuas gerações, inextinguíveis pelos holocaustos nucleares. Lembra da barata!
O estilingue será apontado e a arapuca armada, porém passarás longe das araras, das codornizes, dos nambus. A flecha não quer ferir a tua pouca carne.
O laço do passarinheiro não é para ti. Corre, faisão! Esconde-te, pavão!
Tu és o pássaro da solitária independência: da marrom melancolia dos dignos obscuros, do cinza anonimato dos trabalhadores.  

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 29 de outubro de 2014)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O Nada Primordial

O Nada Primordial

Convergem a Ciência e a teologia Judaico-Cristã ao afirmarem que tudo foi originado do nada -- ex nihilo. Nada havia e, então, tudo existiu. Os elementos com toda a tabela periódica e o que dela talvez esteja ausente, o carbono e os termos finais do átomo, toda matéria enfim, passaram a ser. “Num momento, num abrir e fechar de olhos”, eis o todo. Apenas Elohim era, posto que eterno -- logo, auto-existente. Todo o mais começou a ser, principiou a ser ente. Alguns entes, todavia, permanecem para sempre (o homem tricotômico imortal, p.ex., cuja pisadura final é a Eternidade), enquanto outros fenecem definitivamente (submissos à avassaladora Entropia).

Tudo o que tem e tudo o que não tem vida, tudo o que existe visível e ocultamente, tudo o quê é energia e impõe movimento e também tudo aquilo que é estático, tudo o que se deixa afetar e dirigir pelas leis físicas, ou seja, tudo o que é contido nas quatro paredes da Realidade passou a existir. Tudo o que existe, portanto, é uma substituição posterior do nada anterior. Mas não é uma substituição plena, integral e totalizante, como que indicando fisicalidade. É uma substituição “ocupante” de um vácuo-que-não-era-algo-em-si. Não foi um cálice que foi cheio. Mas um cálice que se encetou para que, depois, a uva fosse dilacerada no lagar do Universo, do qual o homem é o fermentador.

Um exemplo. Qualquer objeto manufaturado traz consigo duas origens negativas do ente e do ser: 1º aquele estado secundário que o retirou da deformidade inscrita na matéria-prima (a argila moldada em vaso, p.ex) e 2º aquele estado primário que fez emergir a própria matéria-prima pelo divino “fiat!” e talvez, quem sabe e prova?, pelo científico Big Bang. Portanto, todas as coisas têm apegadas ao ser o não-ser. Recordando Heidegger, “O nada não permanece o indeterminado oposto do ente, mas se desvela como pertencente ao ser do ente.”

Quando e como pode o homem contatar o nada, sentindo-o? Quando a angústia o tomar, arrebatando-o dos significados imediatos do Mundo. Quando das coisas não restarem senão vagas linhas perdidas no vácuo das ilusões. Quando na mente e no coração dominar o “abismo intapável” pelos tentadores manjares que nos oferece o Sistema. Então, o não-ser se fará anunciar pelos clarins da consciência tocada por aquilo que, antes de todas as coisas, antecipava a obra criadora do Logos. Quando o ser esvazia-se, pulverizando aquilo que nas coisas é discernível e legível, então o homem vai olhar, diante do espelho da própria consciência irrefletível, o Nada Primordial. 

Apenas em Deus não há qualquer vestígio do nada. Somente aquilo que teve início é pespegado ao não-ser e, por isso, tem latente em si o Insignificado. Em todo o homem doerá, mais dia, menos dia, a chaga da angustia suspensória que o tornará ciente da total não-consciência anterior. Portanto, estão cheios de razão os cristãos: “Existe no homem um vazio do tamanho de Deus”, no dizer de Dostoiévski, que é o abismo do nada, o abismo da vacuidade existencial. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 22 de outubro de 2014)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Notas pertinentes – IV

Notas pertinentes – IV

O palavrório mundano abafa a Palavra no/do Mundo. O cochicho, o falatório, o bate-papo, a conversa fiada, enfim, a maquinal e insignificante “gastação” de saliva opõe-se ao Logos, que é o Verbo significante. Há muita conversação e pouco diálogo. Fala-se muito e diz-se pouco. Mecanicamente o homem usa a língua e o palato para tornar comunicáveis os anseios de sua carne, mas está mudo para os significados profundos e essenciais de seu espírito. A língua desceu ao nível da caverna: como outrora sons primitivos regiam a relação entre os homens, hoje a linguagem é mero regurgitar informativo, mera ida e vinda de causas e efeitos gerados na boca de autômatos inautênticos.

Não há homem mais passível de amargura e rancor que o sonhador altruísta que vê seus sonhos serem sistematicamente frustrados. Quem se permite produzir e sustentar ideais cuja elevação às vezes se sobrepõe a realidade possível, enfrentará não apenas as greis inimigas sempre prontas a menear a cabeça em pessimista desaprovação, mas batalhará contra “os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Efésios 6:12). Daí, é tênue o passo entre o amor desmedido pelas causas defendidas em favor do próximo e a desesperança criadora de ódio destinado àqueles próximos que se fazem “pedra no meio do caminho” do sonhador.

O autoritário é o sujeito cujos medos e dúvidas o dominam a tal ponto que ele quer e precisa dominar os outros para que estes, escravizados, digam constantes améns às suas opiniões e, assim, pelo retumbante placet desta maioria que ele mesmo forjou, sinta acalmadas as suas patológicas contradições internas. É o oleiro que transpõe suas deformidades internas para o exércitozinho de pinóquios de barro que ele cria e submete. Não é à toa que o autoritário é também um fanático; o perigoso fanático que, no dizer de Chesterton, “é o homem que acha que o outro está errado em tudo, por estar errado em alguma coisa”.

Existem duas grandes modalidades de barbárie: a Animalesca e a Meta-niilista. A primeira surge de um estado no qual impera o inconsciente instinto de auto-preservação, logo, trata-se de um contexto semi-civilizado em termos de domínio da técnica, da religião e da alta-cultura. Há guerra entre sociedade e indivíduos. O dia-a-dia das violências brasileiras é assim. A segunda nasce de uma mentalidade racionalista e pós-civilizatória mais-ou-menos tornada senso comum que, tendo pretensamente descoberto as origens dos instintos humanos (pelo Darwinismo, p.ex.), conscientemente os repele como “reminiscências evolucionárias”. Há guerra entre indivíduo(s) e indivíduo(s). Os canibais alemães que arregimentam e selecionam seu auto-oferecido menu gastronômico por meio das redes sociais são assim. Não existem bons selvagens, Rousseau! Homo homini lupus...

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 15 de outubro de 2014)

domingo, 12 de outubro de 2014

O que vos digo em voz baixa

Estes castelos que 
nos ares construíste,
à terra descerão 
pedra por pedra.
O feudo da tua alma 
será burgo no mundo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Conhecimento: limites marcados

Conhecimento: limites marcados

Homem algum é capaz de conter a plena verdade do mundo. Ninguém discerne a realidade “das coisas visíveis e invisíveis” assim como ela é. Somos espelho quebrado refletindo espasmos de luz, fagulhas dispersas que se apressam a contornar significados mais refulgentes e palpáveis. Somos uma clareira em meio ao infinito-que-se-acrescenta da “selva oscura” universal. Podemos compreender um sistema -- específico --, não O Sistema -- completo. É infértil a vontade de perscrutar a integralidade de todas as coisas e do todo que tudo sustenta. Por isso existem os mistérios das coisas encobertas: para que se revelem outras, as descobertas. 

Entendemos o localizado e compreendemos sua extensão local. O cérebro é limitado, logo, delimita a mente. As estruturas neurais (como cálice da alma) reverberando nossos afetos, nossas volições mais primitivas bailando a valsa da psique com nosso espírito refletor da Divindade, o arroz-com-feijão do almoço afetando nosso humor, relâmpagos da memória interligando o que fomos ao que somos e retro-catapultando o que seremos, qualquer “furtiva lagrima” rolando silenciosa ao cabo da madrugada, enfim, os acontecimentos internos e externos que causam seus efeitos no homem, vêm colorir de maneira específica a nossa [cosmo]visão. Colorido prismático de realidade pura, não de turbado dégradé da percepção pessoal.


Não se trata, portanto, de uma reformulação da leviandade moral e intelectual do Subjetivismo, procriador sistêmico do Relativismo. Não há aqui paralelo algum com aquele gasto e desgastado exemplo sub-ginasiano do elefante analisado por cegos pelas suas partes e por elas tido como o todo. Isso diz respeito às minúcias grandes, médias e pequenas que se escondem a uns, que surgem a alguns “sotto il velame delli versi strani” das intuições e infusões de sapiência, e a outros se revelam por completo quando ardem as sarças da razão primordial. Tampouco tal se aplica às estruturas básicas que alicerçam a Criação e que o Senso Comum expõe em provérbios, ditos, tradições e idéias que, pela Lei Natural, estão esculpidas no coração de todos os filhos de Adão. Trata-se do mundo que o Eterno pôs “no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim” (Eclesiastes 3:11).


Todo homem domina algum conhecimento -- alguma intuição discernitiva da realidade, na maioria das vezes -- que os demais desconhecem parcial ou completamente. Em muito chega-se às mesmas conclusões, às mesmas idéias e ideais, aos mesmos formatos e conteúdos teóricos e hipotéticos. No entanto, algo sempre escapa no plus ultra das consciências que se expandem pela palavra-pensada. Todo homem é, por isso, superior e inferior ao seu próximo. Todos nós somos senhores e servos da cognição alheia quando ela rastreia as marcas do Tao pulverizadas pelo Estabelecido. Apenas a Humanidade na sua reunião unitiva de conhecimentos individuais ousa aproximar-se da inteira Gnose.

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 8 de outubro de 2014)


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Luceat eis

Bela é a luz, luz mansa,
quando revela no ar
o átomo na partícula.
Faz brilhar a poeira
quando se abre a janela. 

Vede aí a fina fresta,
tua liberdade:
a medida que eleva
à visão o pequeno,
o silencioso ativo. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Comentários sobre o Reino de Tonga -- I

Comentários sobre o Reino de Tonga -- I

Em 1831, pouco mais de três décadas após terem iniciado a evangelização dos povos polinésios, missionários ingleses de confissão Metodista conseguiram converter o nativo príncipe-guerreiro Tāufa’āhau. Daí, de acordo com o antigo princípio que afirma que a religião do príncipe deve ser a religião de seu povo, toda Tonga agregou-se ao aprisco do Evangelho. (Há nisto certo paralelo com a chegada do apóstolo Paulo em Malta.) Em 1845, o dantes chefe tribal pagão foi ungido rei, Dei Gratia, como outrora o franco Clóvis. As tribos das ilhas foram definitivamente unificadas e, enfim, tornaram-se Reino.

A liturgia e a cultura locais foram refeitas sob os auspícios da “pomp and circumstance” que imantam a realeza da antiga Albion. Até no nome os Tupou decidiram imitar os monarcas ingleses: ficaram sendo Siaosi, a versão tonganesa do prenome Jorge -- nome dos dinastas hanoverianos de então. Foram criados uma bandeira (que recorda a de Malta) e um estilizado brasão de armas. Vê-se na coroa real finamente ourivesada, uma das mais pesadas peças da regalia mundial, a flor-de-lis que os soberanos britânicos ostentam desde os tempos da Guerra das Cem Anos. Tudo encimado pela cruz, a cruz que, segundo o altaneiro mote dos cartuxos, permanece firme enquanto o mundo (representado pelo orbe) gira.

Ordens de cavalaria, segundo o modelo europeu, foram e ainda têm sido fundadas. A primeira, criada por Jorge Tupou II, foi a Real Ordem do Puono, em 1893; a última, a Ordem da Fênix, foi erigida por seu bisneto Jorge Tupou V em 2010. Um meticuloso cerimonial de ingresso é preparado para armar um novo cavaleiro. Entre os saiotes confeccionados com as folhas das palmeiras que abundantemente crescem nas ilhas e as marciais danças cerimoniais que acompanham praticamente todos os acontecimentos oficiais, é possível discernir a liturgia que armou cavaleiro ao rei Ricardo “Coração de Lei” e, na alma fecundamente transtornada, fez de Dom Quixote um valoroso “hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor”.

Quem puser os olhos em Nuku’alofa, a capital do país, imediatamente se recordará da bela Celesteville, a cidade-estado de Babar, rei dos elefantes. Lembram-se da obra de Jean de Brunhoff, que a TV Cultura diariamente põe na tela sob o formato de desenho animado? Sob a tutela da Senhora (Rule, Britannia! rule the waves), Babar é educado na metrópole e, tendo adquirido os instrumentos culturais da Civilização, vai estabelecer uma monarquia hereditária de tipo ocidental entre seus conterrâneos -- que elegiam seus líderes entre os mais fortes e robustos guerreiros. Impossível negar as similaridades entre a ficção infantil e a adulta realidade.

Já se contam cinco reis e uma rainha -- seis fidei defensor -- desde a promulgação de sua constituição em 1875. De população três vezes maior que a do pequeno e apóstata Principado de Mônaco, Tonga é uma nação que soube conciliar suas tradições indígenas mais belas e genuinamente ancestrais com as benesses todas da Cristandade. Houve em Tonga um completo e acabado influxo civilizacional, de “encontro dual” dir-se-ia: o oceano primeiramente ligou fisicamente e depois interligou espiritualmente os povos, hoje membros da Commonwealth.  
Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 1 de outubro de 2014)