quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Comentários sobre o Reino de Tonga -- I

Comentários sobre o Reino de Tonga -- I

Em 1831, pouco mais de três décadas após terem iniciado a evangelização dos povos polinésios, missionários ingleses de confissão Metodista conseguiram converter o nativo príncipe-guerreiro Tāufa’āhau. Daí, de acordo com o antigo princípio que afirma que a religião do príncipe deve ser a religião de seu povo, toda Tonga agregou-se ao aprisco do Evangelho. (Há nisto certo paralelo com a chegada do apóstolo Paulo em Malta.) Em 1845, o dantes chefe tribal pagão foi ungido rei, Dei Gratia, como outrora o franco Clóvis. As tribos das ilhas foram definitivamente unificadas e, enfim, tornaram-se Reino.

A liturgia e a cultura locais foram refeitas sob os auspícios da “pomp and circumstance” que imantam a realeza da antiga Albion. Até no nome os Tupou decidiram imitar os monarcas ingleses: ficaram sendo Siaosi, a versão tonganesa do prenome Jorge -- nome dos dinastas hanoverianos de então. Foram criados uma bandeira (que recorda a de Malta) e um estilizado brasão de armas. Vê-se na coroa real finamente ourivesada, uma das mais pesadas peças da regalia mundial, a flor-de-lis que os soberanos britânicos ostentam desde os tempos da Guerra das Cem Anos. Tudo encimado pela cruz, a cruz que, segundo o altaneiro mote dos cartuxos, permanece firme enquanto o mundo (representado pelo orbe) gira.

Ordens de cavalaria, segundo o modelo europeu, foram e ainda têm sido fundadas. A primeira, criada por Jorge Tupou II, foi a Real Ordem do Puono, em 1893; a última, a Ordem da Fênix, foi erigida por seu bisneto Jorge Tupou V em 2010. Um meticuloso cerimonial de ingresso é preparado para armar um novo cavaleiro. Entre os saiotes confeccionados com as folhas das palmeiras que abundantemente crescem nas ilhas e as marciais danças cerimoniais que acompanham praticamente todos os acontecimentos oficiais, é possível discernir a liturgia que armou cavaleiro ao rei Ricardo “Coração de Lei” e, na alma fecundamente transtornada, fez de Dom Quixote um valoroso “hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor”.

Quem puser os olhos em Nuku’alofa, a capital do país, imediatamente se recordará da bela Celesteville, a cidade-estado de Babar, rei dos elefantes. Lembram-se da obra de Jean de Brunhoff, que a TV Cultura diariamente põe na tela sob o formato de desenho animado? Sob a tutela da Senhora (Rule, Britannia! rule the waves), Babar é educado na metrópole e, tendo adquirido os instrumentos culturais da Civilização, vai estabelecer uma monarquia hereditária de tipo ocidental entre seus conterrâneos -- que elegiam seus líderes entre os mais fortes e robustos guerreiros. Impossível negar as similaridades entre a ficção infantil e a adulta realidade.

Já se contam cinco reis e uma rainha -- seis fidei defensor -- desde a promulgação de sua constituição em 1875. De população três vezes maior que a do pequeno e apóstata Principado de Mônaco, Tonga é uma nação que soube conciliar suas tradições indígenas mais belas e genuinamente ancestrais com as benesses todas da Cristandade. Houve em Tonga um completo e acabado influxo civilizacional, de “encontro dual” dir-se-ia: o oceano primeiramente ligou fisicamente e depois interligou espiritualmente os povos, hoje membros da Commonwealth.  
Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 1 de outubro de 2014)

Nenhum comentário: