quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Conhecimento: limites marcados

Conhecimento: limites marcados

Homem algum é capaz de conter a plena verdade do mundo. Ninguém discerne a realidade “das coisas visíveis e invisíveis” assim como ela é. Somos espelho quebrado refletindo espasmos de luz, fagulhas dispersas que se apressam a contornar significados mais refulgentes e palpáveis. Somos uma clareira em meio ao infinito-que-se-acrescenta da “selva oscura” universal. Podemos compreender um sistema -- específico --, não O Sistema -- completo. É infértil a vontade de perscrutar a integralidade de todas as coisas e do todo que tudo sustenta. Por isso existem os mistérios das coisas encobertas: para que se revelem outras, as descobertas. 

Entendemos o localizado e compreendemos sua extensão local. O cérebro é limitado, logo, delimita a mente. As estruturas neurais (como cálice da alma) reverberando nossos afetos, nossas volições mais primitivas bailando a valsa da psique com nosso espírito refletor da Divindade, o arroz-com-feijão do almoço afetando nosso humor, relâmpagos da memória interligando o que fomos ao que somos e retro-catapultando o que seremos, qualquer “furtiva lagrima” rolando silenciosa ao cabo da madrugada, enfim, os acontecimentos internos e externos que causam seus efeitos no homem, vêm colorir de maneira específica a nossa [cosmo]visão. Colorido prismático de realidade pura, não de turbado dégradé da percepção pessoal.


Não se trata, portanto, de uma reformulação da leviandade moral e intelectual do Subjetivismo, procriador sistêmico do Relativismo. Não há aqui paralelo algum com aquele gasto e desgastado exemplo sub-ginasiano do elefante analisado por cegos pelas suas partes e por elas tido como o todo. Isso diz respeito às minúcias grandes, médias e pequenas que se escondem a uns, que surgem a alguns “sotto il velame delli versi strani” das intuições e infusões de sapiência, e a outros se revelam por completo quando ardem as sarças da razão primordial. Tampouco tal se aplica às estruturas básicas que alicerçam a Criação e que o Senso Comum expõe em provérbios, ditos, tradições e idéias que, pela Lei Natural, estão esculpidas no coração de todos os filhos de Adão. Trata-se do mundo que o Eterno pôs “no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim” (Eclesiastes 3:11).


Todo homem domina algum conhecimento -- alguma intuição discernitiva da realidade, na maioria das vezes -- que os demais desconhecem parcial ou completamente. Em muito chega-se às mesmas conclusões, às mesmas idéias e ideais, aos mesmos formatos e conteúdos teóricos e hipotéticos. No entanto, algo sempre escapa no plus ultra das consciências que se expandem pela palavra-pensada. Todo homem é, por isso, superior e inferior ao seu próximo. Todos nós somos senhores e servos da cognição alheia quando ela rastreia as marcas do Tao pulverizadas pelo Estabelecido. Apenas a Humanidade na sua reunião unitiva de conhecimentos individuais ousa aproximar-se da inteira Gnose.

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 8 de outubro de 2014)


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