quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Notas pertinentes – IV

Notas pertinentes – IV

O palavrório mundano abafa a Palavra no/do Mundo. O cochicho, o falatório, o bate-papo, a conversa fiada, enfim, a maquinal e insignificante “gastação” de saliva opõe-se ao Logos, que é o Verbo significante. Há muita conversação e pouco diálogo. Fala-se muito e diz-se pouco. Mecanicamente o homem usa a língua e o palato para tornar comunicáveis os anseios de sua carne, mas está mudo para os significados profundos e essenciais de seu espírito. A língua desceu ao nível da caverna: como outrora sons primitivos regiam a relação entre os homens, hoje a linguagem é mero regurgitar informativo, mera ida e vinda de causas e efeitos gerados na boca de autômatos inautênticos.

Não há homem mais passível de amargura e rancor que o sonhador altruísta que vê seus sonhos serem sistematicamente frustrados. Quem se permite produzir e sustentar ideais cuja elevação às vezes se sobrepõe a realidade possível, enfrentará não apenas as greis inimigas sempre prontas a menear a cabeça em pessimista desaprovação, mas batalhará contra “os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Efésios 6:12). Daí, é tênue o passo entre o amor desmedido pelas causas defendidas em favor do próximo e a desesperança criadora de ódio destinado àqueles próximos que se fazem “pedra no meio do caminho” do sonhador.

O autoritário é o sujeito cujos medos e dúvidas o dominam a tal ponto que ele quer e precisa dominar os outros para que estes, escravizados, digam constantes améns às suas opiniões e, assim, pelo retumbante placet desta maioria que ele mesmo forjou, sinta acalmadas as suas patológicas contradições internas. É o oleiro que transpõe suas deformidades internas para o exércitozinho de pinóquios de barro que ele cria e submete. Não é à toa que o autoritário é também um fanático; o perigoso fanático que, no dizer de Chesterton, “é o homem que acha que o outro está errado em tudo, por estar errado em alguma coisa”.

Existem duas grandes modalidades de barbárie: a Animalesca e a Meta-niilista. A primeira surge de um estado no qual impera o inconsciente instinto de auto-preservação, logo, trata-se de um contexto semi-civilizado em termos de domínio da técnica, da religião e da alta-cultura. Há guerra entre sociedade e indivíduos. O dia-a-dia das violências brasileiras é assim. A segunda nasce de uma mentalidade racionalista e pós-civilizatória mais-ou-menos tornada senso comum que, tendo pretensamente descoberto as origens dos instintos humanos (pelo Darwinismo, p.ex.), conscientemente os repele como “reminiscências evolucionárias”. Há guerra entre indivíduo(s) e indivíduo(s). Os canibais alemães que arregimentam e selecionam seu auto-oferecido menu gastronômico por meio das redes sociais são assim. Não existem bons selvagens, Rousseau! Homo homini lupus...

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 15 de outubro de 2014)

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