quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O Nada Primordial

O Nada Primordial

Convergem a Ciência e a teologia Judaico-Cristã ao afirmarem que tudo foi originado do nada -- ex nihilo. Nada havia e, então, tudo existiu. Os elementos com toda a tabela periódica e o que dela talvez esteja ausente, o carbono e os termos finais do átomo, toda matéria enfim, passaram a ser. “Num momento, num abrir e fechar de olhos”, eis o todo. Apenas Elohim era, posto que eterno -- logo, auto-existente. Todo o mais começou a ser, principiou a ser ente. Alguns entes, todavia, permanecem para sempre (o homem tricotômico imortal, p.ex., cuja pisadura final é a Eternidade), enquanto outros fenecem definitivamente (submissos à avassaladora Entropia).

Tudo o que tem e tudo o que não tem vida, tudo o que existe visível e ocultamente, tudo o quê é energia e impõe movimento e também tudo aquilo que é estático, tudo o que se deixa afetar e dirigir pelas leis físicas, ou seja, tudo o que é contido nas quatro paredes da Realidade passou a existir. Tudo o que existe, portanto, é uma substituição posterior do nada anterior. Mas não é uma substituição plena, integral e totalizante, como que indicando fisicalidade. É uma substituição “ocupante” de um vácuo-que-não-era-algo-em-si. Não foi um cálice que foi cheio. Mas um cálice que se encetou para que, depois, a uva fosse dilacerada no lagar do Universo, do qual o homem é o fermentador.

Um exemplo. Qualquer objeto manufaturado traz consigo duas origens negativas do ente e do ser: 1º aquele estado secundário que o retirou da deformidade inscrita na matéria-prima (a argila moldada em vaso, p.ex) e 2º aquele estado primário que fez emergir a própria matéria-prima pelo divino “fiat!” e talvez, quem sabe e prova?, pelo científico Big Bang. Portanto, todas as coisas têm apegadas ao ser o não-ser. Recordando Heidegger, “O nada não permanece o indeterminado oposto do ente, mas se desvela como pertencente ao ser do ente.”

Quando e como pode o homem contatar o nada, sentindo-o? Quando a angústia o tomar, arrebatando-o dos significados imediatos do Mundo. Quando das coisas não restarem senão vagas linhas perdidas no vácuo das ilusões. Quando na mente e no coração dominar o “abismo intapável” pelos tentadores manjares que nos oferece o Sistema. Então, o não-ser se fará anunciar pelos clarins da consciência tocada por aquilo que, antes de todas as coisas, antecipava a obra criadora do Logos. Quando o ser esvazia-se, pulverizando aquilo que nas coisas é discernível e legível, então o homem vai olhar, diante do espelho da própria consciência irrefletível, o Nada Primordial. 

Apenas em Deus não há qualquer vestígio do nada. Somente aquilo que teve início é pespegado ao não-ser e, por isso, tem latente em si o Insignificado. Em todo o homem doerá, mais dia, menos dia, a chaga da angustia suspensória que o tornará ciente da total não-consciência anterior. Portanto, estão cheios de razão os cristãos: “Existe no homem um vazio do tamanho de Deus”, no dizer de Dostoiévski, que é o abismo do nada, o abismo da vacuidade existencial. 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 22 de outubro de 2014)

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