quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O paraíso são os outros

O paraíso são os outros

Teu pai olhou amorosamente para a tua mãe: Eles foram uma só carne e, então, nasceste como Sete nasceu. Tuas avós trocaram as tuas primeiras e mais sujas fraldas e cantarolaram noites inteiras ao lado do teu berço, pelas mesmas mãos enrugadas balançado. Os braços das tuas tias ninaram-te e as tuas fartas bochechas foram por elas amorosamente apertadas. Deram-te as primeiras vacinas pelas mais finas e frias agulhas -- choraste, mas não padeceste a gélida e metálica dor de morte. O pão nosso de cada dia virtuosamente trabalharam para ganhar e nas tuas papinhas de maçãs e peras, de batatas e cenouras amassadas depositaram o suor do mais honrado labor. Tiveste teto e lar, segurança e conforto, zelo e carinho.

Guiaram-te os primeiros passos e, entre os vacilos e leves quedas no felpudo tapete da sala de estar, ensinaram-te a dignidade de se por em pé. Teus longos e muitas vezes agitados banhos com brincalhona espuma prepararam e por tantos anos as suaves mãos de tua mãe limparam a lama dos castelinhos que, feito um cruzado bolonhês às portas de Jerusalém, construías e sitiavas no quintal. Caias de bicicleta e jogando futebol, machucavas os braços, os joelhos, o rosto e... alguém logo vinha, correndo, passar o ardido Merthiolate nas feridas. Querias falar palavrão quando te injustiçavam os primos na escolha do time ou quando te pegavam no “pulo”, tentando abocanhar o bolo de abacaxi antes do almoço? Uma bendita mão a calava com um prudente tapinha, ensinando que “nesta família não se falam essas coisas, porque é feio”.

No poder das palavras, escritas e lidas, num quadro negro te iniciaram ensinando o bê-á-bá. Das quatro operações matemáticas à Teoria da Relatividade, das pátrias datas que decoraste com a tia da segunda série à historiografia dos Annales estudada na faculdade: Tudo o que sabes veio do próximo, dos outros de hoje e dos outros do vasto ontem da noite dos tempos. O grande e vistoso diploma pintado pela mão do artista analfabeto em pele de carneiro, que depuseram os mestres nas tuas mãos, ganhaste na solidão absoluta do teu ser? Não... “No man is an island / Entire of itself, / Every man is piece of the continent, / A part of the main.”

Um trabalho te ofertaram. Aceitaste. E também aceitou a aliança de ouro a moça para quem olhaste. A vida que agora tens, esta tua existência pessoal que na biologia com suas economias hoje manténs, é por acaso uma vida que não é parte da vida-maior que pelos outros aflora? Dependes do outro para gargalhar, rir e sorrir -- cujo valor aprendeste em choro, birra e silenciosa tristeza. Mais te indago: E sobre o Cristo, quem te contou? Alguém obedeceu ao “Ide!” e veio te anunciar as boas novas do Filho de Deus. Não te batizastes. Batizaram-te. Quem e o quê és sem o próximo? Olha para o mundo, o teu interno e o resto externo. Que existe que não tenha as marcas dos dedos ou do espírito dum outro alguém?

Sartre, faladora jumenta de Marx e saltitante poodle de Stalin, escuta: O paraíso são os outros!

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 12 de novembro de 2014)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Urim e Tumim

Luziu na treva qualquer pensamento,
qualquer palavra saradora, unguento
da ignorância, eternidade no momento? 
Acendei os faróis, jogai à chama
o último graveto, o último rabisco,
a última esperança de quem ama.
Ao céu apontará o final obelisco
da humana arrogância, desta Babel
de loucura; então, se ouvirá o lamento. 

Martelado o sinete da perfeição,
veio pousar junto ao humano coração
o Saber, a inteligente consolação. 
Será rastro puro da verdade
esta giratória probabilidade? 
Confiai, confiai que a polida pedra
vos dará a decisão que o futuro medra:
temerá o homem e tremerá a terra.
Afinal se ouvirá contentamento. 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Dois comentários

Dois comentários

Governar soberbamente milhões de almas (como queriam Nabucodonosor, Napoleão, Hitler, e ainda querem tantos outros indivíduos patologicamente sedentos de poder) não é, em si, glorioso; afinal, “Não será assim entre vós: mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; e, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo.” (Mateus 20:26-27). Gerar uma feliz e pacífica família cheiinha de filhos e netos é glorioso. Semear todo um jardim, cuja plenitude de beleza e esplendor se notará apenas nas gerações vindouras, é glorioso. É vaidade das mais infernais o querer elevar-se acima do próximo e dos próximos, como que pretendendo ser tutor dos escolhíveis destinos de alguém e das multidões. Uma existência dedicada ao exercício puramente hedonista do krátos será espiritualmente infértil, por mais que se perpetue o nome do governante, pelos logradouros e livros, até a consumação dos séculos. Nenhum triunfo público compensará fracassos privados, afinal, Davi fez guerra a Absalão. No entanto, uma vida pacificamente dedicada à fecundidade de uma silenciosa vocação familiar é fonte de abundante alegria, felicidade e gozo capazes de dar ao caminhar humano a mais firme e opulenta saciedade existencial -- que é consciência do Significado --, por mais que o bom pai e o bom avô apenas sejam lembrados até quando tombar à terra o último dos seus rebentos.

De que serve conhecer Shakespeare para além do apurado eruditismo de uma Bárbara Heliodora, citar e recitar Dante em perfeito dialeto toscano do século XIV, ter na memória “Os Lusíadas” desde “As armas e os barões assinalados” até “Sem à dita de Aquiles ter enveja”, ter lido de Goethe até os bilhetes enviados às suas muitas e belas musas, ter na estante todas as luxuosas edições de Cervantes se... na vida o homem não se deixar conduzir às duvidosas questões do “ser ou não ser”, se não se puder amar na mente e na carne uma Beatriz, se não se preparar grandiosas epopéias e heroísmos à partir das lutas diárias da Pátria, se não se dedicar tempo proveitoso às tempestades e ímpetos que se sucedem na alma, se não quiser utopicamente ir brandir sua enferrujada lança contra o Frestão da cética desesperança? Dois pobres favelados se envolverão tal qual Romeu e Julieta, pois “Cupid, he rules us all”; um qualquer político jovem e idealista será exilado do seu Uruguai, entre as férreas disputas de blancos e colorados; batalhões de Moshe Dayan perderão os olhos batendo-se pelas causas da terrinha (seja ela Sião ou Portugal); um afamado ator hollywoodiano abandonará os sets para ir aproveitar a alegria de uma vida simples; um velhinho, no asilo, se apaixonará pela grosseira cozinheira que diariamente enche sua bandeja, fazendo-a “virtuosa, emperatriz de La Mancha, de sin par y sin igual belleza”; e tu, que fazes do tempo que o Eterno te concedeu? 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 5 de novembro de 2014)

domingo, 2 de novembro de 2014

João IX

Outra vez vieste à terra.
Ajoelhado, tomaste mais pó;
mais pó para o meu pó.
O Espírito pairou sobre a saliva
e no lodo do teu globo terreno
o globo dos meus olhos formaste. 
Disseste: percebe que do informe
trago forma ao malformado,
e o pulverizado uno em força,
untando a cegueira do homem
com a visão da Humanidade. 
Energia coagulada é o Universo,
mas tu, humano, és pó coagulado.