quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Dois comentários

Dois comentários

Governar soberbamente milhões de almas (como queriam Nabucodonosor, Napoleão, Hitler, e ainda querem tantos outros indivíduos patologicamente sedentos de poder) não é, em si, glorioso; afinal, “Não será assim entre vós: mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; e, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo.” (Mateus 20:26-27). Gerar uma feliz e pacífica família cheiinha de filhos e netos é glorioso. Semear todo um jardim, cuja plenitude de beleza e esplendor se notará apenas nas gerações vindouras, é glorioso. É vaidade das mais infernais o querer elevar-se acima do próximo e dos próximos, como que pretendendo ser tutor dos escolhíveis destinos de alguém e das multidões. Uma existência dedicada ao exercício puramente hedonista do krátos será espiritualmente infértil, por mais que se perpetue o nome do governante, pelos logradouros e livros, até a consumação dos séculos. Nenhum triunfo público compensará fracassos privados, afinal, Davi fez guerra a Absalão. No entanto, uma vida pacificamente dedicada à fecundidade de uma silenciosa vocação familiar é fonte de abundante alegria, felicidade e gozo capazes de dar ao caminhar humano a mais firme e opulenta saciedade existencial -- que é consciência do Significado --, por mais que o bom pai e o bom avô apenas sejam lembrados até quando tombar à terra o último dos seus rebentos.

De que serve conhecer Shakespeare para além do apurado eruditismo de uma Bárbara Heliodora, citar e recitar Dante em perfeito dialeto toscano do século XIV, ter na memória “Os Lusíadas” desde “As armas e os barões assinalados” até “Sem à dita de Aquiles ter enveja”, ter lido de Goethe até os bilhetes enviados às suas muitas e belas musas, ter na estante todas as luxuosas edições de Cervantes se... na vida o homem não se deixar conduzir às duvidosas questões do “ser ou não ser”, se não se puder amar na mente e na carne uma Beatriz, se não se preparar grandiosas epopéias e heroísmos à partir das lutas diárias da Pátria, se não se dedicar tempo proveitoso às tempestades e ímpetos que se sucedem na alma, se não quiser utopicamente ir brandir sua enferrujada lança contra o Frestão da cética desesperança? Dois pobres favelados se envolverão tal qual Romeu e Julieta, pois “Cupid, he rules us all”; um qualquer político jovem e idealista será exilado do seu Uruguai, entre as férreas disputas de blancos e colorados; batalhões de Moshe Dayan perderão os olhos batendo-se pelas causas da terrinha (seja ela Sião ou Portugal); um afamado ator hollywoodiano abandonará os sets para ir aproveitar a alegria de uma vida simples; um velhinho, no asilo, se apaixonará pela grosseira cozinheira que diariamente enche sua bandeja, fazendo-a “virtuosa, emperatriz de La Mancha, de sin par y sin igual belleza”; e tu, que fazes do tempo que o Eterno te concedeu? 

Artigo publicado no "Diário da Região - Catanduva" (Edição de 5 de novembro de 2014)

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