sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Desencantado [letra de música]

para a melodia de "Nadau"

Vim cortar capim e comer pão.
Não encontro nenhum sentido. 
Depois da briga peguei estrada
E corri nu pelas serras e vales.
Vim cortar capim e comer pão.
Não sei se subo ou me arribo.
Qual é o caminho, por piedade?
Por qual caminho posso correr?
Em qual dos caminhos tu crês? 
Já não sei qual é o meu nome. 
Chamam-me “O Desencantado”. 
E então me esqueci do passado 
Para me lembrar do dia de hoje. 
Já não sei qual é o meu nome. 
Chamam-me “O Desencantado”.
Oh, relógio que me fazia pensar,
Agora não sei se é dia ou noite.

Esqueci-me dos meus amigos
Para não ter que dizer adeus. 
Quanto a ti, meu amigo Deus, 
Querem me entregar ao inimigo.
Hoje eu quero ver a lua descer, 
Para a tua santa igreja baixar. 
Quando eu me passar para lá
Vou mandar um cartão-postal.

Aqui na terra queima o sol. 
Corro atrás dos rios claros. 
O terreno já está capinado.
Com luz foi todo semeado. 
Não haverá fim sem o pão. 
Não quero o teu rico anel. 
Eu só quero meus prados. 
Enquanto cantam os serafins,
Todos os anos recolho nos ares. 
Já não sei qual é o meu nome. 
Chamam-me “O Desencantado”.
Não quero ser o mais grande rei.
Quero ser peregrino e encantar. 
Já não sei qual é o meu nome. 
Chamam-me “O Desencantado”.
Quero mais a solidão de calar
Que com discurso importunar.

Esqueci-me dos meus amigos
Para não ter que dizer adeus. 
Quanto a ti, meu amigo Deus, 
Querem me entregar ao inimigo.
Hoje eu quero ver a lua descer, 
Para a tua santa igreja baixar. 
Quando eu me passar para lá
Vou mandar um cartão-postal.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Canção do Trovador [letra de música]

para a melodia da "Tarantella del Gargano"
Sete segundos no paraíso estive
Quando pousaram os teus olhos
Sete longos segundos nos meus. 
Bem me quer!

Por que desviastes assim o olhar
Quando na multidão te encontrei?
Com o tição cegaste minha visão.
Mal me quer...

Ouvi tua confidência cochichada
Às amigas quando o passo final
Da última quadrilha tu dançavas.
Bem me quer!

“Oh, aquele bobo”, também dizes
Quando outro qualquer te chama
Para bailar a Volta tão ofegante.
Mal me quer...

Mandaste-me teu lenço perfumado:
Nele tuas lágrimas se impregnaram.
Junto ao peito levo-o qual relicário.
Bem me quer!

Ao vinho festeiro cheirava teu hálito.
Por que te esquivas assim de abraçar
Quando o relógio vem o baile devorar?
Mal me quer...

“Como é doce o mel que sai dos favos,
Confessaste, jejuarei pelos teus beijos.”
Farta e faminta, senhora, eu te deixei.
Bem me quer!

Devolveste os preferidos chocolates
Como fora se lançam as suínas bolotas.
Sou-te agora tão amargo ao paladar?   
Mal me quer...

O carinho das cócegas e dos beliscões
É da paixão mais verdadeira o penhor.
Com amor a pele recebe todo o amor.
Bem me quer!

Que iníquos e injustos são os tapas,
Que desferidos com ais me chicoteiam.
A mão na face é flagelo para o coração.  
Mal me quer...

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Romanza [letra de música]


Que tal um pulo de mil jardas
Sobre o abismo dos teus medos?
Se é a luz azul que aguardas,
Pega as nuvens entre os dedos.

Se o sol enegrecer pela manhã,
Ainda me desejarás bom dia?
E se a lua sucumbir à porfia,
Terei à noite o beijo da castelã?  

Toca, guitarra dos ciganos!
Consola meu coração arcano,
Enquanto lavam-se os panos
Rotos pelo vinho asturiano. (bis)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Αλληγορία

Tudo quieto no porto. A praia alonga-se como um corpo desnudo. O grão de areia não é um gigante para o pó, um Gilgamesh diante da poeira?  O dia vai encontrando a noite. A tarde está no ápice; é o apogeu da luz que se amaina acenando às trevas. As sombras estão mais claras porque o sol é menos forte. As sombras são mais escuras quando a lâmpada é mais fraca. Deus passeia pelo caminho gramado e os demônios vagam sobre o piche. O chapéu de palha refresca a cabeça do camponês que nivela com ferro afiado a plantação de centeio. Como é radiante o sorriso daquele neném. Qualquer fotografia dele vale mais que aquela boca de enigmas que o Louvre guarda orgulhoso. As folhas estão verdes mas quase cinzas. O outono está ressecando sob os primeiros ventos frios do inverno. A água espreguiça-se no céu e cai levitando, como garoa, no meu rosto suado. O rádio tocava um bailado, mas já o desligaram porque um sabiá pousou na janela para ouvir o gugu-dadá da menina brincando com a papinha de maçãs. Na panela a pipoca tilinta amanteigada e o chocolate derrete sossegado na caneca. Na fronteira a caixinha de um pelotão rufa irrigando a terra com o barro humano. Algumas andorinhas dão rasantes ao lado de pipas coloridas e libélulas sobrevoam o heliporto. A cera afogou o fogo da vela, a pilha do farolete perdeu a carga, um raio derrubou o poste da avenida. É noite. Apenas o luar ilumina a praia do mar, sobre a qual se estendem deitados os corpos daqueles que adormeceram contando estrelas. Tudo quieto no porto.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Confissão [letra de música]

O teu olhar tão terno e quieto,
O teu olhar é amor secreto.
Não direi mais, meu coração,
Qualquer palavra de ilusão.

Em silêncio desvendarei
O fito segredo de Diana.
Ela me ama, ela me ama,
Ela, digo feliz!, me ama...

Olha as estrelas tão mudadas,
Olha as cores mais coradas.
Sim, diga mais, meu coração,
Toda palavra é doce ilusão.

A chuva vai descer molhando,
A chuva vai nos molhar orando.
Aproveita o cochicho da água
e deságua tua alma na minha.

Em silêncio desvendarei
O fito segredo de Diana.
Ela me ama, ela me ama,
Ela, digo feliz!, me ama... (bis)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Esponjas de sol - XII

341. Jesus chamou e mandou chamar Deus de Abba. A erudição biblista quis polir o vernáculo popular aramaico e traduziu a palavra como Pai, dando uma conotação mais solene à uma expressão lingüística que, originalmente, é puro carinho e intimidade. Abba, porém, é Papai. Mais: é Painho, como amorosamente dizem os nordestinos.

342. A limitada intuição humana corresponde, mutatis mutandis, à ilimitada presciência e à ilimitada onisciência divinas. Imago Dei, pois.

343. O cinza, não sei exatamente porquê, edifica em nós reverência. Nós vemos qualquer construção medieval coberta de brumas, qualquer foto antiga descolorida, enfim, qualquer imagem sobre a qual pairem as nuvens do pretérito, e logo somos tomados por sentimentos “litúrgicos”: o espírito sempre fica [leve ou pesadamente] genuflexo diante do passado rígida e fixamente captado entre o preto e o branco, afinal, pluralidade de cores é psicologicamente “atualizante” -- sempre invoca a visão comum e realista que, estando vivos, nós temos da paleta natural que nos cerca. Há aí um certo suspiro por um tempo que não é tempo, por uma ordem das coisas que não é cronológica. Há aí uma aspiração pela Eternidade.

344. Não pode ser verdadeira uma idéia tão lógica e racionalmente sofisticada que não possa ser compreendida por qualquer homem simples e comum. Não pode ser verdadeira uma idéia tão complexa e imediatamente indiscernível a ponto de qualquer roceiro analfabeto dela dizer: “Ah, isso é besteira!” O Senso Comum é a pedra-de-toque de qualquer ideal/ideologia. Deve-se desconfiar de toda “verdade” cujo processo de conhecimento seja hermético (esotérico -- seja religioso ou científico-materialista) e altamente especializado.

345. Revolução aferida ao meio dia de hoje: um bem-te-vi dançava no ar e, mirando um gato que caminhava todo bonachão no meio da rua, lançava-se furiosamente contra o felino, dando rasantes e cambalhotas aéreas dignas de uma águia. 

346. Por que um simplório qualquer, ciente de Deus e às vezes mais ou menos inconsciente de si e de sua ação no mundo, tendo certezas consegue ser ativamente bom enquanto um erudito niilista qualquer, ateísticamente agnóstico e amantíssimo do “conhece-te a ti mesmo!”, só pode ser passivamente inofensivo se estiver submerso num oceano de dúvidas? O homem intelectualizado pós-moderno não é bom: é inofensivo porque só tem interrogações, que lhe castram de tal modo a ação que ele se mantém inertemente parado, incapaz de desbravar a existência -- capacidade dada apenas àquelas pessoas que se nutrem de uma “verdade” (seja “boa” ou “má”) que lhes sustêm o âmago do ser; afinal, a neutralística indefinição moral é inimiga da Civilização (é contraproducente: nada gera, nem construção nem destruição). Bom sempre poderá ser o homem crente de qualquer era, mergulhado em certezas corretas e incorretas, mesmo não detendo argumentos sobre o Big Bang, sobre Darwin e o Materialismo Dialético, sobre o Ceticismo de Hume, etc, enfim, sobre os costumeiramente inférteis “como?” das idéias que negam a visibilidade do invisível. Se o simplório ignorante de tudo mas sabedor da Encarnação é bom, porque no máximo pode ser inofensivo o erudito sabedor de tudo mas ignorante de Cristo? Se é preciso acumular tanto conhecimento filosófico, científico e psicológico para ser no máximo um sujeito inofensivo, porque nada além de Fé basta para ser pura, bela e humanamente bom?

347. Segunda Guerra Mundial. Um católico camponês bávaro (feito soldado alemão) foi para o fronte lutar pela “Sagrada Germânia”, da qual ele ouvira falar num discurso do kaiser Wilhelm II, assistido por todos os alunos de sua classe na segunda série. Um presbiteriano ferreiro galês (feito soldado inglês), recordando-se dos emocionantes versos de “Jerusalém”, de William Blake, se alistou para defender a “Antiga Albion”. Não foram os discursos nazi-demoníacos de Hitler que puseram Berthold no exército do III Reich. Não foram os discursos democrático-humanistas de Churchill que puseram Owain no exército do Império Britânico. A História mais para trás, um pouco mais para trás, ainda ribombava nas almas, ecoando seus arquétipos, seus mitos, seus sinceros ideais ainda não degenerados em crueldade ideológica. Ambos ingenuamente se encontraram, cada qual no meio do seu batalhão, no campo de batalha -- nas trincheiras franco-belgas. Então, eles apertaram simultaneamente seus gatilhos e se mataram um ao outro. Pouco depois, os dois se encontraram no céu: Abel encontrou o outro Abel, Caim encontrou o outro Caim. Eles se encontraram e, reconciliados pelo perdão, prostraram-se diante do mesmo Deus.  

348. É pecado dizer que é pecado aquilo que não é pecado.

349. Apenas o Cristianismo é absoluto -- é a Realidade. Isso não quer dizer que as outras e demais religiões sejam meras “invenções”: elas são versões completamente incompletas. Versões mais ou menos verossímeis e versões mais ou menos inverossímeis. São (toscas ou engenhosas) tentativas de compreender aquilo que apenas a Revelação poderia ensinar: Deus.

350. Senhor, outra vez tu vais nascer. Está tão poluído o céu que a estrela-guia não guiará. O cruzeiro do sul anda invisível e os astrolábios foram tecnologicamente substituídos por terríveis GPS -- vozes inferno-maquinais incapazes de cantar angelicamente o “Gloria in excelsis Deo!”. Afora a eletricidade dos postes, que tão fortemente ofusca cá da terra a pouca luz que os astros do céu noturno conseguem lançar sobre nós. O letreiro de neon escondeu o brilho das constelações. As monarquias com fé caíram e as poucas coroas que sobraram são tão laicas, são tão oficiosamente atéias, que os reis mal podem ir à igreja para assistir ao culto natalino ou a Missa do Galo sem despertar a ira dos eleitores politicamente corretos. Magos, só os astrólogos falastrões e os simoníacos da IURD. Está tão barulhenta a cidade que o coral dos anjos não seria escutado, sequer ouvido. Meia-noite é dia: o mundo movimenta-se, freneticamente, durante todo o completo ciclo do sol -- 24 horas, sem parar. Há muito alvoroço, muita buzina, muita sirene, muita rave, muita gritaria, muito tiro. O planeta foi sepultado no abismo do falatório. E tu bem sabes que o falatório é inimigo declarado do Verbo, tão significante e silencioso... Não temos currais à antiga. Os campos foram concretados e as ovelhas agora existem confinadas em pequeninos cochos dentro de imensos galpões industriais, também feitos de concreto, comendo a ração que algum laboratório norte-americano produz na Malásia. Então, já não temos manjedoura cheiinha de capim fresco -- macio como um berço. Nas hospedarias, definitivamente já não poderias nascer: elas se transformaram em luxuosos hotéis 5 estrelas, cuja diária os parcos proventos de um pobre príncipe carpinteiro não poderia pagar nem que algum Herodes pós-moderno encomendasse uma réplica perfeita do trono de seis degraus de Salomão. Aliás, agora Herodes manda matar as crianças ainda no útero. Não são os soldados que saem às ruas à cata de meninos menores de dois anos: são os médicos, vestindo jalecos quase tão alvos quanto à neve. E estes hipócritas ainda juram pelas palavras de Hipócrates! Cuidado, pois, com os hospitais: neles só se consegue nascer através de cesariana. Então, Senhor, vem mesmo assim! Vem, mas vem movido pelo querer deste brado que pede: Maranata!

351. O nosso coração é fraco. Tão fraco e tão frágil! Mas, mesmo quebradiço como a milenar porcelana chinesa, ele é tão forte e tão resistente que é capaz de suportar os terremotos do amor e da ira, da ilusão e da realidade, do ser e do não ser. Fraco e frágil como as sensíveis asas da borboleta; a borboleta que com o esvoaçar de suas finas asinhas é capaz de produzir um tufão devastador. Então, dois corações unidos são duas fraquezas e duas fragilidades unidas: são uma inexpugnável fortaleza. Ah, e se se irmanassem todos os corações? Que poderoso panapaná! Que bonança!

352. Em Política, quando uma maioria silenciosa se forma, a minoria (ultra-sensível, a rigor -- daí, sua maior organização) logo sai para fora para, mecanicamente, “gritar”. Então, por conta da coesão do histerismo e dos estrondos da minoria, a maioria (mais orgânica, logo, menos sensível) se percebe e muitas vezes se crê minoria. O termômetro de uma oposição é a altura da gritaria irracional da situação. Basta julgar os humores.

353. Se existe sede, existe água. À mais íntima e visceral necessidade do homem corresponde a mais íntima e visceral solução divina. Se o homem tem sede de significado, então há Significado que o baste, que o sacie completamente. Existe “água”, pois! E a água que o Senhor dá gera no homem “uma fonte de água que salte para a vida eterna.” (João 4:14)

354. Deus dá genialidade apenas a quem tem defeitos suficientes para não tornar-se nela um obsessivo do tipo “uma nota só”. Já imaginaram que monstro loucamente demoníaco seria o rígido Salieri se dotado fosse ele do potente gênio de Mozart? Quem muito quer e com ardor deseja um sumo talento, quer e com ardor deseja não a fecundidade do dom em si; antes, almeja loucamente o verniz de poder, o status e a distinção egóica que ele pode trazer.

355. Deus quis que o homem, ainda que paupérrimo, fosse para os animais um regaço de proteção e carinho. E é no homem paupérrimo -- literalmente sofredor do mal da ausência do mínimo consolo material -- que os animais paupérrimos vão se aninhar. Os cachorros de rua procuram os homens de rua. Só na ausência deles é que os pobres totós vão mendigar na porta das casas habitadas. O animal sem teto quer esquentar e ser esquentado pelo homem que não tem o calor dos outros homens. Então, ambos se encontram e cuidam um do outro: o animal ganha colo e afago; o homem, o que ter no colo e lambidas. A marmita de um torna-se a boa ração do outro. Quão antiga e verdadeira é a expressão “eis o mendigo e o seu cão”!

356. Picharam, com spray dourado, num poste: “Deus!” As letras eram góticas. Revolução em andamento?

357. O Senso Comum geralmente não se dá bem com detalhes técnicos, mas é “tiro certo” quanto ao julgamento estrutural.

358. Não haverá apologética mais eficiente que aquela que busque falar a favor de Deus através da comparação da “Proposta Cristã” com o comportamento humano. Se se comparar o realista modus vivendi do Homem com a “Psicologia do Ser” encontrada na narrativa teológica cristã (baseada na tríade Criação/Pecado Original/Redenção), refuta-se com eloqüente eficiência todos os demais discursos ideológicos religiosos, não religiosos e anti-religiosos que tentam dar algum significado à Vida. Apenas o Cristianismo consegue explicar a Existência, porque ele a afirma integral, total e plenamente: ele não foge da realidade e, mais!, responde ao intenso e dialético confronto do homem com o ente pelo qual ele se apaixona no vício e com o ser pelo qual ele ama na virtude.

359. Compulsão à repetição é a pulsão máxima do pecado -- é pulsão de morte.

360. Todo jornalismo consiste em retórica noticiosa. O que torna um jornal mais sério (sincero, pois) que o outro é o quanto ele se esforça em, implícita ou explicitamente, manifestar ao leitor qual a “lente interpretativa” que o texto jornalístico adota. Descrever neutralisticamente a Realidade, valendo-se de algumas poucas laudas numa matéria a ser editada e reeditada, é a “utopia” dos jornalistas: jornalismo não é narração positivista, nem processo de registro historiográfico, nem arte literária capaz de estabelecer, ao menos, limites de entendimento psicológico para a composição das informações publicadas. Raramente pode-se ler uma matéria ou artigo que aborda os fatos “a seco”, sem maiores juízos de valor (conscientes e inconscientemente) contaminando a integralidade do discurso. Não se trata de relativismo e/ou subjetivismo ideológicos. Trata-se apenas da constatação dos efeitos do fardo da nossa não-onisciência, ainda mais abalada por estar o jornalista restrito a pequenos períodos de tempo (para tratar o acontecimento) e de consciência (para compreender o acontecimento); pequenos períodos de tempo e de consciência que são os componentes vitais de uma notícia que, por sua vez, é uma novidade que está, sempre, à espera de ser re-composta: as descrições baseiam-se, todas, em versões -- versões que se vão tornando completas e verossímeis ou incompletas e inverossímeis, conforme as informações se modificam mediante a dinâmica temporal da “descoberta dos fatos” -- que alteram os humores, sempre. O jornalismo, então, é um arauto que berra frações de versões que vão melhor compondo a estrutura de um fato notório: na segunda-feira, noticia-se um assassinato; na terça-feira, que um suspeito foi preso; na quarta-feira, o suspeito já não é suspeito e outra pessoa é presa; na quinta-feira, a perícia encontra a arma do crime e são ouvidas testemunhas, que asseveram que o preso é, de fato, o assassino; na sexta-feira, é encontrada uma carta de suicídio do agora suposto assassinado; no sábado, fica claro que a carta é fajuta, falsificada; no domingo, aparece na delegacia o verdadeiro assassino, que tudo confessa. Perguntas: E quanto aos leitores do jornal que leram apenas uma edição? E quanto aos que leram duas ou três ou quatro edições sucessivas ou alternadas? Todo jornalismo consiste em retórica noticiosa.

361. Quem muda muito de opinião, nunca muda de opinião. Quanto mais rápida é a mudança de “lugar ideológico” (de um ponto extremo a outro ponto extremo) menos se muda -- nada se muda. Tal é a lei física: um corpo que, sem parar, trafega de “x” a “y” o tempo todo, gasta mais tempo no [meio do] caminho entre os destinos que nos destinos em si. Quem muito muda de opinião, muda nunca de opinião.

362. Apenas um homem burro diz que uma mulher tem muitos segredos. Ela não tem muitos segredos. Ela tem grandes “conversas” zelosamente custodiadas que, por falta de bom ouvinte, não são conversadas. Basta se aproximar com gentileza e sinceridade, falar-lhe interessadamente (nem que um poucochinho) e, então, ouvir: ela logo retira do coração quase todos os “segredos”, entregando-os como frutas de ouro ao faminto por “revelações”. Uma mulher tem poucos segredos. Aliás, estou para crer que, na verdade, cada mulher tem no máximo um segredo. Um só, só seu. E ela não se importará em dividi-lo com quem estiver disposto a amorosamente escutá-la.

363. De acordo com o pensamento (dialético) do homem médio, o mais alto grau de impossibilidade reside naquilo que se apresenta como contraditório em substância. Muitas “profecias místico-tecnológicas” do passado sobre o então futuro (nosso passado recente e nosso presente) baseiam-se em afirmações literalescas que procuravam encantar o público com a narração mais ou menos teofânica de acontecimentos impossíveis -- tidos por naturalmente contraditórios. Ao querer relatar um mundo fantástico (necessariamente não atual, quase sempre para “frente”) o escritor ou contador projetava, valendo-se de elementos da realidade e de criatividade lógica, o futuro em que o impossível aconteceria mágica, milagrosa ou cientificamente. Trata-se, então, de uma simbiose entre “elementos da realidade” (que são aquilo que todos reconhecem como factualmente existentes, visível ou invisivelmente) com “criatividade lógica” (que consiste na instrumentalização de leis lógicas pelo mais abstrato e livre pensamento criativo), os quais, por sua vez, interagem para compor uma fantasia futurista. Daí, fácil entender como a idéia medo-persa de um pássaro para o vôo humano feito de material duro e mole, p.ex, vai inexoravelmente desaguar num qualquer tipo atual de aviãozinho monomotor cujos principais componentes são plásticos. Fica explicado o profetismo de Júlio Verne e de tantos outros visionários crentes e não crentes.   

364. O maior problema psicológico e político das redes sociais é que as pessoas realmente passaram a acreditar que, através de posts, elas afetam e influenciam absolutamente a vitória ou a derrota das causas que elas pessoalmente advogam. O Facebook propiciou o surgimento de uma espécie de megalomania escatológica interneteira, em que cada “militante virtual” se enxerga como sendo o único custodiador de um Santo Graal ideológico do qual depende o fatal destino da Humanidade, como sendo um neo-Prometeu que, à partir dos relevos olímpicos da timeline, entrega aos mortais a sagrada chama da ideologia que vai, de uma vez por todas, resolver o Mundo.

365. Se se colorisse Jules Breton no prézinho e não qualquer tela rabiscóide do Romero Britto, se se ouvisse Mozart na 1ª série e não qualquer versão a-b-c funkneja da Xuxa, se se assistisse “Marcelino Pão e Vinho” na 2ª série e não qualquer documentário da ONU sobre Identidade de Gênero na infância, se se lesse “O Pequeno Príncipe” na 3ª série e não qualquer gibizinho doutrinário do MEC, se se debatesse o auto-conhecimento socrático na 4ª série e não a importância filosófica de Valesca Popozuda no imaginário tupiniquim: todo o Ensino Fundamental estaria salvo e nós não estaríamos vendo moleques de 10 anos brincando de guerrilheiro-mirim do Sendero Luminoso nas escolas paulistas, todo o Ensino Médio estaria salvo e nós não estaríamos vendo marmanjos de 17 anos brincando de revolteen guevarista nas escolas paranaenses, todo o Ensino Superior estaria salvo e nós não estaríamos vendo adultíssimos especialistas diplomados summa cum laude em [s]Ociologia citando outros tantos adultíssimos especialistas identicamente diplomados a fim de legitimar, ética e moralmente, toda a barbárie anteriormente citada.

366. A Armadura da Persona -- Este peso todo que sustenho mais me prega ao chão da terra. Se ao céu eu quiser subir, devo abandonar o apetrecho da guerra. O eu quero descascar e as camadas todas arrancar, porque a casca consciente é superficial cicatriz do profundo inconsciente.

367. “A linguagem do universo é a Matemática”, alardeiam por aí os neo-pitagóricos. Uma ova que é! Até para adjetivar a funcionalidade dos números eles se valem de palavra e, mais, justamente da palavra que descortina o próprio significado da Palavra. A linguagem do universo é a Informação-Coordenativa. E só há informação quando há palavra dirigida, enquanto dado, para determinado fim; e só há coordenação quando há consciência dirigindo todo o processo. Eis o Verbo.  

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Ela, em síntese

Se não brilharem os olhos, não vale à pena. Almejar o que desejam os outros é coisa pequena.

Quero mais o pedalar livre que a carruagem dourada. Quero mais o galopar breve que a viagem rápida.

Que fiquem nas nuvens meus castelos. São humildes sonhos de grandeza. Se de pedra eles fossem erguidos, haveria guerra e à soberba eles serviriam. Château en Espagne!  

Uma grande casa pequena, abundando de gente. Cercas arredondadas e brancas como aquelas nuvens castelãs -- mas de açúcar, da madeira doce da amendoeira.  

Sem TV, com lareira. Sem PC, com prateleira aqui e prateleira ali, prateleira lá e prateleira cá: livros de páginas grandes e pequenas, antigas e novas. À História eu contarei estórias, porque historiadores são contistas frustrados.

Um jardim de hortênsias e maravilhas: para minha inocência e tua consciência, para minha baunilha e tua groselha.

Um casal de filhos, desta minha cor de oliva encarnada, correndo, caindo e brincando no vermelho barro que o pó vivifica -- calorosa vida, úmida existência.

Colecionarás as mais coloridas pinturas judias, as mais negras cerâmicas gregas e as mais brancas estátuas romanas? Colecionaremos, então. Rodin e Mestre Vitalino. A lira de Dante e o trompete de Louis Armstrong.

De ponta a ponta, o mundo na ponta da coreografia: para os dias de amor, o xote ritmado da sanfona e o tango apaixonado do acordeom -- pé no chão; para os triunfos solenes, os leves passos quase flutuando das valsas de Viena. Rosas do Nordeste e Morango do Sul.

Copo americano para a Coca-Cola com o hambúrguer gorduroso de sempre e xícara de porcelana francesa para o café do drama cérebro-coração. Água pura para a sede do corpo. Água fermentada para a saciedade da alma.

Os olhos brilham -- olha, olha no meu olhar, nestes meus olhos castanho-abismo: estas nossas quatro amêndoas estelares cintilam já desde ontem, fluem fagulhando hoje e hasta siempre! vão iluminar. A tua alma e a minha alma jorram da “uma só carne” de dois anjos indomáveis, de dois arcanjos indômitos.  

domingo, 29 de novembro de 2015

Arquivelho

Quatro anos e eu via os milênios correndo com os meus pés.
Quatro anos e eu sentia os séculos passando por estas veias.
1993: senti-me longínquo, tão antigo -- tal qual aquelas teias
que gerações de aranhas vão fiando pelo castelo abandonado.
Oh, gente da minha terra, este meu inconsciente é o passado.
Oh, gente da minha terra, os ancestrais são os nossos sopés.

O que era letra de giz passava a ser entalhe em duro mármore.
O que era imagem de flash atual passava a ser fio de tapeçaria.  
1993: senti-me peregrino de calendários, tão lá -- como a alegria
do anjo sorridente da catedral de Reims, mirador de gargalhadas.
Ah, pedra e rocha, na genética ou na alma eis tuas balaustradas.
Ah, pedra e rocha, minha seiva é o sangue da primeira árvore. 

domingo, 22 de novembro de 2015

O Reino

As estrelas giravam como o carrossel em Paris.
E a lua, disco de plástico, era lançada no parque.
Senhor, que sonho! Que sonho foi este que sonhei?
Os anjos jogavam futebol e cavalgavam cometas
e nós nos aproximávamos da medula do tempo
como que vendo as auroras do profeta Ezequiel.
As árvores batiam palmas e dançavam Strauss.
Senhor, tu que é minha luz e salvação, dizei-me:
Por que o sol não queimou quando o rosto me roçou?
Por que a minha voz, quando quis gritar por guarida,
Só pôde cantar cantigas de ninar? Handel as compôs?
Sem mover os lábios, conversei horas com meus amigos.
Sem mover os pés, andei pelos confins do teu Universo.
Senhor, que visão! Que visão foi esta que tive?
Foi meu cérebro que, cheio de química, alucinou-se?
Ou terá sido o teu coração dizendo profecias ao meu? 

Esponjas de sol - XI

295. Há apenas alguns milênios, qualquer daquelas feiosas cadeiras de plástico colorido, comuníssimas em buffets infantis, seria considerada um trono especialmente luxuoso e “teologicamente adequado” para um potentado cavernesco, tribal ou citadino -- zulu, tebano, semita, germânico, mongol et alii. Diriam que o amarelo gema do assento foi extraído do choro irado ou da urina curadora de Vishnu, de Hélio, de Marduque, de Rá, de Mitra, enfim, de qualquer deidade tradicionalmente ligada ao sol e regedora do Universo. Diriam que o plástico é a coagulação da “matéria amorfa” originária ou que, tal qual o osso de frango amolecido pela Coca-Cola, trata-se de uma fração (lapidada, por titãs ou anjos, em forma de assento) do fêmur de um daqueles deuses de braços e pernas plurais e super elásticos. Pergunto, então: qual é a diferença entre os nossos ancestrais mais remotos e mais ignorantes e nós (tão pós-modernos e tão cheios de razão!), que acreditamos na unção numérico-adivinhatória da urna eletrônica e na arcaíssima mitologia da Democracia de Massas, fazendo da bem esculpida cadeira estilo Luís XIV de qualquer mandatário republicano um trono intocável?

296. Se oras a Deus apenas quanto te falta dinheiro, não amas a Deus. Amas as moedas de Mamon. Se oras a Deus apenas quando te falta saúde, não amas a Deus. Amas as panacéias de Hígia. Se oras a Deus apenas quando te falta boa nota, não amas a Deus. Amas o conhecimento infuso de Toth. Se oras a Deus apenas quando te falta esposa ou marido, não amas a Deus. Amas as macumbas de Freya. Se oras a Deus apenas quando tua vida soçobra, não amas a Deus. Tu és pagão! 

297. Não é tempo o que temos diante de nós. É a vida.

298. Bem é aquilo que coopera com/para a [manutenção da] Vida. Mal é aquilo que combate a Vida. Mal é o Deletério, amante da não-existência, revogador do “fiat!” divino: Mal é Morte que pretende extinguir a Consciência.

299. Aqueles que inspiradamente louvam os revolucionários americanos de 1776, que lutaram contra a tirania britânica por independência política, também deveriam louvar os quilombolas brasileiros que, pela liberdade do próprio corpo, lutaram até 1888. Libertas omnibus aequa sit!

300. O problema-base da Democracia Eleitoral consiste em que o “arrojo social” (gogó combinado à ambição) costumeiramente suplanta o “arrojo técnico-moral” (preparo combinado à ética). A retórica, então, prevalece sobre a realidade: as coisas passam a ser tratadas, em graus de importância, não pelo que elas realmente são, mas pelo que elas parecem e dizem ser. Não à toa dizia José Martí que “En política, lo único verdadero es lo que no se ve.”

301. As pessoas são mais importantes que os pensamentos que elas têm. As pessoas são mais importantes que as ações que elas têm. As pessoas, pensando e agindo, são mais importantes que o pensar e o agir. O pensamento é mutável, a ação é mutável: “Cambia lo superficial / Cambia también lo profundo / Cambia el modo de pensar / Cambia todo en este mundo.” Então, qual é a idéia lógica do “ódio ideológico”?

302. Conforme a altura e a estridência e o desvario do grito de certeza, maior é a dúvida que amedronta quem grita. 

303. Quem és tu, refrão sem música? Estás incompleto como fina taça sem vinho adequado para o amor. Quem és tu, som de eco silencioso? Teus passos são o ritmo da batuta, do ponteiro do relógio, da bengala, da corrente que aguilhoa a vida, do cinismo e da covardia do profeta enciumado. Quem és tu, sonho que delira com a realidade? Estás incompleto como o alaúde que toca para ébrios sonolentos. Quem és tu, insípida e densa bebida vermelha? À noite, perscruta o livro misterioso: acende uma vela na escuridão e as letras do passado te contarão sobre a Luz.    

304. Eu via uma mulher, loura como um raio, cair do céu: ela cuspiu na calçada e, dez passos adiante, escarrou com estrondo na rua. Os querubins continuam cortando as próprias asas...

305. O homem é um ser consciente (inteligente) e, como tal, é incapaz de [re]criar consciência: no máximo, apenas “inventa” entes plenamente cheios de inconsciência, como os andróides, os robôs e os autômatos. Nossos pinóquios jamais exclamarão I can move. I can talk. I can walk!” Ainda assim, os sacerdotes da Ciência Moderna querem mesmo nos asseverar que o Universo inconsciente (logo, incapaz de instrumentalizar qualquer substância com inteligência, vontade e propósito) gerou, através do mero acaso (estúpido e sem meta) das probabilidades do Nada, o homem consciente? Apenas o “Eu Sou” (Deus) pode criar um “eu-que-estou” (o homem) que, por sua vez, só re-faz a partir do Feito.

306. Por mais potente que seja o fogo, se ele queimar matéria pútrida produzirá fumaça tão densa e tão negra que pessoa alguma poderá notar que há chamas ali. Cegueira completa: o fulgente cultiva treva e a labareda consome no escuro. O Inferno deve ser assim.

307. Ideologia devora ideologia.

308. Napoleão existiu? Quem, dentre os homens vivos, conheceu Napoleão? Napoleão para nós é uma idéia -- a idéia do corso baixote e complexado que conquistou uma coroa cesárea no século XIX. Napoleão é uma idéia a que chamamos “personagem histórico”. Ora, todos os homens que não conhecemos são para nós idéias. Qualquer ser humano já morto e/ou com o qual não convivemos é uma idéia (uma unidade de conjunções de pensamentos nossos e informações externas que formatamos e aceitamos como “outra pessoa”). Mas, como ter certeza de que Getúlio Vargas, Sócrates, Evita, Carlos V, El Greco e qualquer outra pessoa passada efetivamente existiram? Como ter certeza de que Dilma (e outra qualquer distante personalidade atual) não é um ator gorduchinho contratado pelo Clube de Bilderberg ou a irmã mezzo búlgara do Kim Jong-un? Podem-se argüir as mais mirabolantes, toscas e criativas hipóteses; hipóteses que, por falta de possibilidade de comprovação empírica -- um toque de Tomé! -- por parte de quem patologicamente duvida, não podem ser objetivamente derrubadas. Quem entre nós é capaz de apresentar provas contundentes contra uma qualquer Teoria da Conspiração na medida das provas pedidas por quem nela acredita? É impossível “provar” materialmente certas coisas (por mais absurdas que sejam), não obstante sua racionalidade e lógica. Apenas a aceitação de certos testemunhos, de certos indícios, de certos fatos interpretados com coerência, de certas fontes e, sobretudo, apenas a razoável confiança no outro nos permitem dizer se alguém existiu ou existe. Então, para além dos indispensáveis dados historiográficos, há o elemento da boa-fé humana: Celina Vargas sabe quem foi seu avô e sabe o quanto chorou debaixo do caixão do “Pai dos Pobres”, Platão sabia quem foi seu mestre e também sabiam quem era seu pai os meninos que ficavam sem almoço porque o progenitor preferia filosofar a pegar na enxada, qualquer peronista nascido pelo menos na década de 40 sabe quem foi a mulher do general-presidente Perón, os protestantes holandeses ainda sabem quem foi o herdeiro dos Reis Católicos e eu sei quem foi El Greco pondo os olhos nas pinturas da Catedral de Toledo. Nestes termos, concluo: não me venha pedir “provas” da existência de Deus! Ele é uma pessoa: procura-O e Ele responderá. Do contrário, para ti, Ele jamais deixará de ser uma “idéia”. Aliás, prova-me que tu existes. Prova-me que não és uma abstração coletiva das nossas mentes sedentas de querelas com “gente-do-contra”, uma entidade etérea projetada pelo inconsciente coletivo. Prova-me que não és a reencarnação de um piolho marciano!

309. A Fé: lusco-fusco.

310. A Tecnologia é substancialmente alheia à Ciência. A primeira cuida, sumamente, do conforto dos homens na Terra. Já a segunda, lida com as “causas legais” do Homem no Universo. Freqüentemente, porém, a Tecnologia (lidadora da matéria) pouco afeta nossas idéias sobre o Mundo, enquanto que a Ciência (teorética) subsiste integralmente no plano das idéias e, conseqüentemente, produz ideologia.

311. Ayn Rand: escritora patológica. Típica personalidade que despeja seus traumas, suas neuras e seus rancores esquizóides na produção literária.

312. Todo trabalhador vocacionado sente que seu trabalho é o mais importante do mundo e que o equilíbrio da sociedade depende da sua especial habilidade para fazer isso ou aquilo, entretanto, todo trabalhador vocacionado sabe que seu trabalho não é o mais importante do mundo e que o equilíbrio da sociedade não depende da sua especial habilidade para fazer isso ou aquilo. Tal é a dialética da vocação, que eiva o homem tanto de um certo heroísmo aristocratizante quanto de uma humildade aplainadora. Realisticamente, contudo, trata-se da boa e velha Aurea Mediocritas espiritual.

313. A Eternidade é um instante permanente.

314. O Infinito só existe no Verbo -- no agir sem limites das qualidades. Por sua vez, o Infinito não existe sequer no Número, porque ele é materialmente estático -- logo, insere-se no campo das quantidades. Ponto para o Teísmo.  

315. A França quis esmagar a Flor-de-lis e, na condição de filha primogênita da Igreja, tornou-se pródiga e foi comer o prato de lentilhas da Revolução. Deu no que deu. Já mil anos antes de 1789 os maometanos cantavam “qu'un sang impur abreuve nos sillons!” Deus lo vult? [13 de Novembro de 2015]

316. Tolerância absoluta é liberticídio.

317. O Islamismo é essencialmente beligerante. Maomé iniciou seu “ministério profético” cortando cabeças em Medina, no pós-Hégira, e morreu encharcado de sangue dez anos depois. Comparem-no a Cristo! -- aquele que disse: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos.” É o islâmico comum que não é essencialmente beligerante. Por que? Porque o homem médio procura apenas consolo metafísico na religião e, ao contrário dos ortodoxos apegados às idéias fundadoras (sua teologia e dogmática basilares) do Islão, ele quer um Deus que lhe seja, mutatis mutandis, similarmente humano. O povão sempre readequará a religião dominante, por mais dura que ela seja na sua pregação oficial, aos seus sentimentos naturais: a religião do homem natural é uma religião emocional, logo, empática; noutro sentido, sendo empática, são justamente as relações com outros homens não radicalmente ideologizados (mas de credos diversos e teoricamente antagônicos) que produzem tolerância mais efetiva. Por que são civilizadíssimos o culto príncipe Reza Pahlavi, os jovens reis da Jordânia e o lord Aga Khan? Porque têm na sua fé um apoio particular e privado de ordem substancialmente espiritual, e não um “instrumento literalista” para o poder coletivo e público. Aliás, alguém já ouviu falar de um grupo terrorista religioso que não tivesse qualquer ideário político? Não há “terrorismo puro” na religião, seja ela qual for. Quem negará, porém, que uma religião que se assenta primeiramente na submissão física à sua divindade não pegará em armas para erguer institucionalmente o Reino (o khilāfa, o califado) de Allah neste mundo?

318. Se o Universo fosse mesmo derivado de um poderoso choque de algoritmos, nós não seríamos controlados pelo inconstante poder das idéias. Nós seríamos um rígido sistema operacional. “No Princípio era o Verbo”, porém.

319. Os cristãos já cometeram as mais vis atrocidades e barbáries -- contra muçulmanos, inclusive. A História bem o prova. Mas, cometeram porque não seguiram à risca os ensinamentos de Cristo. Os islâmicos, porém, são tolerantes justamente quando não seguem à risca os mandamentos de Maomé. A maioria deles, felizmente, não segue.

320. Os números estão em toda parte. Porém, isso não quer dizer que eles são a base primordial das coisas. De modo algum! Isso quer dizer que eles são o frasco primordial daquilo que é realmente importante: o Ser.

321. Desde que pisamos à toa numa flor qualquer, para não acrescentar meia dezena de passadas às pernas fatigadas, e depois não percebemos menos bonito o caminho de concreto; desde que substituímos porcelana e vidro por descartável plástico industrial, para facilitar a limpeza da mesa e o asseio da pia, e não nos damos conta de que a elegância dignifica nossa humanidade; desde que acordamos às 5h-e-meia e voltamos para casa às 18h-e-meia refugando com a visão o nascer e o pôr do sol, deixamos de saber o que é um dia e o quanto ele nos enraíza no tempo; desde que nossa linguagem foi absorvida e moldada pelos grunhidos das ruas, para ser acessível ao marginal, voltamos à escravidão da caverna para dar segurança emocional para quem ficou nela; desde que trocamos a água, o café e o chá e o vinho e qualquer outra bebida multissecular por ácidos e sacarose e química gasosa em latinhas, em nome do gozo gástrico, nosso sangue urina no nosso cérebro; desde que esmagamos A Infame, pavor nos toma quando passamos diante da imagem do Crucificado, mas os galhos de arruda, os cristais em forma de pirâmide, os budinhas de gesso e os balangandãs exotéricos nos acalmam a psiquê quando nossa carne animal treme diante do trovão da existência; desde que choramos pelos fetos dos pandas chineses e pelos ovos azulados das tartarugas do Pacífico, enquanto berramos pelo direito de esmagar o frágil corpo de um bebê no ventre da própria mãe... Desde então, somos bárbaros!

322. Se se consultar a literatura sacra das outras religiões, não se encontrará registrado sequer um único “Por que me abandonaste?” dito pelos seus santos e heróis -- seus homens-fortes. No Judaísmo e no Cristianismo, porém, tal é a regra. Na Bíblia Sagrada encontram-se, todo o tempo, os homens de Deus nesta peleja com o próprio Deus. Eis os conhecidíssimos exemplos de Moisés, Jacó, Davi, Elias, Isaías, Jeremias, Ezequiel, entre outros, no Antigo Testamento. Já no Novo Testamento, o ápice é o próprio Deus-Filho, Jesus Cristo, clamando um doloroso “Lama sabactani?” para o Pai. Na História da Igreja é igualmente recorrente esta “solidão de proximidade”. Gregório de Narek, Lutero, Edith Stein, João da Cruz, Thomas Merton, Catarina de Siena, Agostinho e tantos mais nos revelam o mesmo brado. Por que? Porque eles, efetivamente, se relacionaram com uma Pessoa. Apenas no relacionamento com Alguém é que se pode ter (ao mesmo tempo) estes espasmos intelectivos e sentimentais de confiança e desconfiança, de esperança e desesperança, de cuidado e coragem, de júbilo e melancolia.

323. A Compreensão da Natureza de Deus pelo Homem, nas Sagradas Escrituras e na História, passa por estas fases -- decrescentes/degenerativas e crescentes/generativas: Monoteísmo Trinitário (Adão e Eva no Éden), Monoteísmo (no pós-Éden, dos filhos de Adão até Noé), Politeísmo (dos filhos de Noé até Terá), Monolatria (de Abraão a Moisés), Monoteísmo (todo o período Mosaico), Monoteísmo Trinitário (a partir da Encarnação ad Aeternum). Idas e vindas entre unidade e pluralidade no intermezzo do Tempo, com sua Combinação inicial e final.

324. Apenas o louco olha para o mundo e não compreende que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia” e que essas coisas endoidecem ou iluminam os homens. Apenas um idiota, de mente cauterizada e coração desnaturado, é capaz de pisar neste planeta e não pensar e não sentir que ele é um imenso campo de guerra, um Megido metafísico imerso em poderosas tensões. O louco é idiota -- é niilista: ele se esconde debaixo da cama quando os fantasmas nos quais ele não acredita vêm lhe visitar à meia-noite e, nesciamente, grita desesperado: Eu vos esconjuro em nome de Nietzsche e de Pisarev e de Sartre!

325. Mistério, o teu nome é silêncio.

326. As bactérias que parasitam os carrapatos das vacas nos pastos dão mais glória a Deus que certos bodes e lobos humanos que, disfarçados sob o manto de assassinadas ovelhas, berram e uivam dentro das igrejas.

327. Por que temos utopias? Porque somos a utopia de Deus.

328. O fanático morre de medo de si próprio. Ele se agarra numa qualquer certeza (que nada é senão uma dúvida que tomou o formato psicológico de certeza) de um qualquer outro fanático apenas para poder duvidar da dúvida que o consome. O pensamento é uma tortura para o homem de geléia. Daí o porquê dele buscar consistência e densidade em “idéias pesadas” -- afiadas na letal rigidez dos maniqueísmos fáceis. Por fim, um fanático junta-se a outro e eles, juntos, auto-congelam a gosma existencial da qual são feitos, produzindo então uma multidão de fanáticos movidos por este processo cíclico no qual o berro contra si mesmo constitui-se em “sentido da vida”. Compreende-se, logo, o motivo pelo qual o fanático não teme a Morte e, pelo contrário, a ama e deseja sobremaneira: porque para ele a Vida é a arena da dúvida que dissolve, da questão que derrete, da pergunta acinzentada que liquefaz a dualidade moral do tipo preto-e-branco, da demorada resposta inconclusa, do mistério ininteligível, do inefável inobjetivo, do espelho mental embaçado que nunca quer revelar a imagem verdadeira das coisas. A Vida é um “deserto tropical” no qual a interrogação se manifesta como vontade do próprio Deus que, segundo as belas palavras de Salomão, “pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim.” E é o “eu” que tem que se ver com tudo isso. O fanático não quer ter um “eu”, não quer ser uma pessoa viva, livre e autonomamente pensante: ele quer morrer por um pensamento que não é dele (nem de ninguém!) para ser um nada explodido em louvor do Nada, para o qual “não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.”  

329. O homem é uma reta. A mulher, uma curva.

330. O Amor é tão crescentemente gradual e levemente estendido no tempo que, às vezes, é preciso um instante de extrema concentração de sentimentos para que nos percebamos enamorados. Não raramente é o ciúme que (feito um raio que cai rasgando a terra do coração) traz à tona o que há tempos temos vivido.

331. O Verbo se encarnou, não se encadernou. A Escritura é inspirada, não é o Inspirador.

332. Onde está a Joana d’Arc maometana? Onde está o São Francisco islamita? A santidade não floresce no espinheiro.

333. Não adianta crer em tudo o que se deve crer. Isto diz respeito apenas ao conhecimento da Fé. A questão é viver, em paz, ao menos um pouco daquilo em que se crê. Eis a sabedoria da Fé!

334. Espanta-me a fragilidade dos homens desta nossa geração. São bonecos de gelatina com urina nas veias: melam-se de medo ao primeiro estampido incerto no horizonte escuro. Que seria da Civilização se, hoje, tivéssemos que levantar armas contra Hitler ou Nero? Que seria da Raça se, agora, tivéssemos que defender nossas cidades de Átila ou Stalin? Que seria da Humanidade se, já, tivéssemos que cerrar fileiras contra Antíoco Epifânio ou Mao Tsé-Tung? Já imaginaram a super-alcoolizada geração dos boyzinhos de saveiro rebaixada à moda bará-bará-berê-berê tendo que enfrentar os filisteus do Estado Islâmico? Demônios nos rodeiam e a imensa maioria dos filhos de Adão está preocupadíssima em fazer equilibrar o topete no lugar (valendo-se de dois sebosos quilos de gel) e ensaiar cantadas de pedreiro ninfomaníaco para cortejar as pobres moças bêbadas na balada de sábado.   
   
335. Allah é Dagon.

336. Caim sabia que Deus existia. Abel cria em Deus. Crer em Deus não é o mesmo que saber que Ele existe.

337. Desconfia de qualquer religião que, mesmo veladamente, amaldiçoa iconoclásticamente a Beleza. Se ela se recente do Belo, certamente o faz doutrinariamente instigada por aquele -- o diabo -- que odeia a Criação, por aquele que odeia o amor de Deus pelos entes que artisticamente Ele criou. “A beleza salvará o mundo”, bradou (inspirado pelo Criador) Dostoiévski.

338. Pensa bem: se Deus se revelou através de um homem (lembra-te que todo fundador de religião é a chave hermenêutica para sua compreensão mais profunda), quem teria vivido como Deus viveria? Quem seria o homem que, através de sua humanidade, transpareceu o Criador, aceitando e acatando a Criação? Seria através do melancólico e bondoso Buda, tão cheio de insanáveis dúvidas e amante da dissolução do eu consciente e do si-mesmo a ponto de amar patologicamente o não-ser? Seria através do traumatizado e iracundo Maomé, um esquizofrênico assassino, um iconoclasta da Beleza, um político que retroagiu à caverna a já brutal religiosidade ismaelita? Listem-se todos os erigidores de crença e ver-se-á que, em maior ou menor grau, todos eles se rebelaram contra a Realidade (o Estabelecido), todos eles olharam para o mundo e disseram: “Não é assim! Não quero assim!” Apenas um, um somente, tomou sobre si o peso da História e da existência. Apenas um aceitou a nudez, a dureza e a crueza da condição humana e, mesmo assim, viveu e morreu como homem integral: Jesus Cristo. A biografia de Jesus Cristo é a biografia de um homem comum e médio nos seus afazeres terrenos, mas, justamente por isso, vai além: é a biografia de um Deus que mostrou aos homens como se deve ser humano. Por isso, jubilosa e confiantemente dizemos: “Qui propter nos homines et propter nostram salutem, descendit de caelis, et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine et homo factus est.”

339. Os excessos contínuos sempre anunciam o fim daqueles que são continuamente excessivos. A fartura de determinada volição a levará à inanição de morte. Não se pode expelir libido para sempre: o que sai, sai para não mais voltar; o que sai, sai perdendo sua perenidade interna. Somos uma “bateria” que se auto-alimenta apenas quando vertemos harmoniosamente para fora a energia que, em doses equilibradas, nós pomos (ou recuperamos) para dentro.

340. O niilista se alimenta da própria inanição.