quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Anderes Ich


Há no íntimo de todo homem
um punhado do sal da loucura.
Algo que nega a plena alvura
das idéias que já não somem. 

Há entre ti e o teu eu o cinza
das nuvens que queres secar,
substituir pelo ímpio colorido
do teofânico comprimido. 

Vai ao espelho. Vai interpretar
Hamlet e São João, o louco,
o santo, qualquer esgoelar 
livre e silêncio de calabouço. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Esponjas de sol

1. Só pode ser verdadeiro filósofo o homem que pode ser verdadeiro jardineiro, verdadeiro pedreiro, verdadeiro carpinteiro... Se não aprender espiritualmente a calejar as mãos na matéria (sentindo-a como parte da Criação), não poderá descalejar o espírito com a solidez de uma idéia (pensando-a como parte da Criação).

2. Quanto mal nós guardamos amontoados nos recônditos mais profundos do coração, encobrindo-o com uma fé falsa, um fideísmo de quinta categoria movido pelo mais primário medo tornado emocionalismo pseudo devoto? Disfarçamos virtudes, criamos choros e lágrimas que, na verdade, não passam de rasteiros sentimentos de auto-preservação -- preservação do inferno na Eternidade e das intempéries existenciais cá nas aflitivas searas do Mundo. Fizemos de Cristo um pajé macunaímico para a carne e um psicólogo de divã desequilibrado para a alma e o espírito. Não! Não é verdadeira a fé daquele que não conseguiria enfrentar as pedras de Estêvão por amor. Não é verdadeira a fé daquele que usa o Calvário como escudo psíquico. Não pode aproximar-se de Deus quem não se afasta conscientemente do próprio eu e o abjura diante de si mesmo. Não herdará os céus aquele que enverniza as próprias podridões com o brilho de uma religiosidade que não esmiúça a sua personalidade até fazer trincar o vaso, o vaso que deve ser re-quebrado para, finalmente, ir parar nas mãos do Oleiro...

3. Um "deus" que precisa de quem o defenda é um "deus" morto.

4. Quando o "1" numeral é vertido para o "um" palavra, finda-se aí toda a objetividade das ciências apegadas à Exatidão. Surgem as alegorias e as exegeses, os símbolos e as hermenêuticas, enfim, brotam pulsantes os mistérios, as incógnitas, os segredos, as variações mais ou menos inteligíveis das sabedorias apegadas à Humanidade.

5. A Verdade não deve apenas ser defendida: ela deve ser ensinada com amor. Cristão algum tem mérito por saber que esta ou aquela idéia está em estado de "equivalência" com o Eterno. Todos carregam em si pontos específicos de ignorância. Portanto, qualquer crente que cuspir suas frias saraivadas de ira e irritação contra alguém cuja mente esteja momentaneamente alijada da Realidade, far-se-á súdito do Mal que, justamente!, diz odiar. Suma de tudo, nas boas palavras de São Paulo: Se não tiver amor, nada será.

6. Quem ainda contigo se importa, Senhor? Quem olha primeiro para a tua cruz e, depois, vendo o abandonado homem-Deus sacrificado no Calvário, quer ir ver os sorrisos do menino-Deus na pobre manjedoura dos cordeiros? Vede que a nossa Fé começa perscrutando o silencioso final com o "lamá sabactâni" para ir depois cantar o retumbante "Gloria in excelsis Deo." Mas... quem ainda prefere o carmesim do teu sangue imaculado ao vermelho do capitalista fardão do Noel? Quem?

7. Esta há de ser a primeira geração de intelectuais cuja letra terá nos contornos e linhas a aparência da insegura caligrafia das crianças. Mãos que traçarão riscos infantilóides, posto que o computador nos tem arrebatado o contato com as penas, tintas e papéis. A palavra se nos afastará do corpo, talvez, mas não da alma: afinal, somos espírito com carne e não o contrário, ou seja, de dentro para fora flui o Logos. Seremos simplórios no externo signo físico, mas perseveraremos angelicamente complexos no interno significado metafísico.

8. A Humanidade ainda não realizou o sonho de Ícaro. De Bartolomeu de Gusmão e Zeppelin a Santos Dumont e Wernher von Braun, homem algum pôs-se diretamente em contato com os ares -- deles fazendo sua via para a alada supremacia da atmosfera. Filho algum de Adão jamais voou como sonhou voar. [O parapente parece ser o mais próximo doador do desejado "dom dos pássaros" que temos à disposição] Talvez nossa única esperança de rasgar diretamente os céus seja, quando já instalado o Reino de Deus, emprestar dos querubins um par de asas... Somos, afinal, como o avestruz descrito em Jó 39:13.

9. Deus não é Zeus. No mármore da Acrópole e nas pedrarias todas que coloriram a Antiguidade, no vetusto bronze helênico e nos finos metais dos templos romanos aonde os mitos descridos pelos próprios sacerdotes eram hipocritamente venerados diante das multidões, nos panteões e nos altares da religiosidade capenga de Antanho: lá está o ídolo, o deus palpável cujas mãos torneadas pelos ourives e escultores podem tocar as débeis mãos dos homens. Lá está o bezerro de ouro cercado pelos potenciais "churrasqueiros" das suas pouco divinas entranhas... Porém, é único e verdadeiro Deus "Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém." (I Timóteo 6:16)

10. Um sincero agnóstico que, comovido assistindo a um ofício fúnebre, cantarola silenciosa e reverentemente os sóbrios hinos da liturgia está mais próximo de Deus -- que para ele vem se mostrando, gradual e lentamente, como "Deo abscondito" -- do que qualquer um destes fanáticos gritões que, irracionalmente, marcham em nome de um Jesus que desconhecem...

11. No pagão, a Arte produz e molda melancolia -- tanto na obra quanto no obrador. Uma alma espiritualmente desnorteada é deserto dos próprios medos, é "vale de ossos secos", é ferida permanente, é fluxo negativador das energias que a infância (seu único período de equilíbrio existencial) armazenou. O artista escravo tanto da dúvida niilista quanto das mais absurdas convicções idólatras é um zumbi autofágico condenado a bela e tragicamente escrever, pintar e esculpir o seu progressivo esvair; seus tremores, temores e terrores se convertem em "musa" inspiradora de desespero e medo. Sem Deus, até a Pietà seria tragédia pura.

12. Quem fala o tempo todo de política, elevando-a a um patamar de supremacia existencial, fala nas entrelinhas muito de si, diminuindo-se até o quase-nada, esvaziando-se até a pisoteante insipiência do "sal insípido". Quem fala de política o tempo todo, portanto, nega a si mesmo: joga o seu "eu" na pocilga hierárquica das prioridades da própria personalidade -- um "entrave" à causa defendida, seja ela das direitas, dos centros ou das esquerdas do espectro ideológico.

13. O pecado turba o coração e turva a mente. Perturbando as emoções, nos alija dos sentimentos de Transcendência; turvando os pensamentos, nos arranca a consciência racional da ação da Eternidade na Imanência. O pecado, então, acaba sendo o grande desconectador da tricotomia humana: o corpo, a alma e o espírito passam a ser algo autônomos na "ação" -- sendo, é claro, natural e simbioticamente interdependentes. Percebe-se isso naqueles que, mesmo vivendo na/pela "carne" (atividade máxima do errado na corporalidade), têm as suas ânsias naturais pendendo para uma religiosidade emocionalista (atividade mínima do correto na espiritualidade) mas profundamente negadora da Doutrina (atividade nula das potências lógicas da alma, mesmo sob o manto de argumentos eruditos). Eis aí a puta e o cafetão que postam bonitas frases de efeito do Papa Francisco no Facebook, o advogadinho-de-porta-de-cadeia que exortativamente critica a postura dos ministros petistas do STF e o revolucionário black bloc que cita Cristo e Bakunin em nome de um maligno e idealisticamente bem-intencionado "wonderful world."

14. A Arte é assassina dos descrentes. O ateu, o agnóstico, o niilista, o cético, o racionalista, enfim, o homem não submisso à Eternidade, adoece, padece, sofre e morre quando nele brota a obsessão pelas musas. O escritor sem o Logos, p.ex., nada é senão um sectário da "genus irritabile" cujo espírito, cuja alma e cujo corpo são incapazes de conterem o "espírito dos deuses". Por isso, morrem cedo. Não agüentam o tranco metafísico dos versos lhes percorrendo os nervos materialistas. A sífilis os ceifa, a tuberculose os entuba no caixão, a bebida que "resplandece no copo e se escoa suavemente" os endoidece e a depressiva impotência de estar-sem-ser os destina às balas do suicídio. Mais vale um anônimo "batatinha quando nasce se esparrama pelo chão" com Deus do que toda virtuosidade literária de Rimbaud ecoando no refinado vazio da incredulidade.

15. Na prática, o povo é racionalmente cético quanto à política, mas... são os pretensos intelectuais racionalistas que chamam o povo de "massa emotiva" que acreditam em toda sorte de utopias regeneradoras deste mundão véio sem portera. Risum teneatis, amici?

16. O maior ídolo humano não são as estátuas, as obras torneadas que "[...] não podem falar; certamente são levados, porquanto não podem andar" (Jeremias 10:5). O maior ídolo humano não é Mamon que, segundo Paulo, "[...] é a raiz de toda a espécie de males" (Timóteo 6:10). O maior ídolo humano é o próprio "eu".

17. O quê são os intelectuais do "libre-pensée" senão indivíduos desprovidos de macro-estruturalizante intuição que, cheios de obsessão por determinados temas e assuntos, desatam uma depressiva busca homérica por aquilo que o homem natural, tão simples e tão comum, logo discerne através do próprio coração "testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os" (Romanos 2:15)? O Senso Comum, repetido por qualquer caipira iletrado, é o fim último -- sintético -- de toda a exposição do Conhecimento. Os acadêmicos que arrastam o seu compulsivo niilismo pelo Mundo se atarracam às minúcias e às frias etapas dos raciocínios até que, se derem sorte!, derrubando uma peça do dominó [i]lógico por vez, chegam ao mesmo lugar em que estão o pipoqueiro analfabeto que trabalha na pracinha do colégio, o bandido convertido na prisão que agora labuta como frentista no Posto Ipiranga, a avózinha de coque que carrega lata de água na cabeça no sertão alagoano, o bêbado que aos berros repete ser "louco, doido, maluco"... Ao cabo das contas, o que distingue o filósofo da "Opinologia Sistemática" do sujeito que mal consegue assinar o próprio nome nada é senão um vernáculo polido e falsamente complexo. O Racionalismo é uma doença mental: impede o homem de ver o evidente.

18. Eu realmente não acredito que as "idéias de mundo" que tenham emergido da alma de um ferreiro medieval, de um caipira capinador de lote ou de um boiadeiro amazonense sejam menos reais e espiritualmente proveitosas que os pensamentos tornados literatura de São Tomás de Aquino, de Rabindranath Tagore e de Hemingway. Literatura, no sentido estético, nada é senão conscienciosa precisão descritiva. A Gramática -- com suas precisões dicionarísticas, então -- não é uma realidade metafísica capaz de opor analfabetos a alfabetizados. A Palavra é o signo visível do significado dissolvido pelo/no Mundo. Nada além. Se tu olhas para o céu e a admiração mais profunda te arrebata quando miras as estrelas, és igual a Kant.

19. Se a Humanidade passasse amanhã pelo Armagedom, pelo Apocalipse, por uma exterminante hecatombe nuclear, enfim, pela terceira-e-definitiva "bellum orbis terrarum", mais valeria que restasse para a reconstrução da "nova terra" um crente avozinho analfabeto que decorara os 10 Mandamentos ainda na infância ou todos os acadêmicos agnósticos e ateus-à-toa do Institut de France e adjacências?

20. O povo nunca foi nazista, comunista, anarquista, fascista, etc, etc, etc. Enfim, o diabo-a-quatro ideológico dos ismos jamais foi consciente e verdadeiramente acolhido pelo povo -- que qualquer suprassumo de Buda iluminado das idéias gosta de apelidar, a esmo e sem qualquer crivo racional, de "massa". Quem produziu ditaduras, regimes sanguinários, governos despóticos e tirânicos foi justamente o sujeito "consciente" que acordou (pulando da cama com os dois pés! -- o esquerdo e o direito) achando ter encontrado a definitiva panacéia para os males do pós-Éden. O homem comum vive, como todos deveríamos, sob a Lei Natural e, muitas vezes, sob a Lei de Deus. O povo é naturalmente conservador e o é autenticamente: não precisa de nomeador enquadramento antropológico para ser o que é. Seu João das Couves não leu Burke, Chateaubriand ou Kirk, mas cheio da mais pura e lídima convicção faz eco a Salomão: "O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol." (Eclesiastes 1:9)

21. Os cultos acadêmicos que conheço são, via de regra, curtos; curtos como é curto o rabo do carijó ornamental depenado. São ocos na sua trovadoresca geleíce de alexandrinos arcaicos. Cultura verdadeira só encontrei em quem tem falado, dito e escrito "Curtura" e usado as Barsas e Houaiss da vida como calço pra mesa da cozinha. Se é infértil -- mais: se é estéril -- não presta. Se montanhas e abismos são criados entre os homens, trata-se de malignidade infernal enfeitada com as plumas e firulas do eruditismo-mata-alma. "A letra mata", já exortava o apóstolo Paulo. Fardões de sarja inglesa são camisas-de-força que os fariseus do templo usam quando querem rir do analfabeto Simão Pedro. Às torres de marfim! É imperioso pô-las abaixo.

22. Se a certeza e a convicção advindas da verdade conhecida são superiores (logo, vigorosamente mais "coercitivas"), em sentido intelectual e sentimento consciencioso, à incerteza que provém da dúvida quase-que-indirimível, logo há que existir um externo reflexo material de qualquer idéia, positiva ou negativa, que demarque a imaterial conduta interior do indivíduo. Em suma, tudo aquilo que se pensa é gerado à partir das impressões que se tem da realidade e, deste modo, em função da sua aceitação ou negação e entendimento. Se toda idéia corresponde a um ente funcional, a ação humana por ela se pautará e, avançando para sua aplicação real (concreta), chocar-se-á com o Mundo. A fé consciente, então, adquire força, verdadeira potência criadora, enquanto que o questionamento infértil é reduzido a um demolidor natural.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Tenebris in lux

As trevas quando te querem aguilhoar 
tornam em arabescos as sombras,
contornam o negror do mal com a luz
mastigadora das chamas do inferno. 

Há fogo estranho em todo escurecer da alma:
é tenebrosa toda a iniqüidade que ilumina. 

Se o sol vires no céu o tempo congelar,
se flamejante carruagem estacionar
e querendo como Elias te transladar,
escuta!: é o Inimigo queimando estrelas. 

Não te laçará o passarinheiro com noite fria:
com falsa aurora de aconchegos te cegará.