segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Esponjas de sol - II

23. O Cristianismo bem poderia por de lado o sufixo grego que lhe nivela o nome à qualquer genialidade ou tolice humana mais ou menos estruturada. Que é o "ismo" teórico diante da radicalidade empírica de um discurso auto-afirmativo tal qual o "Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons"? O maior crivo da nossa Fé é que ela mesma oferta ao cético duvidoso os métodos que ele crê serem justamente os que a destruirão.

24. Resumido e reduzido aos seus termos primeiros e finais, o pecado simplesmente pode ser definido como o "sumo-desumanizador".

25. O santo nunca diz que é santo. Ele sai pela cidade e, de rua em rua, na serenidade das breves passadas, anuncia o Evangelho como anunciou-o Francisco de Assis a frei Leo: pelo exemplo. O santo também não "fala muito" de Deus -- porque ele vive para conviver com Deus e pouco tempo tem para estas apologias desfiguradas que são as marchas semi-bélicas, os shows pagãos e os arrastões gospel que instituem os proxenetas de César dentro das igrejas. O santo é apóstolo dos grandes milagres silenciosos, não das falsas teofanias curadoras de caroços e dores na lombar que pregam os televangelistas dos carnês e dos dízimos por débito automático. O santo toma ônibus e dele não faz um púlpito totalitário para todos aqueles que afoitamente passam pela roleta. O santo percebe a dor da ovelha solitária e, deixando o incerto rebanho que balança de linha em linha, vai contar de Sião à mãe sofredora que acordou às 3-e-tantas da madrugada para ganhar o pão dos filhos drogados. O santo nos anuncia o Céu -- no qual o Senhor limpará dos olhos toda lágrima --, não os imperativos infernais com o seu "Lasciate ogni speranza, voi che entrate". O santo fala do pecado não como se falasse de simplórios códigos morais, mas como que falando de um doloroso auto-sabotamento; porque eles (os códigos, as leis, as regras!) embrutecem os cansados e oprimidos e enchem de pernicioso orgulho os fariseus. O santo nos conta da Graça e dos seus frutos, das suas amorosas obras aqui na terra, aqui no mundo. O santo: todos podem sê-lo.

26. Estes castelos artificiais que nós criamos para nos atribuir falsas importâncias, cujas torres, ameias e muralhas são pétreas ilusões, ah!, eles ruirão quando o Céu descer à Terra! A afidalgada corte dos nossos protocolos de exclusão, que aponta para o outro e na mente diz "é raca, é louco!", será subjugada pela revolução permanente -- o Terreur do Dies irae. Todas as plumas e firulas das panelinhas e grupinhos, todos os internos sistemas pseudo-nobiliárquicos dos partidinhos e greis que instituímos para nos segregar do próximo, serão dissolvidos pelo Amém final.

27. O amor é o maior inimigo da paixão. Patere é pathos, afinal... O amor é a atmosfera limpa pelos raios depois da tempestade: são os sentimentos do espírito harmonicamente coabitando com os pensamentos da razão. Quem ama contempla o todo. A paixão é a tempestade, que põe a razão no breu e lança a alma na intempérie das vontades. Quem se apaixona mira obsessivamente apenas uma parte.

28. Deus não ocupa total e totalitaristicamente a existência de alguém. Ele naturalmente se integra à vida de quem é convertido. Apenas as ideologias artificialmente religiosas despersonalizam o homem em nome de Deus. O Cristianismo, pelo contrário, resgata o "eu verdadeiro" do "eu carapacento".

29. Música Gospel é um "guspe", um fétido escarro mamônico na partitura destinada ao Cristo. O culto a Deus faz-se com sacralidade e beleza, logo, com reverência diluída em Silêncio e Música. Não há lugar, no coração que se põe em contato perene com o Eterno, para extravagâncias mundanas e seus decorrentes ganhos mercadológicos. Não há show emocionalista diante do Calvário, não há espetáculo griteiro diante do Crucificado. Tudo é silêncio doloroso na terra, tudo é jubilante canção no céu: eis a liturgia que revela o Mysterium Tremendum!

30. Quão complexa é a oração ordinária do homem simples! É direta; verdadeira matemática das palavras. É objetiva; tem arco e flecha providos pela terra, tem mira à partir do "eu" consciente, tem alvo no céu. É o diálogo nu de um pobre salmista alijado dos preciosismos da academia, mas cuja oração, caipira no sotaque da língua e da alma, toca os umbrais da Eternidade.

31. Os carvalhos nem sempre são as sólidas e altivas árvores que dominam os milenares montes do Jordão e os quietos prados da pátria nórdica de Santo Olavo. Às vezes, o carvalho é um bonsai, exótico e mimoso, mas naturalmente incapaz de servir de pouso aos anjos que dialogam com os gideões do mundo -- os broncos que, cheios de virtude, desconhecem platitudes e latinidades, mas verdadeiramente movem a História...

32. Temos por aí homens que até da sola do chinelo fazem uma intransponível barreira entre eles e o mundo. As muralhas psíquicas erguem-se também sob os pés, meus amigos. Querem, a todo custo, impedir que o seu formado pó da terra entre em contato com o deformado pó que envolve toda a Terra. Tremem e temem diante da idéia de voltarem para ela, talvez. Que espécies e variedades de angústias carrega na alma o indivíduo que não se dobra à pulverização do "eu", a ponto de se erguer sobre tudo e todos e o todo pelas vias do isolamento? Esquecem-se que ao diabo foi ordenado comer o pó... o pó da terra! O misantropo é um prato exótico para o paladar do Mal, cuja rotina é mastigar os pecadinhos arroz-com-feijão dos normais.

33. Vês adiante um homem solitário? Enxergaste, então, toda a Humanidade.

34. O civilizado moderno é tão superficial quanto o bárbaro antigo: ambos temem mais o bombástico espetáculo do trovão que a incisão fulminante do raio.

35. Não tenha medo de clichês. Eles são apenas a cristalização mais ordinária daquilo que é extraordinário -- logo, daquilo que é carente de padrões e repetições para se entender ou compreender.

36. Não há método mais produtivo para se granjear a virtude da Humildade do que o auto-conhecimento. Ao descobrir o que se é, o homem apalpa as nódoas da própria alma, perscruta as rachaduras do seu vaso espiritual, reconhece as debilidades do pó que constitui seu corpo e, diante do espelho da própria consciência, ele vai bater no peito e em silêncio recitar o "mea culpa" dos santos: sou desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.

37. Jerusalém, Roma e Atenas. Eis a fórmula da Civilização, eis a Civilização que é nisto resumida: Shema Yisrael -- Christus est natus ex Maria virgine, gaudete. Khristós Anésti. Alithós Anésti!

38. A [Alta] Cultura nunca salvou sequer uma alma. Ninguém leu Shakespeare e se tornou um homem essencialmente melhor. Traficante algum encheu-se dos versos de Byron e abandonou sua existência dedicada ao neo-ópio. Quem poderá apontar um assassino que se regenerou após ter lido Goethe, ouvido Mahler ou visto Van Gogh? Mas, quantos milhões de homens não foram transformados lendo a Escritura? Por meio de João 3:16 nações se renderam a Cristo. Mas, quantos foram arrebatados do inferno lendo Homero e Camões? Toda a nossa Arte só tem efeito espiritual realmente fecundo e co-salvacional quando encontra na alma que a acolhe as marcas do Calvário. A Cultura não é mestra poderosa da Humanidade: é humilde serva dos homens.

39. A Cultura não é moralmente neutra. Ela sempre expressa, como uma "radiação de fundo", os ecos do Éden.

40. Pastores e padres (mais pastores do que padres) e religiosos tituláveis em geral, pós-graduados e mestres e doutores de toda e qualquer área passível de se receber diploma e/ou certificado acadêmico, supostos nobres e fidalgos e qualquer um investido em qualquer "coisa" que se pareça com uma ordem de cavalaria à moda templária que, nas redes sociais, adicionam ao nome-de-perfil estes seus títulos -- falsos ou não --, são dignos da mais cristã e sincera piedade. Afinal, para cada Napoleão virtual haverá um Waterloo psíquico.

41. Casai-vos! Casai-vos e encontrareis descanso para as vossas almas. O homem que desdenha o casamento -- porque nele vê os supostos horrores da rotina -- troca débeis instantes de êxtase sexual pulverizados em poucas décadas (duas no máximo) por uma adultez e velhice de diário sofrimento e solidão; ao passo que aquele que escolhe se abster de determinados prazeres mais repentinos (logo, descompromissados consigo e com os outros), labutando por ser "uma só carne" com a mulher que escolheu amar, terá os seus dias plenos de alegria verdadeira, integral e legitimamente espiritual, e quando estiver para entregar a alma a Deus, ao redor de sua cama se aconchegará pelo menos duas boas gerações dos frutos da paixão selada no altar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Lembrei-me do meu Criador


Quando tudo passar, passará no futuro. 
E o tempo sobre tua alma trará vinho velho,
deitando alegria em novo odre de couro. 
O tempo que passou, passou no presente. 
E coseu com pano velho a veste nova, 
dignificando o passado consciente. 

Com a espinha curvada, a pele sulcada
e o cabelo nas muitas alvas banhado,
no "meio deles" por-me-á pois o Senhor? 
Pelo parto do batismo, na velhice ainda, 
retrocedeu no relógio a sombra do pecado.
Menino, outra vez, conheci o teu Amor.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Aquila non generat columbam

Com quais penas quis subir Ícaro aos céus?
Depenou uma águia e falsas asas costurou! 
Eis ali a libélula que Leonardo engendrou.
Eis aí a passarola que Gusmão idealizou. 
Mas o teu sonho não foi o de singrar os ares...

Jogaste-te do pináculo do templo: 
O anjo caído te deu as asas da soberba.
Quiseste subir ao alto não como pomba
Que humilde se eleva até a quieta alba. 
Babel se erigiu e ainda domina a tua alma. 

Não deixaste de olhar para os cumes,
Para as alturas que não se devem alcançar. 
Não te contestas com o ninho na caverna
E queres para a montanha tua casa levar. 
Ah! Tu és louco, carnal semi-deus! 

Olha o caldeu primeiro, depois o persa. 
Na rocha, na argila, no estandarte: a águia.
O pequeno coração de Ciro se engrandeceu
E fez seu igual deus o empíreo do próprio eu.
Teus braços e peito de prata o Céu derreteu! 

Das Sete Colinas o aquilifer se ergueu. 
Marchaste pelo mundo dilatando a tirania,
Pisando o fraco, aniquilando o forte,
Conquistando sem paz Jerusalém,
Expedindo mártires para o além. 

Por mais tempo se prolongaram
Os batizados sob as frias penas.
Os pintainhos debaixo das quentes asas
Da galinha protegidos se ajuntam... 
Sacro é o império? Russo vitupério! 

Pisaste o lírio da Virgem. Douradas
Flores-de-lis da alva bandeira arrancaste. 
O pavilhão de Ninrode tremulou
E o Corso, despido das asas da abelha, 
Em cesáreo trono aquilino se assentou. 

Balançaste o berço do filho de Satã. 
Que infernal potestade a Adolfo armoriou? 
O sangue de Sem impiamente correu,
Mas mil anos o terceiro reino não viveu. 
Ave maldita, é gancho tua ária cruz! 

Voltaste para a Babilônia ancestral
E Saddam amou-te com obsessão triunfal... 
Mas no Ocidente levantou vôo a tua rival. 
A heráldica natural esganou-te na terra:
A sábia cã americana venceu a guerra. 

Queres ainda no escudo estampar tal mal? 
Cunharás no dinheiro o teu vício animal? 
Subirás um pouco e então muito cairás:
O abismo outro abismo invocará. Rirás
Ainda do Bem que te iguala a todo alguém?