domingo, 15 de fevereiro de 2015

Aquila non generat columbam

Com quais penas quis subir Ícaro aos céus?
Depenou uma águia e falsas asas costurou! 
Eis ali a libélula que Leonardo engendrou.
Eis aí a passarola que Gusmão idealizou. 
Mas o teu sonho não foi o de singrar os ares...

Jogaste-te do pináculo do templo: 
O anjo caído te deu as asas da soberba.
Quiseste subir ao alto não como pomba
Que humilde se eleva até a quieta alba. 
Babel se erigiu e ainda domina a tua alma. 

Não deixaste de olhar para os cumes,
Para as alturas que não se devem alcançar. 
Não te contestas com o ninho na caverna
E queres para a montanha tua casa levar. 
Ah! Tu és louco, carnal semi-deus! 

Olha o caldeu primeiro, depois o persa. 
Na rocha, na argila, no estandarte: a águia.
O pequeno coração de Ciro se engrandeceu
E fez seu igual deus o empíreo do próprio eu.
Teus braços e peito de prata o Céu derreteu! 

Das Sete Colinas o aquilifer se ergueu. 
Marchaste pelo mundo dilatando a tirania,
Pisando o fraco, aniquilando o forte,
Conquistando sem paz Jerusalém,
Expedindo mártires para o além. 

Por mais tempo se prolongaram
Os batizados sob as frias penas.
Os pintainhos debaixo das quentes asas
Da galinha protegidos se ajuntam... 
Sacro é o império? Russo vitupério! 

Pisaste o lírio da Virgem. Douradas
Flores-de-lis da alva bandeira arrancaste. 
O pavilhão de Ninrode tremulou
E o Corso, despido das asas da abelha, 
Em cesáreo trono aquilino se assentou. 

Balançaste o berço do filho de Satã. 
Que infernal potestade a Adolfo armoriou? 
O sangue de Sem impiamente correu,
Mas mil anos o terceiro reino não viveu. 
Ave maldita, é gancho tua ária cruz! 

Voltaste para a Babilônia ancestral
E Saddam amou-te com obsessão triunfal... 
Mas no Ocidente levantou vôo a tua rival. 
A heráldica natural esganou-te na terra:
A sábia cã americana venceu a guerra. 

Queres ainda no escudo estampar tal mal? 
Cunharás no dinheiro o teu vício animal? 
Subirás um pouco e então muito cairás:
O abismo outro abismo invocará. Rirás
Ainda do Bem que te iguala a todo alguém? 

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