terça-feira, 24 de março de 2015

Esponjas de sol - III

42. Cedo te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, cedo te amei! Não fui como Agostinho.

43. Sob o calor derretedor, qualquer fruto estraga de fora para dentro, gerando primeiro os superficiais odores da deterioração e depois, gradualmente, os próprios do apodrecimento estrutural: o fruto vai mudando o cheiro exalado conforme é carcomido pelo meio-ambiente. Sob o frio congelante, porém, o fruto é conservado e, sem perder suas camadas de polpa, tem seu aroma essencial [e profundo] integralmente exalado. Com o homem também é assim.


44. Mais grave que a embriaguez por bebida é a embriaguez por orgulho. Que é o álcool -- etéreo éter! -- na corrente sanguínea se comparado com a soberba percorrendo o espírito? Por acaso Lúcifer "bebeu todas" e, ébrio, caiu do Céu?

45. Por que Deus formou o homem de terra alheia (a terra do Mundo) à terra do perfeito Éden? Por que o homem não foi feito da superior terra do Éden? Por que Deus colocou o homem formado da inferior terra do lado de fora do Éden dentro do Éden? Até que ponto ficou originalmente afetada a natureza humana por conta disto? Seria este processo criativo uma espécie de genética "semente da carne", germinada pela consciente e voluntária mordida de Adão? Coisas encobertas... Gênesis 3:23 é um mistério.

46. O homem é a todo momento fendido pelo físico e pelo metafísico, pelo transcendente e pelo imanente, pelas coisas visíveis e invisíveis, pelo que é vertical com suas alturas e baixezas e pelo que é horizontal com suas destras e sinistras. Fendido. Instantaneamente fendido, posto que etereamente inconstante nas suas polarizadas e imprevisíveis pendulações. Reflete sobre o leite e o mel da eternal Sião e num instante pensa no spaghetti alla carbonara que o aguarda daqui a algumas horas no jantar, escuta o Quinteto D. 956 de Schubert e de repente se deixa levar pela audição cacofônica de qualquer programa pinga-sangue das nossas tupiniquins tardes televisivas, compõe salmos como se fora Davi até que o inspirado intelecto é aplacado pelo brutal materialismo do intestino que reclama alívio, forma na alma a imagem da mulher amada como se a ela declamasse lirismo debaixo do Balcão de Verona e logo se encontra perscrutando as formas rotundas e sensuais da fútil piriguete que passa ao lado... Êxtase espiritual e adrenalina corporal se intercalam e se alternam sem, contudo, se confundirem na atenção-e-consciência humana.

47. Depois de tanta feiúra criativa, anunciam-se melhores e mais bem-aventurados tempos para a Literatura. Eis o profético sinal: O adjetivo "bonito" está [outra vez] deixando de ser clichê.

48. O casamento é a mais justa e média harmonia entre celibato e fornicação. É o [virtuoso] "mezzo del cammin" da sexualidade.

48. O filósofo cristão não faz emergir, basilarmente, sua condição de desbravador intelectual do paradoxo socrático "Só sei que nada sei." Não se deve primeiro diminuir o valor da possibilidade (positiva ou negativa) de se estar na "posse" de certezas (verdadeiras ou falsas); deve-se primeiro reduzir o valor do potencial de o homem possuí-las por si mesmo. "Só sei que nada sou" é o ponto de partida do filósofo que compreende que a cognoscente Atenas (a da cicuta) é serva da cognoscível Jerusalém (a da cruz) -- a primeira assassina a Razão e ela morre; a segunda, martiriza a Verdade e ela ressuscita. Do fiel perscrutador da Realidade não se dirá, então: "[...] a tua sabedoria e o teu conhecimento, isso te fez desviar." (Isaías 47:10)

50. A Inconsciência é a padroeira do Pecado. Todos os Mandamentos são, portanto, "elixires" de Consciência.

51. Tu saberás que amas quanto teu tempo for remido pela face, pelo nome, pela alma e por tudo o que da "bella donzellina" vier ocupar os teus pensamentos. Mastigarás o pão e dela te recordarás, calcularás equações e a imagem dela espargirá os números para o além, tomarás água fresca e o sagrado vulto febrilmente te aquecerá o sangue, te achegarás ao sono e da tua luneta terrestre, em sonhos, tu a verás regando lírios na lua. Tu saberás que não amas quando pensares um dia: "Hoje, nela eu não pensei."

52. O louco mantém transtornadas idéias fixas impessoalmente conscientes. O amante, tranquilos ideais fixos pessoalmente subconscientes.

53. Tudo no homem é grandioso. Até mesmo sua mais abjeta miséria.

54. A Tirania é numérica. A Liberdade, literária.

55. Aquilo que na infância nós chamamos de Primeiro Amor não foi o nosso primeiro amor. Nós olhamos e vimos a garota que primeiro nos colocou "borboletas no estômago", que nos fez suar frio como se nossa pele tocasse algo como um zero absoluto incandescente, que áspera e docemente nos fez engolir palavras não ditas numa garganta ao mesmo tempo seca e úmida, que nos fez tremer as pernas com a cadente força dos joelhos desconjuntados de Golias; nós olhamos, nós vimos e... não a amamos. Não amamos ali uma mulher. Ali nós tocamos "A Mulher", quer dizer, nos deparamos então com o Feminino mais substancial: e o Homem amou a Mulher... Amamos a Filha de Eva, mas não a Ana, não a Luísa, não a Mônica. Fomos despertos para as virtudes flamejantes -- com suas fortes ações e fortes reações -- do Amor no corpo, no espírito e na alma, porém, neste despertar efetuou-se apenas o sentir das impressões puras e sublimadas (dos arquétipos, enfim) e não sua prática e plena aplicação, não sua personalíssima solidez que é o contato unitivo do homem-indivíduo com a mulher-indivíduo. Tolo, portanto, é aquele que busca e quer reviver-e-restaurar esse idílio castamente primordial. Tolo é o homem que desata a procurar qualquer coisa que se pareça com os dias nos quais o coração queria sair pela boca, quando o seu Adão interior acordava do sono sem uma das suas costelas... O amor da nossa vida sempre terá nome, endereço e uma realista vida fora das campinas do Éden. Será o amor primeiro e último, o amor que não será "eterno enquanto dure" (no dizer de Vinícius de Morais), o amor que aspira consumar-se na Terra para povoar de sonho e descendência a Eternidade.

56. A perícia judicial é o ordálio moderno.

57. Não tenho nada -- absolutamente nada! -- contra aquilo que os entendidos e desentendidos chamam genericamente de "livros de auto-ajuda". O Dr. Augusto Cury fez e faz mais pela Humanidade que todos estes pseudo-salvadores da Civilização Ocidental que maldosamente o criticam. Estes gnomos pedantescos realmente acreditam que um verso de Virgílio ou de Shakespeare seja capaz de por um depressivo de pé, capacitando-o, pelas vias do Belo Complexo, a enfrentar o Mundo com um soneto alexandrino na ponta da língua? O sofredor carece de palpáveis verdades que o apoiem -- por mais simplórias, piegas e clichês que elas sejam quando vertidas para as páginas de um livro. Estes durões eruditos de cachimbo em riste não são "duros"; são moleques cuja dureza não passa de geléia congelada, são tão sólidos quanto os dejetos de qualquer cão defecando nas margens do lago Vostok.

58. Não existe Democracia -- poder do povo.  Existe, no máximo, "Demoarquia" -- governo do povo.

59. A Humanidade em tudo nasce nua -- nudez bruta. Nada cobre seu corpo, nada recobre seu espírito, nada encobre sua alma. Tudo, respectivamente, é toscamente biológico, animalesco e irracional. Sem vestes, sem valores, sem idéias. Um dia, descobre-se a polivalente Luz: surge então o Fogo para o industrioso conforto material, surge no monte fulguroso o Mandamento para o equilíbrio das relações, surge reluzente a Razão perpassando todo condutivo caminhar humano. Erguendo-se da barbárie cavernesca, de repente dá-se um "salto" e produz-se horizontalmente muito: muitas coisas na Técnica, muitas coisas na Arte, muitas coisas na Ciência. A Civilização amontoa, enfim, tanto singular aparato indispensável quanto desnecessárias quinquilharias e fúteis parafernálias -- sempre plurais. Conforme, porém, vai a Humanidade avançando em profundidade vertical, ela se despe das plumas e firulas, põem abaixo os rococós e multiplica para a aniquilação os enciclopedismos. O inútil acumulado é descoberto, então. Consciente, o Homem vai re-adentrando o Éden: consomem-se as túnicas de peles e, por fim, apodrecem as folhas de figueira. A nudez original, serena e plena, outra vez o toma.

60. O covarde sempre será ultra-corajoso quando agir nas fronteiras morais das questiúnculas do dia-a-dia, alguém capaz de conclamar céus e terra para uma batalha terminal contra qualquer centelha de incômoda miudeza que bloquear seu inútil e desimportante caminho. Porém, o corajoso -- o homem integral -- jamais colocará os olhos naquilo que a luz do dia esconde, afinal, procurar pêlo em ovo e chifre em cabeça de cavalo é uma missão destinada exclusivamente à variabilidade existencial dos idiotas. O covarde empenha sua força no nada infértil: a pedra no meio do caminho é um grão de areia. O corajoso escolhe suas batalhas e destemidamente as trava para além do seu ânimo circunstancial: toda uma cordilheira torna-se, então, um grão de areia.

61. Oh, minh'alma, canta ao Senhor um salmo teu, / compõe solitário uma melodia para Sião, / entoa um hino para Caifás se lamentar / e o coração rasgar com a vara de Arão. 

62. Todo discurso épico cheirará à aranzel piegas se não for dito e ouvido por quem o sente cheio dos frêmitos mais sinceros do ideal presente que o gera. Um discurso: 

Vede as fileiras, vede as flâmulas, vede os homens! 
Há o horizonte adiante e há a queda abaixo. Correreis?
Viestes à esta planície para afirmar nossa divina filiação
ou, como Judas, ir tropeçando ao campo de sangue?
Que temor haja no coração do homem que para trás volver.
Que tremor haja nos ossos do homem que para frente não ir. 
Às armas não direi. Mas às almas! Enfrentai antes as almas
dos ímpios que se batem contra os nossos pacíficos lares. 
Por esta terra de homens livres, Davi erguerá outra vez sua funda!

63. O Estado é a ponta da lança do Anticristo. 

64. Quem pôs os olhos no céu e da nuvem sobre a praça recolheu na garganta a última gota? O remanescente das chuvas não é à terra que aproveita. Deveria o homem por a cara para fora e deixar-se molhar. Molhar-se como o alegre filhote de urso que pela primeira vez trota pelas corredeiras atrás dos salmões procriadores. Firme alegria esta! -- a alegria de quem não negou a infância, mas a cumulou com adultez. 

65. Há uma lágrima que o sal despreza: é a doce lágrima de uma mãe. 

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