domingo, 8 de março de 2015

Outubro de 2012

Não há arauto nesta corte. Então anuncio eu: 
Nas chamas do Fim a última palmeira
feito lenha troiana consumindo-se crepita. 
Como barco-funeral de heróico escandinavo, 
amigo de Peri, ruma ao nada do Hades
a arca pelos dedos do homem cerrada. 
A próspera Pindorama está acabada;
o túmulo de Paranhos é seu lugar.

Da helena pólis a sapiente razão não temos.
Da casta de Enéas, sequer o pó dos vícios sepultos.
Enferrujado o trilho, corroído o dormente,
talvez o derradeiro apito -- fantasmagórico silvo --
em noite de lua quieta se ouça novamente. 
Apodreceu açucarado o rico cafezal. 
A próspera Pindorama está acabada;
o túmulo de Paranhos é seu lugar.

Do pardo-cinza das antigas fotos
o salão, vede!, se encheu. Cinco anciãos 
incensam o reto caminho por Tupã iniciado
e pelo Cordeiro terminado. Chico Maurício
aponta a carabina para o alcaide, 
Odilon um discurso-exortação escreve. 
A próspera Pindorama está acabada;
o túmulo de Paranhos é seu lugar.

Jorge Miguel com vulpino olhar nos fustiga,
O bondoso Furlan quieto chora. 
Carlos Professor lamenta: "É esta a nova Jericó? 
Que hecatombe tuas muralhas derribou? 
Que guerra entre irmãos tuas entranhas expôs? 
Por que, Mestra História, rejeitaram teus conselhos?" 
A próspera Pindorama está acabada;
o túmulo de Paranhos é seu lugar.

Vós que ouvis, vós os que em temor me ouvis:
Levareis para o campo da Santa Cruz este pecado?
Imitando Nero com a lira, assoviareis 
enquanto arde a Pindorama das duas colinas? 
Nossa letra é amor, nosso amor hoje é livro:
Não seja ele combustível para o holocausto de Alexandria... 
A próspera Pindorama está acabada;
o túmulo de Paranhos é seu lugar.

[Inspirado em "Setembro de 1913", de Yeats]

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